Gabriel Boric, presidente

Gabriel Boric, presidente

Foto: DeutchWelle e EFE/AFP

As eleições chilenas chegaram ao seu capítulo final: Gabriel Boric foi eleito presidente. Com 55,9% dos votos válidos, o jovem de 35 anos derrotou o advogado José Antônio Kast, representante da extrema direita, que obteve 44,1%.

Sendo a pessoa mais jovem a ocupar o cargo mais alto do executivo do Chile, Boric terá à sua frente o desafio de conduzir um país que passou por turbulências sociais nos últimos anos, e que vem superando a herança autoritária de Pinochet, expressa em diversos aspectos econômicos e políticos.

O que podemos esperar, agora, do novo chefe do Palácio de La Moneda?

Os protestos que mudaram os rumos do Chile


Santiago, 22 de outubro de 2019 (Foto: Pedro UGARTE / AFP)

É possível enxergar na eleição de 2021 o encerramento de um ciclo da história recente do Chile, que teve seu início nos gigantescos protestos de rua, em 2019.

Diversos foram os temperos que deram gosto ao caldeirão revolucionário. O sistema previdenciário chileno foi um dos deles. 

Fruto de uma política econômica neo-liberalizante ainda do período Pinochet, a previdência chilena, privatizada, dava mostras de que não era suficiente para os aposentados. Os altos índices de suicídio da população idosa indicavam que a vida dos aposentados na previdência capitalizada chilena estava longe de ser boa. De 1980 a 2015, a taxa de suicídio das pessoas com idade entre 55 e 74 anos no Chile teve alta de 5,5%, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Um outro pilar do descontentamento foi a desigualdade social. O Estado chileno, desde a constituição criada em 1980 na ditadura, previa o princípio da subsidiariedade. Ou seja, áreas vitais como saúde, educação e previdência, por exemplo, deveriam ser deixadas com a iniciativa privada. O Estado entraria como subsidiário, quando as empresas não pudessem ou tivessem interesse em manter os serviços.

Isso impactou o desenvolvimento de políticas públicas para as classes trabalhadores, menos favorecidas. Enquanto o PIB chileno atingia níveis altos, numa média superior a 5%, empurrado pela mineração, o país possuía uma concentração de renda absurda: naquele ano de 2019, o 1% mais rico detinha 25% da riqueza do Chile, segundo o professor Dante Contreras, do Departamento de Economia e Negócios da Universidade do Chile e investigador do Centro de Estudos de Conflito.

Na então forte economia chilena, celebrada por parte dos economistas liberais como exemplo, a realidade era muito mais dura e sofrível para trabalhadores e trabalhadoras da base da pirâmide.

A pitada final da mistura foi o aumento da tarifa de passagem no transporte público. Começando em Santiago, capital do Chile, estudantes de ensino médio fizeram protestos contra o aumento de preço do bilhete de transporte público. Os choques com a polícia local estremeceu as bases sociais de todo o país.

Os protestos tomaram as ruas de diversas cidades chilenas, assim como a repressão do Estado, comandado por Sebastián Piñera.

A bandeira mapuche tremulou

Talvez o símbolo máximo desse processo, que pode ser entendido como revolucionário, seja a foto da bandeira mapuche, tremulando, sobre a estátua do general Manuel Baquedano.


A icônica foto dos protestos de 2019-2020 (Foto: Susana Hidalgo/BBC)

O significado desse tem a ver com dois signos fundamentais. Um deles é a própria estátua do militar chileno. O monumento foi inaugurado, em 1928, por Carlos Ibañez del Campo, que governou o Chile sob uma pesada ditadura militar.

Um dos ditos heróis do exército do país (algo parecido com o Duque de Caxias para o Brasil), Baquedano esteve envolvido na chamada Guerra do Pacífico (1879 e 1883), um conflito territorial que opôs Chile, Bolívia e Peru.

Antes disso, o general serviu na brigada do Exército Chileno em 1869 contra as tribos Mapuche em Araucanía. Processo conhecido como Ocupação (usurpação) do Wallmapu (território Mapuche). O conflito foi uma verdadeira execução dos povos indígenas locais durante 7 anos.

E é sobre esse triste episódio que destacamos o segundo signo da foto: a bandeira mapuche. Criada ainda nos anos 90, após a queda de Pinochet, ela passaria a representar os povos mapuches organizados no Conselho de Todas as Terras.

Sobre o significado da bandeira, o artista indígena Jorge Weke explicou, em entrevista à BBC, que:

“O azul representa a pureza do universo; o verde, nossa mapu; o Wallmapuche, o território de assentamento de nossa nação. E o vermelho, a força, o poder e o sangue derramado por nossos ancestrais”.

No centro da bandeira está o kultrung, o tambor mapuche, decorado com o Meli Witran Mapu, a representação da Terra e seus quatro pontos cardinais.

Ao erguer uma bandeira com tantos significados históricos sobre a estátua pichada o general Baquedano, os manifestantes ritualizaram a vitória dos povos indígenas, bem como das classes trabalhadoras, sobre o militarismo, mas também, sobre as estruturas do Estado que mantinham ligações com o passado ditatorial de Pinochet.

Uma nova constituição

O presidente da época, Sebastián Piñera, recuou, e as mobilizações populares demandaram uma nova Constituição, que enterrasse de vez a herança totalitária de um dos mais sanguinários ditadores latinoamericanos.

A constituição de 1980 não foi só promulgada na era Pinochet, como representava a aliança do militarismo com o liberalismo.

Em 25 de outubro de 2020, num domingo, após 12 horas de votação, 78,2% da população chilena votou pela aprovação de uma nova Carta Magna, com rejeição de apenas 21,7% dos eleitores. Um total de 79% dos votantes aprovaram a criação de uma Convenção Constitucional, composta totalmente por membros eleitos pelo voto popular, para trabalhar na redação da nova Carta Magna.

Isso proporcionou uma representatividade nunca antes vista na política chilena. O processo de construção da nova carta constituinte ainda está em andamento, mas os resultados sociais e políticos já puderam ser sentidos nas eleições deste ano.

Um novo presidente

Gabriel Boric é, sem dúvida, uma surpresa para o cenário político do país. Oriundo do movimento estudantil, suas bases eleitorais sempre estiveram nas classes trabalhadoras e estudantis chilenas. Seu embate com Kast, o representante da extrema direita, evidenciou que, possivelmente, o novo presidente precisará de interlocução em um país dividido.

Talvez, sua primeira interlocução deva ser com o tal “mercado”, este ser indefinido, composto por players capitalistas mundiais. A disparada do dólar, que chegou a 876 pesos chilenos (R$5,78), acendeu o sinal de alerta para os setores econômicos. Boric, contudo, pregou cautela e responsabilidade em sua gestão.


A diversidade ocupou o palanque de Gabriel Boric (Foto: O Globo)

Contudo, por mais que pressões de grupos capitalistas possam indicar trabalho dobrado para o recém-eleito, há boas expectativas na população chilena em relação a esta nova etapa em sua história.

Sob o lema de que “a esperança venceu o medo”, Boric prometeu diálogo com os diferentes setores, buscando "crescimento com distribuição justa", maior espaço para as mulheres e o feminismo, maior cuidado com o meio ambiente e combatendo a impunidade e a corrupção.

Diante dos desafios sociais e econômicos, Boric representa para muitos a esperança em águas turbulentas


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