"Respeitem nossa dor": Estamos banalizando o mal?

"Respeitem nossa dor": Estamos banalizando o mal?

A pandemia levou vidas, histórias e sonhos, mas, também, a sensibilidade de parte da sociedade diante do mal.


 

O julgamento de Nuremberg foi um marco fundamental para o desfecho da 2ª Guerra Mundial. O evento em si simbolizava o fechamento de um ciclo de violência, mortes e destruição que incorporavam o projeto nazista de dominação. 

O tribunal reuniu os principais nomes do Partido Nazista: estavam lá Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop e alguns outros oficiais que, diretamente, orquestraram as diretrizes fascistas na Alemanha de Hitler.

Mas a ausência de muitos outros também foi algo que não passaria batido. Um deles, Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela morte de milhares de judeus nos campos de extermínio, tinha paradeiro desconhecido. 

E assim ficou, por quase duas décadas, até ser encontrado pelo Mossad (serviço secreto israelense) no interior da Argentina, em 1960.

Por quatro meses, seu julgamento, amplamente divulgado e televisionado para o mundo, foi acompanhado de perto pela correspondente jornalística Hannah Arendt, naquela época já uma filósofa consagrada.

O “encontro” desses dois seria fundamental para a formulação de um conceito importante para a sociedade contemporânea: a banalidade do mal.

Eichmann em Jerusalém

Analisando o caso de Eichmann, Hannah perceberia que o mal pode ser algo comum, pode estar na mais medíocre criatura, como o próprio alemão que estava ali, sendo julgado. Eichmann era o mais comum dos homens, educado, inteligente e, o mais intrigante, afirmava que particularmente não era antissemita; era apenas um cidadão cumpridor das leis na Alemanha nazista.

Vulgar na aparência e indiferente nos sentimentos, como Arendt escreveria na cobertura para o The New Yorker, Eichmann utilizaria como argumento de defesa que não teria qualquer escolha quanto às ordens que recebia, devendo apenas cumpri-las. Também dizia não ter culpa alguma sobre a “solução final”, uma vez que apenas executava ordens vindas de seus superiores.

Segundo Hannah Arendt, o mal seria trivial e não possuiria profundidade alguma, daí sua noção de “banalidade do mal”. Para ela, basta que haja pessoas supérfluas, banais e ordinárias, que sigam, cotidianamente, a normalidade da vida, para que o mal consiga facilmente se estabelecer.

O ponto mais fundamental, talvez, seja justamente como o mal (no discurso, na imposição ideológica) consegue quebrar no indivíduo a sua noção de realidade, invertendo a ordem das coisas.

A banalidade brasileira do mal

Arendt viu no nazifascismo alemão um exemplo disso. Nós podemos ver no extremismo negacionista brasileiro o mesmo. Em diversos exemplos.

Do culto ao discurso de ódio nas mídias sociais, passando pela violência explícita em manifestações de rua, sem esquecer o culto ao armamentismo e a opressão às minorias étnicas, de gênero e de classe. Em todos esses casos, estes indivíduos acreditam estar cumprindo um papel correto, "de bem", contra um mal fictício que os assolaria.

A imagem que ilustra este texto é um exemplo disto.

Em uma manifestação artística, um grupo de pessoas simulou um cemitério, em memória às vítimas da Covid-19 em nosso país. Em instantes, um adepto extremista, que passeava despreocupadamente pelo calçadão da praia, sem máscara, veio e derrubou as cruzes, xingando e ameaçando os manifestantes.

Este momento foi amplamente coberto pelos veículos de comunicação e gerou intensos debates sobre a pertinência ou não daquele protesto simbólico.

Mas, se há o mal, na sua mais grotesca banalidade, há o bem, transmutado na carne, pele e osso de um pai que, tendo perdido o filho de 25 anos para a doença, recolocou uma a uma, gritando: "Respeitem nossa dor!"

Em recente sessão da CPI da Covid, realizada no Senado, parentes de vítimas da pandemia puderam debulhar suas dores, entre lágrimas e protestos. Pessoalmente, não pude acompanhar toda a sessão, a emoção era tamanha que sequer pude ouvir todos os relatos. Contudo, não pude deixar de notar, no meio das falas, a presença da voz daquele pai, que diria:

“Aquele ato tinha muita indignação. Mas não tinha ódio, nem raiva, pelo contrário, tinha um sentimento de muito amor. O meu ato foi um ato de resistência, porque eu sou de origem quilombola, e já estou acostumado a sentir isso”

Dos judeus perseguidos pelos nazistas, dos povos pretos escravizados nas colônias, das vítimas da necropolítica brasileira na pandemia, o grito deste pai ecoa de maneira ensurdecedora.

“Respeitem nossa dor”.

Imagem/reprodução: Felipe Duest / Photopress


Quer escrever na Prensa?

Junte-se a uma comunidade de Creators que estão melhorando a internet com artigos inteligentes, relevantes e humanos. Além disso, seu artigo pode fazer parte do Projeto de Monetização, e você pode ganhar dinheiro com ele!

Clique aqui para se cadastrar e venha com a gente!


Topo