Petria, a "Chaves" da Simpatia

Petria, a "Chaves" da Simpatia
Petria

Petria mantém a postura profissional representativa de todo jornalista por excelência. Imagem: Divulgação.

Sou jornalista, escritor e cidadão. Certamente, há milhares de características semelhantes espalhadas entre os bilhões de personalidades mundo afora. Ainda assim, sou único, como o são todos os seres vivos sobre a face deste estranho, esquisito centro de convívio social chamado Planeta Terra. 

Por ser único, tenho minhas percepções sobre esse convívio. Expus algumas delas na crônica Quarto Desarrumado”, publicada em meu livro “Tempestade de Palavras”.

Como cidadão, uma dessas percepções é o sentido de respeito que todo ser vivo merece, em especial o humano. 

Como escritor, discorro sobre relacionamento humano em geral, ainda com destaque para essa mesma percepção. 

Como jornalista, não poderia ser diferente. Afinal, jornalista, escritor e cidadão estão na mesma pessoa que recebeu os mais fortes exemplos de convivência dos pais, um casal cujos conhecimentos de vida fizeram que ninguém notasse que não detinha conhecimentos acadêmicos.

Nos inícios dos anos 2000, eu passava os ouvidos por alguns programas de rádio em meu carro. Por motivos que, apenas a aleatoriedade pode definir, parei numa tal emissora que estava criando uma forma de relacionamento com seus ouvintes: cheia de ofensas, palavrões, piadinhas insanas, chavões de baixo calão, trotes telefônicos de cunho humilhante etc. 

E ainda nomeando os ouvintes. Recebiam ligações ou mensagens por e-mail - as redes sociais estavam em início, sendo arquitetadas. A gana por menosprezar era tamanha que a sessão de blasonaria já começava durante as ligações ou leitura das mensagens e se estendia por todo o programa. 

Para se ter ideia, a emissora (e outras mais posteriores) estavam tentando copiar a estrutura relacional do Pânico (algo que este jornalista, mais fortemente na pele do cidadão, não consegue chamar de programa de rádio)

A decepção com a tal emissora fez que a mente do jornalista divagasse sobre formas de comunicação; que a do escritor evitasse aquela forma de comunicação; que a do cidadão a desprezasse. 

A mais hedionda maneira de se referir a ouvintes estava tatuada no comportamento dos três apresentadores do programa (“apresentadores” e “programa” era como aqueles três classificavam o evento espúrio).

Anos depois, dirigi a rádio ONDA de Caieiras assessorado por meu filho, Ávallon. Ambos nos prometemos que jamais, em tempo algum, deixaríamos que algo semelhante escapasse pelos microfones da emissora. E nunca escapou. Construímos, em três anos, um processo de comunicação saudável, leve.

Minha maneira de me comunicar com meus leitores e com amigos já estava implantada em meu jeito de ser. Cheguei a enviar mensagem para os três apresentadores sem esperança, claro, de obter resposta. Aliás, não pretendi obter. Queria apenas mostrar que alguém,  no outro lado dos microfones, lamentava aquela postura.

Na mensagem - e não buscando aqui qualquer título de cidadão consciente -, consegui a custo oferecer o que de melhor aquele casal acima, aquele com fartos conhecimentos não acadêmicos que tive a honra de chamar de pais por mais de cinco décadas, houvera implantado em minha percepção sobre “respeito”.

Penso que não haja humano que, por mais vil e desprezível que se mostre, mereça ser referenciado com a mesma vileza e desprezo que tenha usado. Afinal, tudo pode acabar em guerra sem fim. 

Então, eu já tinha deixado o episódio da tal emissora no passado. Tenho o hábito de transformar decepções em lembranças nos instantes seguintes em que as sinto. Não se trata de fuga, apenas uma maneira de mantê-las como pontos estudáveis nos futuros.

Nos anos posteriores, encontrei outras emissoras cujo respeito pelo ouvinte é notável em cada jingle, em cada notícia, em cada palavra emitida. Alfa FM, Antena 1, Cultura são algumas que sempre me deram impressão de estar dentro dos respectivos estúdios, saboreando o ambiente como manjares nababescos enquanto via meu respeito por um comunicador aumentar e aumentar.

Entretanto, Petria Chaves, apresentadora do programa Revista CBN (este, sim, um programa), ultrapassou minha própria percepção de respeito por um comunicador. É jovem com mente jornalista com séculos de experiência. Ou, quem o sabe?, uma jornalista secular com mente jovem experiente.

A sutileza de seus comentários, a leveza com que eventualmente contradiz algum argumento em mensagens de ouvintes, a maneira como se reporta a eles e a sua equipe, a voz pausada e tranquilizadora, enfim, tudo é altamente representativo do melhor escopo de jornalismo e da mais evidente satisfação de ser apresentadora.

Seus eventos vão ao ar aos sábados e domingos e duram três horas. São horas de presença de convidados cujos conceitos valem a pena: psicólogos, escritoras, neurologistas, financistas, ativistas de minorias, educadores, médicos, artistas de todas as vertentes… 

Bem… imaginem vocês, leitoras e leitores, quaisquer profissionais de qualquer área importante para a sociedade brasileira. Imaginou? Eles já estiveram lá.

Petria Chaves tem a força da simpatia que vai ao ar como eco da simpatia de toda a equipe cultuadora do programa (cultuadora, não apenas produtora). Quem a elogia nas mensagens recebe o carinho natural de seu estado de ser; quem ocasionalmente a destrata (política… bendita política…) recebe contra-argumento explicativo, sereno, brando, sob a aura do reconhecimento de que o opinante tem direito de o ser e sua opinião, de existir - sem ofensas ou ironia ou chacota ou desprezo. 

Há algo de suave em sua maneira de noticiar. Há explosão sem limites em boas notícias e sentimento comedido nas más, de forma que mostre sua empatia nas primeiras e nada de hipocrisia nas segundas. Agindo assim, Petria não permite que a jornalista esteja em maior evidência que a importância da notícia. 

Algo semelhante acontece nas entrevistas. Em pouco menos de uma década em que apresentou o programa, não houve nenhum entrevistado que se sentisse desconfortável ou constrangido. Nem haverá. Ao contrário: em segundos, a maior e mais intensa timidez se converte em plena espontaneidade, tão natural que o interlocutor não reconhece a si mesmo. 

Por que publicar esta crônica? 

Porque as sociedades atuais estão plenas do mais indecoroso jeito de emissão de opinião. Ter as Chaves da Simpatia expostas aqui pode significar auxílio a muitos na próxima troca de mensagens neste estranho, esquisito centro de convívio virtual chamado Redes Sociais.

Petria é jornalista por profissão, jornalista opinativa por personalidade, jornalista opinativa documentarista por cidadania e jornalista opinativa documentarista apresentadora por decência dessas quatro profissões. Premiada em várias ocasiões, detém poder feminino suficiente para nem sequer tornar necessário que o exponha.

É difícil contradizer seus conceitos e posturas, mas é extremamente fácil fazê-lo se houver eventual ocasião para isso. As convicções que detém penetram na mente de quem as ouve como setas indicativas e não como hastes proibitivas.

Eis um pouco dos motivos pelos quais esta crônica é necessária. Tão necessária nesta estranha, esquisita e controversa civilização de práticos instrumentos de comunicação quanto necessário é o trabalho de Petria para que tais instrumentos sejam reais caminhos para novos jornalistas.

Ou para aqueles não tão novos. Não tão novos em idade.


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