Uma tevê no Elevador

Uma tevê no Elevador

Entre o espelho de todo dia e a porta de ferro antiga de todo dia, uma tela retangular brilhava notícias do mundo e do prédio a quem se dispusesse ver. Não bastasse todas as telas da vida agora mais essa.


 

Hoje entrei no elevador e tinha uma Tevê na parede. Entre o espelho de todo dia e a porta de ferro antiga de todo dia, uma tela retangular brilhava notícias do mundo e do prédio a quem se dispusesse ver. Não bastasse todas as telas da vida agora mais essa.

No elevador de um prédio comercial ou uma corporação eu até consigo entender. Dá-se asas ao cosmopolitismo como forma de passar qualquer seriedade. Os homens, e mulheres, de negócios não podem dormir no ponto, devem ter informação atualizada todos os instantes de sua lucrativa existência. Como se não carregassem em seus respectivos bolsos a telinha original, portadora de tudo-o-que-você-precisa-na-sua-vida, catalisadora de toda energia vital em prol do progresso. Ou pior. Como se os executivos de plantão já não estivessem com a cara enfiada no celular ao invés de dar atenção àquela tela enorme, tão démodé.

Sempre acho válidas discussões, principalmente nos dias de hoje, sobre privacidade. O elevador - meio de transporte mais seguro do mundo, ninguém faz mais viagens que ele sem que aconteça uma tragédia – era um espaço onde ainda se podia almejar o privado. Andar sozinho de elevador pode ser revelador, seja de dilemas existenciais profundos ou de uma remela no canto do olho. Ou de que seu intestino, que nem te dava bola até então, resolveu que precisa declarar todo seu amor à sua privada. Como esquecer das eternas tensões sufocadas quando encontramos um vizinho e somos obrigados a encará-lo até que um dos dois finalmente desembarque. Agora ficamos eu, o vizinho olhando o celular, e a tela girando imagens, piscando, implorando por atenção.

Nesse primeiro contato, assustado que estava com a nova aquisição do condomínio, não pude deixar de olha-la por todos os segundos que compuseram nosso caminho do nono andar ao chão. Fui pego de surpresa, desavisado. Quem não olha para uma tela brilhando independente do que diga? Os donos das gigantes de plataformas – famigeradas Big Techs – entenderam psicologia infantil melhor que Piaget e Vygotsky. “Dá uma tela pra criança que ela aquieta! ” Já disse, algum dia, uma mãe exausta.

Pois decretei guerra fria a essa tela insidiosa! Entro no elevador e não olho. Andei pensando até numa viseira que possibilite o meu não-olhar para essa invasora de privacidades alheias. Me bastam televisões, celulares, tablets e o raio que o parta da porta para dentro de casa. Se eu quisesse saber quantos milhões de assinantes tem uma famosa plataforma de streaming ou da nova promoção de uma rede de fast food eu olharia a minha tela personalizada, pronta a sugar toda minha atenção sem saber se preciso dela para atravessar a rua. Pior que nem se eu quiser não levar o celular à rua fico livre do tráfico de informações que se estabeleceu na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Na volta para casa, encontros constrangedores com vizinhos na portaria. Silêncio reina depois de meia dúzia de “boa noite” atropelados. O elevador, minúsculo, nos deixa apertados, não consigo nem recorrer ao meu celular se quiser fingir que estou resolvendo uma questão muito importante que precisa ser resolvida nesses quarenta e cinco segundos de viagem. É isso ou falar sobre o calor. Pelo menos descobri que mais um time de futebol qualquer da Inglaterra foi comprado por um sheik bilionário de fortuna de origem duvidosa.


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