Hollywood revisita a contracultura

Hollywood revisita a contracultura

Após a pujante onda do ‘Black Lives Matter’, dois filmes que retratam o período de insurgência de minorias contra políticas do governo americano em 1968 atraem audiência mundial.


 

Reputado como uma prévia do Óscar, o Globo de Ouro, importante premiação de cinema e TV promovido pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood desde 1944, teve sua edição de 2021 postergada para o dia 28 de fevereiro em virtude da pandemia da Covid-19, que abalou sobremaneira toda a indústria do entretenimento.

Como toda ação, involuntária ou não, produz diferentes efeitos, evidenciou-se um curioso fenômeno, que tentarei explanar a seguir da maneira mais didática possível.

A morte do segurança negro George Floyd, em maio do ano passado, na cidade de Minneapolis, asfixiado até o último suspiro pelo joelho de um policial branco gerou revolta e indignação de uma abstrata gama de minorias que, se no entanto somadas, constituem um espectro volumoso e intimidativo, conforme observamos nos atos de protesto que se sucederam nos dias posteriores à consumação da tragédia.

Ou seja, aquele joelho fatídico do policial opressor simbolizou na realidade a tirania, o abuso de autoridade não apenas das forças policiais, mas de todas as autoridades governamentais, especialmente a federal na figura do então presidente Donald Trump, célebre por seu comportamento arbitrário e xenófobo.

Esses fatos, inseridos num cenário de comoção generalizada, instigaram o imaginário de roteiristas, produtores e diretores de Hollywood.

Com essa premissa, dois filmes específicos, idealizados ainda antes da pandemia, retomam 1968, ano muito semelhante ao de 2020, sob o prisma do ativismo e insurreição política, sem a presença do Coronavírus, obviamente: Os 7 de Chicago, do celebrado roteirista e aqui também diretor Aaron Sorkin e Judas e o Messias Negro, dirigido pelo quase anônimo cineasta negro Shaka King.

People versus quadrilheiros

Sob o título original The Trial of the Chicago 7, a roteirização adaptada por Sorkin seria inicialmente fornecida ao diretor Steven Spielberg em 2007, mas a obra não saiu do papel então. Somente em setembro de 2020 Sorkin a levou às telas ele próprio, porém em pouquíssimas salas de cinema dos EUA. Decorre daí um pouco o fenômeno que mencionei lá atrás.

Não fosse a eclosão da pandemia, certamente não haveria talvez tanto alarde com o lançamento já no mês seguinte, em outubro, pela Netflix, a quem a Paramount vendeu os direitos de distribuição do filme, que ganhou notoriedade surpreendente em escala mundial, abrindo a seara para uma série de indicações aos principais prêmios da indústria.

Apenas no Globo de Ouro foram cinco categorias apontadas: filme de drama, ator coadjuvante (Sacha Baron Cohen), direção, roteiro (Sorkin) e canção (Hear My Voice). A Netflix, aliás, liderou como nunca o número de indicações. Foram 42 nessa edição da premiação, deixando muito para trás a toda poderosa Disney com apenas 10.

Com uma narrativa fiel aos fatos históricos, em quase toda sua plenitude, o enredo, após brevíssima abertura de apresentação dos personagens, nos conduz diretamente ao julgamento de um seleto grupo de oito (que depois ficaram em sete) envolvidos nas manifestações contra o governo do então presidente Lyndon Johnson, fundamentalmente quanto à sua indisposição de retirar as tropas de soldados, que morriam às pencas, da Guerra do Vietnã.

Também já havia aludido a multiplicidade de minorias, estimadas em 150 diferentes matizes, representadas na Corte pelo grupo apontado como os “arruaceiros” ou "quadrilheiros", escolhidos a dedo pelo promotores do famoso the people (o governo dos EUA) contra os réus.

Eram eles Abbie Hoffman e Jerry Rubin (Yippies – Partido Internacional da Juventude); Tom Hayden e Rennie Davis (SDS – Sociedade de Estudantes pela Democracia); David Dellinger (Comitê de Mobilização Nacional pelo Fim da Guerra do Vietnã); Bobby Seale (Presidente Nacional do Partido dos Panteras Negras, o “oitavo” réu). Já Lee Weiner e John Froines, flagrados quando arremessavam bombas, seriam os convidados vip, como ironicamente eles próprios assumem durante a fita.

O evento escolhido para o encontro onde toda essa diversificada militância pudesse realizar seus protestos foi a Convenção Nacional Democrata, marcada para acontecer entre 26 e 29 de agosto, em Chicago, Illinois. Resumidamente, embora os números oficiais expressem o contrário, cerca de 20 mil policiais confrontaram-se com 15 mil manifestantes, durante esse período, resultando em 668 prisões e 200 policiais feridos.

Em 24 de setembro de 1969 tem início o julgamento constituído por corte federal, na qual, por mais de seis meses, o júri composto pelo Estado se reuniu 30 vezes, tendo ouvido por volta de 200 testemunhas.

Sua missão era anunciar o veredito sobre se os acusados teriam de fato incitado os atos de violência durante os protestos ou se seria justamente o oposto, os agentes policiais atuantes na contenção deles. Nesse aspecto, a atuação do FBI, a polícia federal americana, teve papel preponderante, não obstante a negação até onde foi possível, conforme tomamos conhecimento no decorrer do filme.

O nono réu

O caso do “oitavo” réu merece então um destaque, nesse particular. Bobby Seale, ativista dos direitos dos negros, co-fundador do partido Pantera Negra, recusou-se a constituir o mesmo advogado dos demais réus, depois de saber que o seu defensor escolhido adoecera.

Em conflito constante com o juiz Julius Hoffman, a quem chamava de racista, Seale preconizava um julgamento separado e acabou sendo amordaçado e amarrado em sua cadeira, para descrédito geral de uma nação, por diversos dias – olho atento para as excelentes atuações dos atores Yahya Abdul-Mateen II (o amarrado) e Frank Langella (o magistrado).

Outro item de discórdia entre ambos eram as intervenções frequentes ao pé do ouvido, de um outro membro dos “Panteras”, Fred Hampton, da sucursal de Illinois do partido,

que sempre tomava assento imediatamente atrás de Seale, com o evidente propósito de aconselhá-lo em suas falas direcionadas e indeferidas, até o limite do cansaço, pelo juiz.

O trágico destino de Hampton, para quem conhece a história americana, não é surpresa, mas é motivo de intensa revolta entre todos os combatentes que buscam justiça.

Eis o gancho para a abordagem do segundo filme referido. Judas e o Messias Negro conta justamente a história do jovem ativista negro Fred Hampton, considerado exímio orador, capaz de insuflar multidões em favor de suas causas de interesse, apesar da pouca idade.

A alcunha de messias foi atribuída ao controverso e temido Edgar Hoover, diretor do FBI, que na década de 60 suportava na surdina um programa secreto conhecido depois como Cointelpro, onde diversos líderes negros como Luther King e Malcom X e certamente Hampton, eram monitorados.

Hoover teria alertado a seus agentes para o perigo do surgimento de um messias com capacidade para “unificar e eletrizar o movimento militante nacionalista negro”.

Destarte, ainda que postado fora da mesa dos réus naquele julgamento, Hampton, sendo alvo de perseguição pelo FBI — que, lembremos, representa a expressão suprema da investigação federal dos EUA — foi julgado e condenado arbitrariamente, de maneira absolutamente ilegal. Por que, portanto, não considerá-lo um nono réu?

Segundo filme do diretor Shaka King, Judas teve seu lançamento comercial nos EUA em 12 de fevereiro deste ano (no Brasil em 25 de fevereiro), com distribuição do estúdio Warner.

E, depois do anúncio da Warner da simultaneidade no lançamento de suas produções com a HBO Max, Judas, que conta também com a valiosa mão de Ryan Coogler (diretor de nada menos que Pantera Negra) é protagonizado por Daniel Kaluuya (Corra), como Hampton e Lakeith Stanfield (Atlanta) no papel do judas William O’Neal e deve também ver sua audiência mundial crescer exponencialmente.

Imagem - Unseen Histories - Via Unsplash

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