Quando Rauzito Virou o Maluco Beleza

Quando Rauzito Virou o Maluco Beleza
Da esquerda para a direita, Raul, Miriam, Sergio e Edy posam para seu próprio Sgt. Pepper's

No começo do ano, o músico e cantor Ed Motta enfureceu a enorme legião de fãs de Raul Seixas com alegações bem infelizes sobre o seu passado como executivo da industria fonográfica. Segundo ele, Seixas seria um tipo de inimigo dos artistas por ter estado "do lado explorador da industria". Isso, obviamente, não é verdade, já que Raul não só ajudou artistas, como também arruinou a própria promissora carreira como produtor de discos, por ser demasiadamente... artista.

Depois de um disco gravado em 1967 sem muita repercussão com sua banda "Os Panteras", Raul Seixas teve uma nova chance, quatro anos depois, com um divertido disco colaborativo de 11 faixas. Repleto de humor e estilos variados que iam do samba ao rock, mas ignorado por crítica e público na época, "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta: Sessão das Dez" é o álbum que tirou da garrafa para sempre o grande gênio musical do Maluco Beleza.

Raul deixou Salvador com sua banda de rock para tentar a sorte no Rio de Janeiro em 1967, após um convite do ídolo da Jovem Guarda, Jerry Adriani, que havia tocado com os rapazes numa temporada de shows na Bahia. Os Panteras eram conhecidos na cena musical da Salvador dos anos 1960 e faziam apresentações em pequenos espaços e programas de TV locais, servindo de banda de apoio quando os astros da Jovem Guarda vinham tocar em ginásios esportivos da capital. Os artistas vinham sem bandas e os músicos eram contratados no local.

Jerry tinha uma banda, mas naquele show no Clube Bahiano de Tennis, espaço frequentado pela alta sociedade soteropolitana, os seus músicos não poderiam entrar no espaço porque eram negros, antiga regulamentação racista de uma cidade composta por maioria negra.

De última hora, Os Panteras, que eram rapazes brancos de classe média de Salvador, foram chamados. Agradaram e seguiram com Jerry para mais apresentações quando foi feito o convite.

Na verdade, o convite estava mais para um “passa lá em casa qualquer dia”, coisa que o brasileiro fala por mera formalidade inconsequente. Mas os rapazes levaram aquilo bem a sério e partiram de mala e cuia. Raul, recém casado, levou junto a esposa, Edith Wisner.

No Rio, os Panteras tocaram com Jerry (e outros artistas da Jovem Guarda) durante um tempo. Posteriormente, ele indicaria os músicos para gravar um disco em sua gravadora, a Odeon - sucursal brasileira de EMI, a gravadora dos Beatles - mais icônico, impossível. Mas o disco não aconteceu comercialmente e com as apresentações minguando e o dinheiro acabando, a aventura dos Panteras chegou melancolicamente ao fim. Em 1968, todos retornaram à Bahia. 

Mas o regresso durou pouco, pois Raul conheceu, em Salvador, um executivo da CBS, a famosa "gravadora de Roberto Carlos" e este o convidou para trabalhar lá como produtor. Mal sabia ele que o emissário atendia a uma ordem de Evandro Ribeiro, o presidente da gravadora, convencido por Jerry Adriani, que agora era parte do cast da companhia.

Mas o convite vinha com uma condição expressa: produzir, sim, cantar, não. Raul voltou ao Rio e se integrou ao meio burocrático da major por 4 anos. A CBS no Brasil, ao contrário da matriz americana, era uma gravadora especializada em uma linha musical "povão" e Raul não teve dificuldades em se enquadrar naquela filosofia de negócios. Se tornou, em pouco tempo, um grande agregador de talentos, descobria artistas, produzia discos, compunha toneladas de músicas que viravam hits instantâneos para cantores como Jerry Adriani, Diana, Odair José, Renato e seus Blue Caps, Leno, da dupla Leno e Lilian.

A figura do produtor Raul Santos Seixas, de terninho bem cortado, óculos, gomalina no cabelo e pastinha 007 era conhecidíssima no meio musical. Mas, mesmo com a carreira executiva muito bem sucedida, ele queria ainda ser cantor.

Reza a lenda que, no ano de 1971, o diretor da CBS viajou e deixou a "chave da casa" nas mãos de Raul durante o fim de semana. Sem pestanejar, o inquieto gênio convidou uns amigos e fez uma festa. Ocupou o estúdio, chamou artistas descobertos por ele, Sérgio Sampaio e Edy Star, mais a sambista Míriam Batucada e, lá, gravou o anárquico disco (a começar pelo nome maluco e sem significado algum) "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10".

Essa era uma versão da história contada por Raul, que gostava de enfeitar o fato. Mas, na verdade, o disco havia passado por aprovação prévia da gravadora e todo gravado em uma semana. Ele teve, sim, que selecionar repertório e ensaiar, além de ter à sua disposição verba para certas extravagâncias, como mandar músicos da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro para tocar dez acordes de trompa, bombardino, sousafone e tímpano, que lembram uma inserção musical de entrada de guarda pretoriana de um filme épico da Metro. A brincadeira dura, ao todo, vinte segundos.

Os quatro artistas chegaram até a dar uma entrevista no anárquico jornal O Pasquim para divulgar a obra, o que reforça a ideia de que Raul estava plenamente autorizado a cometer a empreitada. Naquele período, estavam muito em moda os álbuns conceituais Ópera-Rock, que eram discos que obedeciam a um tema em todas as faixas e fugiam do padrão comercial de composição com muito experimentalismo.

Beach Boys, Beatles, Frank Zappa tinham gravado os seus e inspiraram uma infinidade de artistas. O disco de Raul também foi claramente inspirado nesta tendência, a começar pela capa, que é uma paródia engraçada da reunião de notáveis de Sgt. Pepper’s.

Ali, ele é produtor, compositor e canta junto com seus companheiros de produção. Ainda que o disco seja uma mistura de vertentes musicais, ele parece muito encaixado numa estética de conceito que não o faz soar estranho; há baião, frevo, samba, chorinho, seresta, rock psicodélico. Mas o diferencial está no tratamento moderno dado, seja nas letras cheias de nonsense e humor, nos arranjos elaboradíssimos que contavam com o citado pequeno naipe de metais, acordeons, quarteto de cordas, as guitarras distorcidas do Rock psicodélico, a “cozinha” básica do Samba com cavaquinho, cuíca, pandeiro e surdo, até o órgão da Jovem Guarda tocado pelo inconfundível Lafayette e o piano de Dom Salvador numa pegada soul gospel estavam lá. Sem esquecer dos efeitos sonoros "sampleados" e das vinhetas engraçadíssimas que separam uma faixa e outra, sem os segundos de silêncio, algo muito novo na época. 

Este não é meramente um disco de Raul Seixas onde outros artistas participam, e sim um disco colaborativo onde todos têm seu espaço para brilhar. Sérgio Sampaio, que ficaria famoso com a música "Eu quero é botar meu bloco na rua", aparece festivo em "Eu acho graça", Edy Star bem performático com a seresta "Sessão das 10", Míriam Batucada foge dos sambas habituais com o baião "Soul Tabaroa" e Raul antecipa na humorada "Aos Trancos e Barrancos" uma temática que revisitaria na obra prima "Ouro de Tolo".

Apesar de esteticamente perfeito, bem produzido, alegre e divertido, o disco encalhou nas lojas. Não foi divulgado apropriadamente e desagradou toda a cúpula da CBS nacional e internacional. Segundo outra lenda, depois que a farra de Raul foi descoberta, ele levou um esporro monumental do seu superior e foi sumariamente demitido - uma lenda que o próprio Raul ajudou espertamente a divulgar como parte de seu marketing pessoal.

O fato é que, em meio ao material extremamente popular dos hits de refrões fáceis do elenco da gravadora, o álbum de Raul estava deslocado, não se encaixava em nada do que era produzido pela indústria fonográfica brasileira da época, e a dose de experimentalismo era extemporânea e foi demais para a careta filosofia comercial da companhia.

Raul ainda permaneceu na CBS por algum tempo até dar seu grande voo solo como o grande artista que viria a se tornar, quando duas músicas inscritas no Festival Internacional da Canção, em 1972, o alçaram ao estrelato.

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10 ficou no ostracismo durante muito anos, recolhido das lojas pela CBS e mantido fora de catálogo até ser redescoberto, muito tempo depois.

Um petardo despretensioso de criatividade e sonoridade, de jovens artistas que viriam a ter carreiras interessantes e, sobretudo, o disco que faria Raul deixar o terno e a pasta de executivo para se tornar o Maluco Beleza. Seu genial disco de estreia, "Krig-ha, Bandolo!", viria somente em 1973. E era só o começo.




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