Como escrever um texto narrativo

Como escrever um texto narrativo

Imagem: Freepik

Escritores necessitam evoluir na escrita. Zenão, filósofo do estoicismo, foi aconselhado pelo oráculo a conversar com os mortos para aproveitar melhor a vida. Escritores podem seguir um caminho parecido. Sabem como? Tirar da estante Machado de Assis ou René Magritte da parede da sala e colocá-los no papel não são más ideias, por exemplo.

Repensar o processo criativo individual me parece uma necessidade constante de escritores e produtores de conteúdo nos dias de hoje. Se não consegue sistematizar as ideias quando precisa escrever ou ainda não têm um assunto definido, pode ser que uma rápida leitura de um parágrafo de um texto literário ou a observação minuciosa de um quadro desperte para algo provocativo e que merece um texto de qualidade a ser publicado.

Machado de Assis e René Magritte são citados aqui apenas como exemplos. Escritores podem buscar fontes de informação nos mais diversos textos clássicos ou contemporâneos de sua preferência ou em obras de arte de seus artistas preferidos.

Basta, para isso, buscar fontes de informação confiáveis disponíveis na internet. Seguem algumas dicas de textos para leitura que podem ajudá-lo em sua escrita:

LEVIN, Shaun. No such thing as writer’s block. Recurso adicional do curso “Escrita criativa para iniciantes: dê vida à sua história”. Disponível em: domestika.org/pt.

LISPECTOR, Clarice. As três experiências. In: Portal da Crônica Brasileira. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5887/as-tres-experiencias. Acesso em: 20/05/2022.

Crônica da escritora Clarice Lispector em que a autora conta a própria experiência com a escrita.

VALEK, Aline. As armas da pessoa criativa: dicas para dominar a arte milenar da criatividade. Disponível em:  https://medium.com/mulheres-que-escrevem/as-armas-da-pessoa-criativa-d5fbaeed185a. Acesso em 15 mai. 2022.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Disponível para venda em: https://www.livrariadavila.com.br/um-teto-todo-seu-359625/p.

Ensaio em que Virginia Woolf faz reflexões significativas a respeito do ato da escrita.

1- A publicação de textos narrativos

Divulgar meu trabalho no Ambiente de Leitura Carlos Romero me ajudou a organizar cada vez mais a rotina de escrita e dedicar um tempo à produção de textos narrativos, algo que sempre gostei de fazer.

Considero esse espaço de publicação uma oportunidade de divulgar meu trabalho e também uma forma de manter contato com os leitores e leitoras, recebendo destes um feedback constante a respeito dos textos publicados na plataforma.

Eles costumam deixar comentários no site ou por meio do meu Facebook, outro canal de contato com esse público leitor. O conteúdo postado no Ambiente de Leitura Carlos Romero é visualizado por um grande público, o que é possível observar por meio da leitura dos textos de diversos autores que ali publicam.

Em consulta realizada em 15 de maio de 2022 observei que são trinta e cinco autores com textos publicados na plataforma. De outubro de 2021 a maio de 2022 foram onze textos narrativos que publiquei na página do Ambiente de Leitura Carlos Romero:

  • Tudo em terra firme
  • Peer support
  • O cotidiano da minha rua
  • Rupturas e frações do tempo de maturação das ideias
  • As paredes têm memórias
  • Tudo em terra firme-parte 2
  • Da mobilidade dos objetos cotidianos
  • Das coisas supérfluas
  • Diferenças à parte, nos amamos
  • Na parede da sala
  • Georgette

2-A escrita de textos narrativos a partir de poemas

O texto de um poema também pode ser um instrumento facilitador da escrita de textos narrativos. Uma das estratégias para se chegar ao texto narrativo por meio de um poema é a seguinte: escolhe-se uma imagem, em geral uma pintura.

Em meu caso, escolhi o quadro de René Magritte, intitulado Georgette ao piano, de 1923 (Georgette at the piano, em inglês). Fiz o poema com base na imagem e publiquei em meu blog pessoal, cujo título é Oito Ruas Microgeográficas:

olhei pela porta e vi Georgette ao piano

dedos e mãos suaves

distorcem o real escondido à sombra

da cor neutra

não me precipito na tomada de decisões

adio a conversa

e deixo para depois o conflito

trancado no peito

Georgette já não tem olhos

audição

língua

coração

tem os nervos à flor da pele,

guardados na imensidão.

 

Rosa Acassia Luizari

 

Eu queria fazer uma narrativa a partir deste poema. O texto está publicado no Ambiente de Leitura Carlos Romero, em https://www.carlosromero.com.br/2022/05/georgette.html. O resultado ficou assim:

Olhei pela porta e vi Georgette ao piano. Dedos e mãos suaves distorcem o real escondido à sombra da cor neutra. Evito me precipitar na tomada de decisões. Adio a conversa e deixo para depois o conflito trancado no peito. Georgette já não tem olhos, audição, língua. Tem os nervos à flor da pele e a face cheia de sentimentos ocultos. Os sentidos despertam em Georgette a curiosidade de redesenhar o mundo. Por isso, cria a própria arte ao piano. Improvisa Mozart com a Sonata em Dó Maior para buscar equilíbrio.

 Mozart reforça a calma no semblante de Georgette e parece trazer de volta uma certa alegria. Há quanto tempo ela não se sentia assim. Notas quebradas e a moça segue caminhando pela música. Georgette desconhece a semiótica, mas entende perfeitamente as próprias emoções. É serena na medida certa.

A esta altura da jornada, palavras seguem outra trilha. Ao alcance das mãos, a moça faz a escolha que mais lhe agrada. Allegro. Andante. Alegretto. Ouço e vejo o que ninguém mais ouve e vê. Meus sentidos estão plenos. Olhos, audição, língua e tudo o que já não cabe em Georgette.

Eu a conheci completa. Trazia nos olhos os tons do campo; nos ouvidos, as lições da infância; na língua, o sabor das tardes amenas e as receitas que tantas vezes experimentei. Sozinha na solidão que lhe compete, exala o som das angústias e vazios da mulher de seu tempo. Georgette acreditava que poderia exalar apenas isso.

Nem sempre olha diretamente as próprias mãos ao tocar. Pode ver tudo ao seu redor com os olhos da alma. É tão mais degustável o que se pode ver e guardar neste cantinho do universo de cada um. A alma é uma casa que abriga todas as nossas condições e a condição de ser mulher agora me parece entediante para Georgette.

Ao piano, deságua. Expressa o que jamais poderia ser em minha frente ou em sociedade. Quando toca, é olhos, audição e língua. Os discursos gerados internamente surgem nos intervalos entre as notas.

A filha dela brinca no jardim. Começa a experimentar o mundo à volta de um modo bem diferente da mãe. Emily corre entre as flores e uma mistura generosa de delicadeza e força surge. Meninas são delicadas, e fortes também. Dentre as poucas escolhas que pôde fazer, Georgette escolheu ser delicada.

 Emily começou a fazer escolhas na infância. Escolheu ser forte e gosta de livros, pintura e cavalos. É alegre a menina. Assim o quis. Quando adulta ao piano, será observada de longe e alguém verá os olhos, ouvidos e a face completa. Despertará amores, talvez mais do que Georgette e isso não importa. Se escolher amar, que seja feliz. 

(Texto inspirado no quadro Georgette ao piano, de René Magritte, 1923).

O início do primeiro parágrafo é o poema quase inteiro. O que vem depois foi escrito com base na observação dos detalhes do quadro de Magritte. O interessante neste tipo de exercício é que a percepção de cada observador se diferencia e, consequentemente, o texto apresentará características e detalhes que, percebidos por uns, estarão ausentes nas produções textuais de outros.

Até mesmo um escritor que produz uma narrativa inspirada neste quadro hoje poderá, daqui a um tempo, escrever um texto diferente ao observar esse mesmo trabalho artístico. É relevante pensar nas experiências vividas pelo observador no decorrer do tempo, o que pode influenciar o estilo e assunto escolhido pelo escritor.

Isso pode contribuir para a sofisticação na escrita à medida em que detalhes podem ser acrescentados ou considerados irrelevantes, a depender de quando de escreve. Cabe ao escritor fazer as melhores escolhas para obter resultados satisfatórios em sua escrita.   

A plataforma da PRENSA é um meio interessante de publicação de textos narrativos. Na aba VARIEDADES, há um espaço para publicação de contos e crônicas. Então creators, vamos alimentar essa plataforma com seus trabalhos escritos e divulgá-los para o mundo? Esperamos vocês!


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