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Linguagem Simples: humanize as informações para quem lê

Linguagem Simples: humanize as informações para quem lê

Você já leu manuais, formulários, termos de compromisso, placas e não entendeu o que eles queriam dizer? É nessas horas que entra o conceito de Plain Language (Linguagem Simples). Ela tem como objetivo facilitar a compreensão e consumo de textos.

Simplificar o entendimento pode parecer algo que sempre esteve intrínseco, desde nossas aulas iniciais de Português.  Na verdade, esse conceito começou a ganhar mais visibilidade entre os anos 1940 e 1970 no Reino Unido e Estados Unidos. Aqui no Brasil ainda temos um longo caminho a percorrer com o nosso “juridiquês”.

De acordo com a obra “Clareza em textos de e-gov, uma questão de cidadania” de Heloísa Fischer, jornalista e referência no assunto, a linguagem simples “considera o público a quem a comunicação se destina para organizar as ideias, escolher as palavras mais familiares, estruturar as frases e determinar o design”.

Dessa forma, o leitor “consegue localizar com rapidez a informação de que precisa, entendê-la e usá-la”.

Para que isso aconteça, a linguagem também deve ser visualmente convidativa e ter o tom de uma conversa amigável e respeitosa. Antes de mais nada, simplificar a linguagem é um recurso de comunicação e uma causa social, não uma maneira informal de escrever.

É um recurso comunicativo, na medida em que compreende um conjunto de práticas voltadas para elaboração de textos fáceis de ler, e uma causa social, pois defende que todas as pessoas têm o direito de entender as informações do seu cotidiano.

Exemplo de uso da linguagem simples

Plain Writing Act 

Em 13 de outubro de 2010, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, protagonizou um dos momentos mais importantes para o movimento da linguagem simples: assinou o Plain Writing Act.

A lei determina que as agências federais redijam “comunicações governamentais claras que o público possa compreender e usar”, o que envolve uso de linguagem clara em todos os documentos e sites da administração federal americana.

O objetivo era melhorar a eficácia e a prestação de contas das agências federais, promovendo uma comunicação que o público pudesse entender e usar.

Todos os órgãos federais tinham o prazo de um ano para:

  • Designar um oficial sênior para "escrita simples";

  • Explicar os requisitos da lei para os funcionários;

  • Usar linguagem simples em qualquer documento com informações sobre benefícios e serviços e exigências do governo;

  • Publicar um relatório de conformidade que atendesse aos requisitos da lei em sua página web de linguagem simples.

A data de assinatura do Plain Writing Act (13 de outubro) se tornou tão simbólica que passou a ser considerada o Dia Internacional da Linguagem Simples.

E a Linguagem Simples no resto do mundo?

Entre os países que também se mobilizaram em torno da clareza, estão: 

  • África do Sul: A versão em inglês da Constituição de 1996 contou com a consultoria de especialistas em linguagem clara.

  • México: Em 2004, o governo lançou o programa “Lenguaje Ciudadano” (Linguagem Cidadã).

  • Portugal: Em 2007, a ativista Sandra Fisher-Martins fundou a consultoria Português Claro depois de conhecer iniciativas em prol da clareza na Inglaterra.

  • Colômbia: Em 2013, o presidente Juan Manuel Santos lançou o Programa de Serviço ao Cidadão do Departamento Nacional de Planejamento e determinou que “toda a informação ao cidadão deve estar em linguagem clara”.

  • Chile: Em 2017 foi criada a Red de Lenguaje Claro, cujo objetivo era promover o uso de linguagem clara em instituições públicas. 

  • Argentina: O Senado Federal recebeu as primeiras jornadas de linguagem clara em novembro de 2017, data em que foi formalizada a criação da Red Lenguaje Claro. Joanna Richardson, na época presidente da associação PLAIN, foi um nome importante dessa articulação. 

Onde fica o Brasil nessa história?

O movimento do Plain Language está presente atualmente em mais de 30 países e vem ganhando espaço no Brasil. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 6256/2019 que estabelece a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública. O PL contém sete artigos, listando objetivos, definições, diretrizes e orientações sobre uso da linguagem simples.

Embora não mencione o Plain Language, a proposta menciona a Lei de Acesso à Informação como marco referencial.

O projeto sugere que os textos sejam claros, diretos, objetivos e com frases curtas. A partir disso, mais pessoas conseguirão localizar, entender e usar informações de órgãos e entidades do governo.

Pensando na complexidade da linguagem usada pela a administração pública e nos dados de analfabetismo no Brasil, a Prefeitura de São Paulo criou o Programa Municipal de Linguagem Simples em 2019.

O programa possui 3 objetivos:

  • Engajar e capacitar servidores;
  • Simplificar documentos públicos;
  • Disseminar o tema de Linguagem Simples.

Em março de 2021, foi lançada a Rede Linguagem Simples Brasil, uma rede com o objetivo de reunir órgãos públicos e entidades da sociedade para propor maneiras de facilitar a linguagem oferecida nos serviços à população.

A coordenação é feita pela Secretaria de Governo Digital do Governo Federal, pelo Íris Lab do Governo do Ceará e pelo (011) .lab da Prefeitura de São Paulo.

Diretrizes da Linguagem Simples

 

Em seu curso “Primeiros passos para uso de Linguagem Simples”, Heloísa Fischer apresenta algumas diretrizes desse tipo de escrita:

  1. Empatia

Quem escreve deve se imaginar no lugar de quem lê, ou seja, o texto precisa ser centrado na pessoa que vai fazer a leitura. Por isso, é importante considerar a capacidade das pessoas que vão ler o texto para compreenderem as informações.

  1. Hierarquia da informação

A estrutura das informações apresentadas deve seguir uma ordem lógica, ou seja, o que for mais essencial deve vir primeiro, e na sequência, as informações complementares e auxiliares.

Um exemplo disso é a pirâmide invertida usada por profissionais de jornalismo na elaboração de notícias.

  1. Palavra conhecida

Ao escrever um texto é normal que a pessoa escolha palavras que são mais familiares para ela, porém seguindo o princípio da empatia, e se colocando no lugar do leitor, devemos usar palavras mais conhecidas e usuais.

Outro detalhe: evitar jargões, termos técnicos e siglas, mas em caso de real necessidade, explicar em seguida o que cada um deles significa.

  1. Palavra concreta

Palavras abstratas denominam ações, estados e qualidades, por exemplo tristeza, saudade e confiança. O uso desse tipo de palavra dificulta na hora da leitura, e o mesmo acontece no caso de uso de substantivos abstratos em uma frase.

Uma sugestão é usar palavras concretas no lugar e trocar os substantivos abstratos por verbos de ação.

  • Em vez de: Leve em consideração ao nível de leitura da pessoas
  • Prefira: Considere o nível de leitura das pessoas.
  1. Frase curta

As diretrizes internacionais de Linguagem Simples sugerem frases com até 20 ou 25 palavras. Isso não significa que a clareza da sua frase depende totalmente da quantidade de palavras, há outros fatores envolvidos, mas não escrever frases muito extensas já é um começo.

  1. Frase na ordem direta

Seguir a ordem direta de uma frase significa usar a seguinte estrutura: Sujeito + Verbo + Complemento. Ela ajuda na compreensão dos textos, ou seja, quanto menos você escrever como o Yoda fala, melhor para seus leitores.

  1. Diagnóstico

Depois de escrever seu texto, e de pensar em como facilitar a leitura, está na hora de revisar o trabalho feito e se fazer algumas perguntas:

  • Há alguma informação que desconsidere a pessoa que lê?

  • Há alguma informação fora da ordem lógica?

  • Há alguma palavra pouco conhecida?

  • Há alguma palavra abstrata?

  • Há alguma frase longa demais?

  • Há frases em ordem indireta?

Adotar a Linguagem Simples é dar a todos o direito de fazer parte desse mundo repleto de conhecimento escrito. Acima de tudo, é humanizar a informação.

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