A bolsa é hoje

A bolsa é hoje

Parece que andam pelos noticiários notícias de que a bolsa, de valores, brasileira começou o ano com quedas diárias. Acompanham estas notícias as famosas vidências protagonizadas por milhares de analistas financeiros.

Não sei os leitores, mas a mim é extremamente complicado entender para que lado, de fato, a setinha vai quando a previsão é “vai dar tudo muito certo!” ou “é o fim do mundo!”.

Fico mais confortável quando dizem que a bolsa “vai explodir!”. Pelo menos cabem ambos os sentidos, eximindo aquele que se mete a Nostradamus de possível culpa. Quem diria, aquela infinidade de números, na verdade, reduz-se apenas a uma questão de semântica.

Apesar do início de ano amedrontador aos remanejadores de algarismos arábicos, o último ano não pareceu essa tragédia toda. É que os atravessadores de cifras costumam se apegar demais ao presente-aqui-agora-já.

Aliás, nem o ano retrasado representou o fim do mundo. Antes mesmo do fim do ano da graça de 2020 já haviam recuperado o nível pré-pandemia. Um sucesso absoluto.

Anda tudo muito bem por lá, por ora. Difícil mesmo é saber como ficarão em ano de eleição, tudo pode ir ao ralo se o populacho apertar botões diferentes do que deseja a providência da mão invisível. Não há diligência que adivinhe para que lado aponta o vetor no ano que vem.

O que é possível saber é que tubarão não sai perdendo, independente do que lhe diz um gráfico na tela do computador. Essa fome não fica desassistida.

Contrastam, contudo, filtros oculares nas lentes das ruas. A bolsa, de valores, quase ninguém nem vê. Os cálculos passam, impassíveis, atravessam carros, prédios e gentes. O que conseguimos ver é a bolsa carregada de muamba, estendida no chão da avenida, daqueles que não tem cor, que dirá sobrenome, para ser herdeiro nesse país.

Consciente ou inconscientemente, o olho da rua percebe a primeira bolsa, a escuta, a lê, a respeita. São os invisíveis mais visíveis de nossa sociedade. Já a segunda não passa da temida massa de manobra, tragicamente cooptada por um discurso seduzente qualquer.

Essa inversão de quadros, ou reversão de valores, ocorre a despeito do mundo real. Ultimamente não há touro de ouro – não consegui pensar em junção de palavras que soasse mais idólatra – que faça a rua olhar para dentro de si mesma.

Se olhasse, perceberia que essa figura que hoje “lota” a rua, atrapalhando a passagem dos bons passantes, tentando vender qualquer coisa por um trocado, não é nova.

Quando o bonde elétrico ainda era uma novidade, já haviam crianças se equilibrando sobre os trilhos com bandejas à mão. Antes disso, quando o transporte da grande cidade era a carroça puxada por burros ou cavalos, já haviam matronas carregando crianças e quitutes nas ancas, numa habilidade invejável.

Bem se vê que a maior herança dos visíveis mais invisíveis de nossa sociedade é mesmo o equilíbrio. Equilibram-se por sobre qualquer trapézio, se isto lhes garante existir o amanhã.


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