Nope (2022) Parte 2

Nope (2022) Parte 2
Universal Pictures/divulgação

Como prometi, volto aqui pra dizer pra vocês a leitura que fiz do novo filme de Jordan Peele. Espero que, quando esse texto te alcançar, você já tenha assistido ao filme.

Eu vou dividir esse texto em 3 sessões, que são as camadas de leitura que fiz dele. Vou começar pela mais superficial:

É uma homenagem (remake) de Tubarão

Estruturalmente, você tem que concordar comigo. Em algum ponto do final de segundo ato, se você ama cinema e já viu Tubarão (1975), você reconheceu a estrutura dos beats que Nope pega emprestado desse clássico.

OJ serve como um surrogate de Brody, Angel é uma versão atualizada de Hooper e Holst veste o chapéu de Quint. Jupe é um oportunista bonachão como Larry Vaughn e, claro, Jean Jacket é o tubarão branco do clássico. E Em? Quem é o relativo dela nessa teoria mal formada? Eu acredito que ela seja o espectador. Mais especificamente, um espectador. Se for realmente necessário achar um relativo pra cada personagem importante de Tubarão em Nope, Em é Jordan Peele, assistindo à obra-prima de Spielberg.

Eu não preciso nem reforçar que isso é só a minha opinião e as impressões que eu tive assistindo ao filme, não é mesmo? Ao me deparar com essa noção dentro da sala de cinema, você poderia pensar que meu apreço pelo filme teria diminuído imediatamente, afinal, a obra deixou de ser original! Mas o lance é que, quando bem feito, um remix é tão bom quanto ou melhor que original. No caso de Nope, Peele se debruçar em Spielberg (tanto quanto em Hitchcock, Shaymalan e Sérgio Leoni) só adiciona camadas e elementos de apreciação. É quase como descobrir um sabor novo ao mesmo tempo em que sente um cheiro que te lembra a infância.

Esse "pede-emprestado" cósmico não é novidade. Nem em Hollywood, nem na história da arte em geral. Shakespeare remixou mais que Dr. Dre pra sacudir os perucões da Era Elizabetana. Coisa de gênio, sabe? E é aqui que eu chego na segunda parte do texto.

É um filme sobre fazer filmes

Sim, é comum na carreira de todo diretor se autorreferenciar e produzir um filme que, de uma forma ou de outra, traz em si o discurso do que é "fazer cinema". Alguns desses filmes chegam tarde na carreira dos diretores. No caso de Peele, acredito, o terceiro capítulo da sua carreira já tinha a carga de maturidade para tanto.

Os indícios são vários. Desde a relação dos personagens principais (OJ e Em) com a indústria de Hollywood, quanto suas aspirações e desafios. Os irmãos oferecem uma visão espelhada e, ao mesmo tempo, complementar do fazer artístico por trás das câmeras. A austeridade técnica e o senso de responsabilidade exagerado de OJ é constantemente ofuscado pela honestidade irrestrita e desprendimento inconsequente de Em. E embora ambos sejam muito bons no que fazem, o fantasma de Otis Haywood Sr. (interpretado impecavelmente pelo lendário Keith David) paira sobre ambos. Otis Sr. é um símbolo do que eles precisam se tornar para vencer, mas, infelizmente, ambos são muito diferentes dele.

Jupe, encarnado pelo talentosíssimo e cada vez maior Steve Yeun, também é um personagem assombrado. A sitcom que teve seu final trágico, no qual apenas o garoto parece ter saído ileso, é outra pista de que Peele está nos levando para um passeio por trás das câmeras. A cena de abertura do filme é uma forma de quebrar a ilusão, com um convite a um passeio desconfortável e tenso em um estúdio de som onde as gravações deram terrivelmente errado. O espetáculo saiu de controle, e agora somos testemunhas disso. Esse momento se repete duas vezes ao longo do filme: quando OJ e Em estão tentando desempenhar o trabalho de seu pai em um comercial de TV e quando o público no parque de Jupe é tragicamente devorado por Jean Jacket, pela imprudência e oportunismo de seu anfitrião. Quase como um aviso de que o perigo se apresenta toda vez que um espetáculo se monta.

Até mesmo Angel, o alívio cômico, que entrega alguns dos melhores momentos e que adota OJ e Em como familiares em sua falta de objetivos concretos, parece ter uma relação fracassada com o "sucesso" - quase que literalmente, já que, quando o conhecemos, está tão desgostoso com a vida por conta da supermodelo que o abandonou. Imaginária ou não, ela indica que Angel também está enganado a respeito do que ele realmente quer quando o incidente incitante o joga nessa história.

Por último, mas não menos importante, temos Holst. O diretor de fotografia, que é tanto um mentor para o grupo, quanto um Ahab atrás de seu próprio Moby Dick. Michael Wincott concede um ar místico ao personagem, um diretor de fotografia envolto em uma personalidade quase mística, que ruge guturalmente cada uma de suas falas como se fossem pérolas de sabedoria preciosas. Não são. O suporte que ele oferece aos três jovens se desfaz inclusive no momento em que mais precisam dele. O que me leva à terceira parte desse texto, que tem muito a ver com a que você acabou de ler.

É um filme sobre whitewashing

Você realmente achou que Jordan Peele deixaria de lado o comentário social em seu filme mais maduro até o momento? Em uma progressão interessante, é notável que tanto Corra! (2017) qunto Nós (2019), justamente os projetos autorais de Peele sejam os menos didáticos e, ainda assim, mais contundentes ao misturar o imaginário criativo do diretor com comentários sociais. Corra! talvez seja o menos sutil e, ainda assim, a textualidade da questão racial se mistura ao absurdo fantástico com ares de Polanski e ecos de Spike Lee. É mais comum ver esses elementos como centrais em projetos nos quais Peele colabora como produtor: Infiltrado na Klan, Lovecraft Country, Além da Imaginação e Candyman são todos produções com o duplo objetivo de informar e entreter.

Em seus trabalhos autorais, Jordan Peele parece ser mais sutil, refinando a necessidade de falar desses temas à naturalidade com que eles existem no mundo real. Mas, símbolos à parte, não há fechaduras a serem abertas na criptografia desse universo de Peele. Afinal, não pode ser uma coincidência que a atriz que irá cavalgar o cavalo treinado por OJ se espante com seu nome no set de gravação, ao que Daniel Kaluuya suavemente esclarece ser uma abreviação do seu nome "Otis Junior", como se espanasse poeira dos ombros. Interessante também a escolha de Brandon Perea, ator americano de ascendência porto-riquenha/asiática para interpretar Angel, claramente latino, e que, no primeiro encontro com os irmãos Haywood, os subestima em capacidade de instalar equipamentos eletrônicos.

E que tal June? O ator mirim asiático que, agora um adulto vivendo do sucesso de seu passado, precisa se fantasiar dia e noite ridiculamente como um cowboy caricaturado de desenhos animados? Em seu outro trabalho de sucesso, uma casa multiétnica que abrigava um pai e uma mãe expoentes em profissões científicas altamente técnicas, uma criança asiática, outra caucasiana e um chimpanzé. Se isso não for um comentário sobre como Hollywood enxerga a diversidade, o que mais poderia ser?

Nessa leitura, claramente, você já viu pra onde me dirijo, não é mesmo? Exato. Jean Jacket é Hollywood. O monstro que devora as pessoas arrancando-as do chão e devorando-as nada mais é do que a famigerada indústria do cinema americano. Um monstro no céu, disfarçado de nuvem em meio à imensidão azul do céu, do qual não conseguimos tirar os olhos. Ela é quem nos devora quando não estamos prestando atenção (vide os anos e os danos que os Weinsteins e Kevin Spaceys do mundo causaram enquanto sorriam para fotos em tapetes vermelhos).

E é nesse cenário que dois irmãos negros, um jovem latino e um velho branco desgastado tentam encontrar a forma de "capturar" o monstro de uma forma impossível, para alcançar a sua glória. Veja bem, leitor, é aqui que as três partes desse texto se tornam uma só, se você foi gentil o suficiente para ler até aqui. Eu estou convencido desde o dia que saí daquela sala de cinema de que Jordan Peele resolve refilmar Tubarão para contar sua trajetória como um autor de cinema e comentar como foi pra ele caçar a sua própria baleia branca.

Esse texto já está muito longo, mas eu teria muito mais pra dizer sobre esse filme maravilhoso. Eu espero que você tenha se empolgado e se divertido com o filme tanto quanto eu. Também tenho curiosidade de saber que outras visões o filme pode ter causado, pode me escrever contando o que você achou, se quiser. Uma coisa é certa: quando o próximo filme assinado por Jordan Peele estrear, eu estarei lá pra tentar decifrar.


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