Universidades públicas: fonte de grandes mentes ou antro de maconheiros?

Universidades públicas: fonte de grandes mentes ou antro de maconheiros?

As universidades públicas são criticadas por cidadãos em geral; ultimamente, até por quem deveria defendê-las. Em tempos de confusão de opiniões, é bom deparar-se com notícias como esta.


 


“As convocações feitas pela oposição é [sic] para discutir droga. E as drogas estão amplamente difundidas no Brasil. É o que a gente viu nas estatísticas: nas universidades é o dobro. Metade usa drogas. É por isso que eles plantam maconha, porque a demanda é tão grande, é tão natural, que eles plantam maconha”.

O discurso acima é retrato distorcido do comportamento das universidades brasileiras, as federais em particular, conforme mostram estudos nacionais e internacionais sobre postura das instituições de ensino superior pelo mundo. Ele foi divulgado nas redes sociais do próprio então ministro da Educação do governo atual, Abraham Weintraub - hoje ex-ministro. Foi parte de entrevista concedida por ele ao Jornal da Cidade Online em novembro de 2019.

Retrato não distorcido das universidades públicas

Em contrapartida, gestores da Universidade de Leidein, na cidade de Leida, sul da Holanda, divulgaram recentemente seu estudo anual sobre o desempenho das universidades pelo mundo. Trata-se de rankeamento das principais instituições acadêmicas. O método usado envolve vários ângulos de análises, mas é a quantidade de publicações científicas de cada uma delas que denota peso maior. O evento mais recente catalogou artigos publicados entre 2014 e 2017 para compor o anuário de 2019. A quantidade mínima para avaliação foi de mil textos registrados no banco de dados Web of Science Group nesse período.

Nesse universo analítico, 23 universidades brasileiras alcançaram a difícil marca. Uma característica interessante a ser destacada nesse grupo é que todas elas são públicas. Ou seja, o âmbito de ensino (público) duramente criticado por três autoridades brasileiras: o próprio presidente e dois de seus ministros, conforme se vê ao longo deste artigo. 

As universidades brasileiras elencadas no ranking holandês registraram 71000 artigos científicos. Dentre elas, a Universidade de São Paulo - USP é a mais bem colocada. Seus 17000 textos representam um quarto da produção nacional enviada para a instituição europeia. A Universidade Estadual Paulista - Unesp ocupou a segunda colocação, com 6000 publicações. Segue a Universidade de Campinas - UniCamp, que desenvolveu 5500 artigos.

Nota-se que, juntas, as três instituições do estado de São Paulo colaboraram com 40% dos artigos válidos para o rankeamento.

Objetivos árduos; críticas fáceis

Um item de peso considerável nos critérios de avaliação das instituições é o impacto produzido por seus trabalhos. A estratégia para chegar a esse peso envolve verificação constante da quantidade de vezes que um artigo é mencionado em outros trabalhos. O alcance das citações e o destaque destinado são instrumentos de observação.

Nesse quesito, talvez as universidades nacionais não tenham se saído a contento. Entretanto os motivos para tal são evidentes. E, certamente, nada têm a ver com a capacidade laboral dos corpos discentes e docentes. As instituições de ensino público têm sofrido reveses vindos de todo lado, de troca política de reitores a cortes de recursos financeiros. 

O ex-ministro da Educação do governo atual, Abraham Weintraub, marcou sua gestão por frases criticadas até mesmo por seus pares. Contudo ao anunciar corte de verbas para as universidades públicas, “extrapolou seu direito à incompetência”, nas palavras de dois de seus assessores mais próximos. 

O fato é que Weintraub seguia - e segue - linha de pensamento de seu chefe, o presidente Bolsonaro. No ano passado, ao falar para seus eleitores mais fiéis, este disse “a maioria ali [dos estudantes] é militante, não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 × 8, não sabe; se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada”. 

Participação das universidades brasileiras

Veja como as universidades brasileiras criaram impacto no mundo científico ao ter artigos citados por outros estudiosos no universo acadêmico:

  • USP - 5% das publicações
  • Unesp - 6% acima
  • Universidade Federal do Ceará - 7%
  • Universidade Federal da Bahia - 7%
  • Universidade Federal de São Carlos - 7%
  • Universidade Federal de Santa Catarina - 7%

As áreas de ciências físicas e de engenharia da Universidade federal do Ceará têm relevância de 9% no mundo acadêmico. Já nas chamadas “ciências da vida”, a Unicamp sobressai; a Universidade Federal da Paraíba lidera o rol em matemática e ciência da computação.

A Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, contemplou 14 trabalhos no registro do Web for Science de 2014 a 2017. Assim, destacou-se no campo de ciências sociais e humanidades. A instituição merece menção porque dois de seus artigos surpreenderam os analistas ao estudar a economia rural sob efeitos das mudanças climáticas.

Um entrave técnico

Há uma questão processual que dificulta posicionamento mais bem colocado à maioria das instituições brasileiras. E parte do problema é interna.  É visível a falta de incentivo consistente por recursos, não apenas paliativos, por parte do Governo. Como exemplo desse fato, ouça-se discurso ao ar livre do próprio então ministro da Educação, o mesmo Weintraub, a eleitores de seu chefe-mor: “Como brasileiro, eu quero o quê? Eu quero ter mais médico, eu quero ter mais enfermeiro, eu quero ter mais engenheiro, eu quero ter mais dentista; eu não quero mais sociólogo, eu não quero mais antropólogo, eu não quero mais filósofo com o meu dinheiro”. 

Esse cenário leva graduandos, pós-graduandos e mestrandos a desenvolvimento de estudos no campo conceitual. Isto é, o campo das artes, ciências humanas e sociais. Assim, os produtores de estudo carregam suas forças mais para criação de conteúdo normativo e compêndios literários técnicos. É consenso entre os articulistas acadêmicos que o caráter conceitual desses trabalhos é complicador importante para avaliação mais concisa, mais dirigida. Mesmo porque, deixam de se mostrar evidentes na base do Web of Science.

As universidades federais e a pandemia

A Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições de Ensino Superior - Andifes confirmou recentemente a importante participação das universidades no combate à pandemia. Até maio passado, as federais - 69 ao todo -  produziram mais de 830 estudos, em âmbito de pesquisas. Assim, analisaram diversos tópicos do comportamento biológico do novo coronavírus: do mapeamento geográfico dos bolsões de infecção ao mapeamento genético do vírus. Além disso, os estudos pretenderam desenvolver testes de Covid-19 mais baratos.

Outro importante relatório corrobora a intensificação da participação das universidades brasileiras no campo de pesquisa. Trata-se de estudo nomeado “Research in Brazil: A report for CAPES by Clarivate Analytics”, desenvolvido especialmente para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes. Por ele, soube-se que o Brasil ocupa a 13º posição no grupo mundial de produtores de pesquisas científicas feitas entre 2013 e 2018.

Nesse contexto, verificou-se que as instituições brasileiras compartilharam mais de 880 mil publicações. Assim, está entre a Coreia do Sul e os Países Baixos em uma posição. A título de comparação, ultrapassou a Rússia.

Ainda assim, é evidente o descaso das autoridades brasileiras para com a importância das universidades nacionais. Isso é notado em outro discurso, desta feita do próprio presidente: “o que que se faz em muitas e muitas universidades e faculdades do Brasil? Faz tudo, menos estudar. Querem o quê? Qual o futuro nosso? O que nos espera na frente?”.

As universidades federais e o mundo

É de se esperar que o relatório acima mencionado destaque as grandes potências econômicas mundiais, como Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha e Japão. Se comparado a elas, a participação do Brasil é fraca, não obstante apresentar grande nível de impacto (citações, menções, indicações).

Já perante os chamados “países emergentes”, o Brasil produz mais estudos científicos que Rússia, África do Sul, Índia, entre outros. Quando comparado às nações latino-americanas, o país está bem avançado. 

Contudo há que se observar que, no quesito impacto mundial, Chile e Colômbia, por exemplo, apresentam índices mais significativos. Entretanto é também de se observar que estes produzem por meio de parceria forte internacional. Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado De São Paulo - Fapesp, apenas pouco mais de 35% da produção brasileira se conduzem com colaboração externa, enquanto os dois países citados no exemplo acima assumem mais 65% de participação exterior. 

Crescimento exponencial

Por outro lado, o avanço na quantidade de pesquisadores oficiais brasileiros é incentivador e enaltecedor, não obstante tantas dificuldades. Relatório analítico do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq mostra que os últimos 20 anos viram o contingente de cientistas crescer de 11700 para 37600.

A quantidade de doutores brasileiros também evoluiu. De 2000 a 2016, saltou em 380%, indo de 27000 para 130000.

Por extensão, evoluiu também o nível das relações entre pesquisadores brasileiros e o universo corporativo produtivo. Ambos aumentaram - praticamente decuplicaram - a cooperação entre 2000 e 2017. Os números que demonstram esse crescimento tratam da quantidade de artigos: de pouco menos de 200 para mais de 1600.

Como resultado, o registro de patentes institucionais em inovação científica também saltou consideravelmente. Por volta do ano 2000, apenas duas universidades figuravam entre grandes depositantes de registros; já em 2017, 9 delas ocupavam os degraus dos 10 maiores proprietários de patentes.

Êxodo de Cérebros

O mapa de importância das universidades mundiais no campo da produção científica não contempla as brasileiras a níveis superiores. Entretanto convém salientar que os obstáculos suplantados por elas são muito mais expressivos que os enfrentados por instituições da Europa e EUA, por exemplo.

Além da visão derrotista das próprias autoridades do país, expressa nos discursos acima e ampliada pelo atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, as universidades brasileiras precisam mendigar recursos. Enquanto a média europeia de investimento em pesquisa está na ordem de mais de 3% dos PIBs, o Brasil aplica menos de 1%. 

Como complicador, há constantes intimidações ao desenvolvimento científico nacional. Esse fato é notado nos cortes aleatórios de orçamento, na carência ou na obsolescência de instrumentos e insumos em laboratórios, na falta de verba de reposição de mão de obra qualificada, entre outras deficiências.

Não à toa, constata-se lamentável fuga de mentes brilhantes do cenário nacional, que vão em busca de oportunidades no exterior. É verdadeiro êxodo de cérebros. Entretanto há também atenuantes. Apesar de tudo, conforme o canal virtual de vídeos Meteoro Brasil, “aos trancos e barrancos, as universidades públicas conquistaram uma estrutura de pesquisa e pós-graduação que, em muitos casos, alcançou níveis de excelência”.

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Imagem de capa - Artigos científicos das universidades federais enfrentam sérios obstáculos, mas se destacam no cenário internacional (Imagem: Pavel Danilyuk, Pexels)


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