O Brasil é um ornitorrinco

O Brasil é um ornitorrinco

O ornitorrinco é um animal, no mínimo, engraçado. Meio réptil, meio mamífero, meio ave. Parece um experimento que conseguiu fugir do Complexo Industrial Científico da Natureza, que aparentemente fica perto da Austrália, e desde então vive pelas redondezas de lá.

Documentos vazados recentemente, por um estagiário descontente, atestam a origem do protótipo original. Foi desenvolvido após viagem pitoresca, de um jovem expedicionário pela costa do Brasil, pelos idos 1500. A cientista-chefe da delegação atual do CICN, nega.

O que importa é que essa pista deixou a reportagem com a pulga atrás da orelha. Resolvemos, por teimosia, conceber o documento como – possível – verdade e as semelhanças surgiram.

A primeira já dissemos: quem em sã consciência misturaria um pato e um castor com patas de lagarto? E o paralelo, a nós, pareceu irremediável: quem pensou que daria certo bairros elegantes, em megalópoles, cercados de periferias paupérrimas, cruzados por rodovias violentas?

O que nos leva à segunda: ornitorrincos encontram comida debaixo d’água, mas não sobrevivem mais de um minuto submersos. Só quem atravessa a cidade inteira num ônibus lotado, para trabalhar num metro quadrado que não vale um ano de trabalho, entende. Pelo relatório, é possível ver que estes desgraçados animais batalham doze horas por dia atrás de alimento. Essa, acreditamos, ficou tão óbvia para quem nos lê que preferimos nem comentar.

Os primeiros cientistas humanos que tiveram contato com tamanha aberração não tiveram dúvida em declara-lo um embuste da natureza. Sem saber o que fazer com aquilo, empalharam. Hoje dizem que é popular lá por suas bandas. Aqui, seguimos esperando o futuro, onde disseram, íamos virar um país.

As informações pipocavam nas cabeças da editoria, de forma que esse artigo é apenas uma primeira impressão do que promete abalar as estruturas de nossa sociedade moderna. Preferimos revelar a parte da verdade que descobrimos antes que algo, ou alguém, impeça.

Uma reunião - convocada às pressas - com sociólogos discípulos de Chico de Oliveira, ajudou a traçar panoramas. Segundo consta das avaliações primárias, nenhum outro lugar do mundo poderia inspirar o jovem viajante de mais de quinhentos anos atrás. Ninguém consegue, com tanto sucesso, combinar características tão antagônicas em si.

“Tá pra nascer país que consiga harmonizar tão bem avanço e atraso, modernização e exclusão!”. Teria dito uma voz enervada ao fundo da sala.

A redação descobriu que, em conciliábulos com mais de cinco cientistas sociais, é impossível conter as veias saltando quando o assunto é nosso lábaro Tupiniquim, lavrado Brasil.

Acalmados os ânimos, sobrou tempo até para piadas de botequim e filosofias da mais alta qualidade. Saímos com a sensação de que a vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas. A mente que pensou na formatação desse animal ordinário poderia facilmente ser amiga da mente de Mário de Andrade, ambas têm facilidade de conceber algo sem nenhum caráter.

P.S: Antes que arrombem a porta da gráfica, uma última informação. Ainda de acordo com o relatório, o ornitorrinco é o único sobrevivente de sua família, os ornitorrinquídeos. Sofre de ameaça de extinção, lógico. Mas hoje em dia quem não sofre?


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