Semana de arte moderna de 1922: os manifestos modernistas

Semana de arte moderna de 1922: os manifestos modernistas

Nesse ano que antecede em 1 ano a comemoração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, faço uma breve reflexão sobre o significado dos manifestos nacionalistas e artísticos da primeira geração moderna.


 

*Texto feito anteriormente para publicação de um grupo de divulgação literária voltado para o vestibular (GEQUIA / Jardim da Caverna / Núcleo do vestibular)

Contextualização histórica

Para contextualizar, é importante que tenhamos em mente uma  questão crucial, a semana de arte moderna foi uma série de manifestos do começo ao fim, talvez não tenhamos acesso a todos, pois se perderam no tempo. No entanto, não há desespero nisso, até porque os documentos mais importantes ficaram e permanecem na nossa história.

Nesse sentido, coloco uma dúvida que tem a ver com o contexto: por que surgiram tantos manifestos? Qual a origem disso tudo? Por que os artistas surgiam com essa escrita bastante polêmica? E procurando responder essas perguntas de forma bem sucinta elenco alguns pontos interessantes, que são a situação política, a econômica e a cultural.

Contexto histórico: situação política

Começando pela situação política, podemos recordar nas nossas aulas de história sobre o Brasil Império, e como foi proclamada a independência, e depois a república. Politicamente falando, não houve uma mudança muito relevante com a independência, porque o rei continuou governando, com o apoio da elite colonial, ou seja, o rei governava com apoio dos que já administravam o Brasil durante a época das capitanias hereditárias. 

No entanto, importante ressaltar que aqui já foi império, inclusive um dos únicos países da américa latina a se constituir enquanto tal, e também tinha as suas próprias leis e costumes, que tinham muito a ver com a época dos Estado nacionais. O Estado nacional era diferente do regime feudal, pois, no feudalismo o rei não tinha o poder absoluto, e sim o senhor feudal, já no Estado nacional era o rei quem detinha e centralizava todo o poder, mandando e desmandando, esses Estados também foram chamados de absolutistas (por causa do poder absoluto), e no Brasil o poder moderador era o que garantia ao rei essa dominância (entendamos Estado como sinônimo de país). 

Ora, esse poder todo não foi fácil de ser quebrado, mas acabou mostrando debilidades, principalmente por conta do parasitismo da nobreza, da tragédia das guerras da época, do regime escravista, do conflito de interesses, etc, etc. Quando foi proclamada a república, o regime mostrava sinais de fraqueza, e foram longos anos, para finalizar com a posse do Marechal Deodoro da Fonseca, início do período chamado de república velha.

No entanto, esse período não esgotou as instabilidades, na verdade as intensificou, e para citar exemplos vou citar alguns conflitos que surgiram durante o início da república: cangaço, canudos, revolta dos 18 do forte de Copacabana, coluna prestes, entre outros. Foi nesse momento histórico que surgiu a semana da arte moderna, com o fim da república velha e início da era Vargas.

Contexto histórico: situação econômica

Na questão econômica, principalmente enquanto complemento dessa política nacional, temos os chamados senhores de engenho, a princípio. 

Resumindo, na época colonial o Brasil basicamente exportava coisas, tanto ouro, quanto cana, quanto pau-brasil, era uma colônia extrativista de grande porte, e comércio mundial. Quem dominava esse regime econômico eram os fazendeiros, basicamente donos de terra, e que inclusive eram os únicos beneficiados pelos governantes europeus das capitanias, ou seja, as próprias vilas ou cidades eram todas voltadas para o enriquecimento pessoal de poucos. 

Com a vinda da família real, principalmente durante a época napoleônica, montou-se aqui uma urbanização incipiente, principalmente na sede do império, ou seja, no Rio de Janeiro. Alí, escritores como Machado de Assis podem explicar melhor do que eu como eram as relações econômicas, pois todos os centros urbanos criam o chamado mercado interno, de trabalhadores livres e pequenos comerciantes, o que já é diferente daquele regime bastante escravista e extrativista. 

Com o tempo, através da instituição de escolas e faculdades, principalmente de escolas militares, com o fim daquele modelo tradicional e jesuíta de ensino, com a urbanização e ascensão de pequenos comerciantes, o Brasil acaba ficando num impasse. Pensem assim, se existiam trabalhadores livres, que vinham aqui para se estabelecer e tentar uma nova vida, e se existiam guerras no velho continente, o que era necessário acontecer? Ora, o Brasil passava por anos de exploração colonial, por eras de escravidão, e por produção muito abaixo da média global, a produção que era feita a partir da mão de obra escrava e tecnicas arcaicas não acompanhavam as indústrias emergentes e poderosas de uma revolução inglesa, e com isso o colapso era evidente. 

Esses trabalhadores livres, vamos chamar de classe-média, pressionaram as estruturas econômicas, passaram a questionar o império, e proclamaram a república, porém não destronaram as oligarquias, que eram os senhores de engenho e latifundiários, citados no primeiro parágrafo. 

Portanto, a época da república velha se inicia em mais conflitos, as oligarquias perdendo força, a queda na exportação de café, inclusive com muitas sacas sendo queimadas, a crise de 29 no final desse período, o setor agrário-exportador perdendo força, e o desenvolvimento industrial ganhando espaço.

As ramificações no terreno cultural

Com todos os conflitos citados, obviamente teríamos ramificações na cultura, que tanto justificavam o regime colonial agro-exportador, quanto o denunciavam. A princípio, ideias das chamadas ciências modernas, que vieram com o iluminismo e o fim do Estado feudal, começaram a crescer aqui e ganharam adeptos, e uma dessas ideias era o positivismo, a ideia que levava como lema “ordem e o progresso”, estampado na bandeira nacional até hoje. 

Os pensadores, que tinham como princípio essa filosofia, começaram a justificar uma república nos moldes liberais, e também questionaram a escravidão, mas não de um ponto de vista contrário a desigualdade racial, na verdade, durante a época da abolição, cientistas tinham como consenso a superioridade branca, o que inclusive era justificado pelo positivismo, mas defendiam a abolição de um ponto de vista de exaltação da miscinegação para o embranquecimento. 

O Brasil sempre foi um país de maioria negra, e inclusive os brancos não nasciam com descendência apenas europeia, e isso acabava estereotipando a civilização brasileira como inferior, e aí começamos a era dos países periféricos e dos países centrais. Pensadores mestiços e negros brasileiros acabavam se colocando enquanto inferiores através das teorias de países como França, Alemanha, Inglaterra, e muitos tinham pesquisas genéticas e evolucionistas para tentar provar uma ideia de que quanto maior a miscigenação, maior o embranquecimento, e menor a inferioridade, o que possibilitava, na visão racista, um maior desenvolvimento nacional. 

Além disso, o evolucionismo, também chamado de darwinismo social, tentava culpabilizar o atraso brasileiro pelo fator etnico, mas a partir disso surgiram contradições. 

Com a evolução econômica, que expliquei anteriormente, muitos intelectuais também passaram a compreender as ramificações desse sistema para a cultura. Por exemplo, num sistema de oligarquias, pelo domínio de coronéis e pela competição entre eles, o Brasil acabava se dividindo em vários territórios, e não tinha unidade, ou seja, a unidade nacional que partia das oligarquias era fraca porque impedia a modernização em detrimento da continuidade do poder hegemônico. 

O poder hegemônico, além disso, não produzia nada para o mercado interno, e isso também impedia a modernização, porque todo o eixo econômico era voltado não para o próprio país, mas para o estrangeiro, exportando matéria-prima e sendo obrigado a importar tecnologia por um preço muito mais elevado. Parece que a situação não mudou muito daquela época para hoje não é? Porém, naquela época houve tentativa de acabar com essa economia dependente das importações estrangeiras, na tentativa de criar uma unidade nacional, e de pensar a cultura popular de forma mais coerente.

É aí que entramos na semana de arte moderna, e nos seus manifestos. Os jovens artistas questionaram esse regime, na época, e tiveram apoio de representantes um pouco contraditórios. Por exemplo, Paulo Prado, um dos idealizadores da semana, sendo reconhecido como uma espécie de mecenas dos artistas, era um latifundiário do café, e tinha no seu imaginário uma necessidade de voltar atrás e retomar aquela economia de base agrária. Inclusive, a semana ocorreu em São Paulo, no teatro municipal, que era utilizado para ensaiar peças de teatro sobre o movimento das bandeiras, uma dessas foi “o contratador de diamantes”, peça ensaiada e apresentada por membros da elite paulista, como o já citado Paulo Prado, Affonso Arinos e Graça Aranha.

Além disso, muitos artistas da semana se viram influenciados principalmente por poetas como Blaise Cendrars, que era francês. Ainda, muitos depoimentos de artistas e intelectuais brasileiros mostram que o fascínio que tinham pela terra natal se devia em grande parte pela convivência estrangeira. 

Fiz este brevíssimo relato para mostrar que as contradições eram comuns, e vinham com críticas também. A princípio, por exemplo, os modernos tinham uma visão de ruptura com os aspectos formais e mais internacionalistas da arte, ou seja, queriam romper apenas com aquela métrica dos versos, com aqueles traços precisos dos desenhos, com aquela linguagem pouco compreensível, presente na arte clássica de qualquer civilização mundial, mas depois perceberam que os temas que abordavam também eram importantes. A partir disso, tentaram resgatar elementos da cultura popular, como o samba, a capoeira, o folclore, e isso era um movimento contínuo, eles basicamente ajudaram a divulgar, pois não era uma tentativa de se criar uma cultura nacional e sim de exaltá-la. 

Os manifestos:

Nessa perspectiva, muitos manifestos surgiram, para justificar essa ideia, como é o caso do manifesto antropofágico, de Oswald. Para entenderem bem, esse manifesto repercutiu até mesmo na música e na arte posterior ao modernismo, com os tropicalistas e neoconcretistas, e basicamente defendia a idéia de que nós comemos cultura, ou seja, que a gente deveria interpretar e internalizar a cultura dos povos que por aqui passaram e que influenciaram a nossa construção nacional, tanto os europeus quanto os africanos, até mesmo os americanos. Contudo, não era uma importação simples de cópia, e sim uma importação interpretando e reorganizando os símbolos que cada cultura transmitia para uma realidade mais própria, e isso dialogando com as manifestações indígenas. 

Ora, é óbvio que isso foi objeto de muitas reflexões, por exemplo; é possível importarmos algo sem degenerar o nosso imaginário popular? O que de fato era importante resgatar do imaginário popular? Qual era o limiar entre o nacionalismo e a xenofobia? E isso se desenvolveu em muitas visões. 

A visão conservadora do nacionalismo surge a partir do Brasil império e ganha força no Brasil República.  Essa visão tinha embasamento em intelectuais estrangeiros, e basicamente recorria ao etnocentrismo para justificar o atraso da nossa civilização. Além disso, a evolução nacional, a partir dessa perspectiva alienada, transmitia a ideia de que tanto o regime oligárquico quanto o pensamento republicano deveriam coexistir, o que não foi possível tendo em vista os interesses dos próprios oligarcas, ou seja, interesses de manutenção do regime econômico colonial. 

Uma outra visão, que tinha por base o nacionalismo conservador, surge com Plínio Salgado e o movimento integralista, ou seja, uma exaltação mística do povo para a alienação do dever desse povo diante de um líder ditador. Como assim? Explico melhor: quando Hitler assume o poder com um discurso nacionalista, ele evoca as figuras populares da Alemanha, e faz uma mistificação, ou seja, constrói uma ideia irreal de nação, mas com pretensões de fazer dessa ideia uma espécie de doutrina anti-judaica, anti-comunista, imperialista, através de uma distorção de argumentos, inclusive com “fake news”. Essa era a tendência do movimento integralista, que exaltava a cultura nacional e criticava quem se opunha como inimigo da pátria, uma outra coisa comum desses discursos xenófobos, que com base no nacionalismo justificava uma série de opressões entre conterrâneos. 

A visão moderna bebe do nacionalismo conservador, mas toma outros rumos, inclusive diante de artistas com diversas linhas políticas. Mário de Andrade, por exemplo, com sua pesquisa musical, percebeu que o nacionalismo conversador, mesmo exaltando as criações folclóricas e a beleza natural, ao invés de criar uma imagem real do Brasil, criava uma imagem cosmética, era aquela famosa cultura exótica que gringo gosta de ver. 

Além disso, o diálogo internacional entre culturas era algo muito mal visto pelos críticos nacionalistas e conservadores, mas existia muito entre os modernos que buscavam não apenas o desenvolvimento formal das vanguardas que surgiram da europa (futurismo, cubismo, dadaísmo, expressionismo), mas também o estudo das diversas semelhanças entre as culturas ocidentais, sendo que tanto europeus, quanto americanos, são ocidentais. Ademais, os modernistas também criticavam o que chamavam de regionalismo, mesmo com ideólogos do movimento defendendo posições de separação entre estados. 

O regionalismo era isso, uma literatura focada em regiões e não no todo nacional, e a semana de arte moderna partiu de um regionalismo paulista, só que foi se diversificando em algo mais cosmopolita, e o que é cosmopolita? algo que vai além das fronteiras tanto regionais quanto nacionais. Esse regionalismo, por mais que pareça ser algo radicalmente nacional, surgia com uma pretensão do setor agrário-exportador, e esse setor tinha um viés de separação entre estados para subordinar todos a exportação agrária dependente dos países centrais, e, portanto, no nível econômico o regionalismo era menos nacionalista do que o cosmopolitismo que pregava a não divisão nacional. Assim sendo, o cosmopolitismo não pode ser confundido com esse tratamento da cultura de forma global, sem especificidades, os modernistas entendiam as especificidades brasileiras, mas acreditavam que tudo dialogava na construção de um todo. 

Essa penetração da cultura dos EUA, por exemplo, que ocorreu anos depois, foi o enterro dos ideais modernos nacionais, pois se desenhou o quadro que eles criticavam, a subordinação tanto da estética quanto dos conteúdos da arte ao entretenimento fugaz e comercial.   

A lógica por trás desses manifestos, inclusive dos que se desenvolveram em movimentos políticos de cunho facista, como é o caso do verde-amarelismo, está muito bem explicitada, o que farei agora é basicamente descrever cronologicamente os principais manifestos dessa primeira fase do modernismo, ou da semana de arte moderna de 22, com destaque para o pensamento nacionalista e cultural moderno.

Os manifestos:

Manifesto Pau-Brasil (1924): Conclama o povo a tomar consciência da sua nacionalidade, faz a crítica aos intelectuais alheios aos temas sociais, que estavam nas universidades e que pensavam mais na ciência e literatura europeia do que brasileira. Retoma a ideia de uma poesia bastante nativista, faz uma espécie de metáfora com Pero Vaz de Caminha, pois o artista acorda para a realidade nacional a partir desse espanto com a exuberante natureza em comparação com o mundo europeu, o Pero Vaz seria talvez o elemento simbólico desse encontro de culturas.

Verde amarelismo (1926): Surge como crítica ao nacionalismo dito “afrancesado” do pau-Brasil, e propunha um nacionalismo puro, através de elementos do folclore e dos mitos populares, para a criação de um primitivismo esotérico, pouco concreto. 

Escola da Anta (1927): O movimento que surge a partir do verde-amarelismo, ressaltando o nacionalismo conservador, ufanista e com viés fascista.

Manifesto antropofágico (1928): já citado anteriormente, manifesto que propunha, segundo Cândido

 uma atitude brasileira de devoração ritual dos valores europeus, a fim de superar a civilização patriarcal e capitalista, com suas normas rígidas no plano social e os seus recalques impostos, no plano psicológico” (CANDIDO, apud VILARINHO, 2021).

Referências:

VILARINHO, Sabrina. Modernismo: primeira fase literária. UOL: Mundo Educação. Disponível em: <https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/modernismoprimeira-fase-literaria.htm>. Acesso em: 20 de out. de 2021.

BERRIEL, Carlos. Tietê, tejo, sena: a obra de Paulo Prado. Tese (Doutorado em Teoria Literária) - Instituto de Estudos da Linguagem, departamento de teoria literária, universidade estadual de Campinas. Campinas, p. 250, 1994.

NASCIMENTO, M. F. dos S. et al. Mário de Andrade trezentos-e-cinquenta. Araraquara : Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação / Departamento de Literatura e Lingüística, 1988, p. 75 126.

SANTOS, Theotonio dos. Evolução histórica do Brasil: da colônia à crise da Nova

República. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 42. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001


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