Quando se marchou por orgulho, a Igreja estava lá

Quando se marchou por   orgulho, a Igreja estava lá

Antes mesmo de se darem os primeiros passos da marcha do orgulho, em 1970, a Igreja já estava presente no movimento. E ainda hoje ela não está de fora, e nem contra, mesmo muitas delas estando abraçadas com o falso messias e mitômano que está no poder atualmente.


 

O assunto em questão é uma bomba pronta a explodir. A combinação religião e movimentos LGTBIA+ é um convite a posicionamentos ferrenhos e acusações de todos os lados. O que poucos sabem é que na primeira parada do orgulho estavam presente, na organização do evento, dois pastores: Rev. Troy Perry e Rev. Bob Humphries

Pode parecer estranho para os disas atuais imaginar que a Igreja esteve na vanguarda da luta pelos direitos LGBTIA+. De fato esteve e com um pastor assumidamente homoafetivo. Fundador da Igreja da Comunidade Metropolitana, Rev. Troy deu os primeiros passos para a concretização da consolidação do movimento LGBTIA+ em Los Angeles e entre o cristianismo. Mas nem tudo são flores nesta relação.

A Igreja é um organismo, não uma organização. Esta afirmação precisa ser compreendida na medida que o Cristianismo, enquanto religião, não possuí um porta-voz oficial. Existem diversas comunidades, que dialogam com o sagrado de diversas formas diferentes, e que se posicional socialmente de maneiras até mesmo contrárias entre si. Neste contexto há, como em toda religião, conservadores e progressistas. Os conservadores sempre criarão meios para manter o status quo e as estruturas de poder que legitimam sua existência. Os progressistas deveriam lutar para quebrar as estruturas de poder e romper com o status quo.

Quando estudamos os profetas, no estudo do Antigo Testamento, percebemos haver uma clara diferença entre os profetas do Templo e os que não são ligados ao Templo. Os profetas do Templo eram ligados não só ao local de adoração, em Jerusalém, mas principalmente ao palácio, servindo de validação religiosa do poder político. Já os que não eram do Templo, eram os profetas do campo. A maioria deles são os que temos os textos na Bíblia Sagrada. Estes profetas, à margem da religiosidade oficial, produziam o contraponto de denúncia e chamada ao arrependimento para o povo que, iludidos pelo discurso do Templo em associação ao Palácio, caminhava distantes do que seria a vontade de Javé.

Rev. Troy Perry é, como tantos outros e outras atualmente, um profeta fora do Templo. Não que ele não tenha uma Igreja, pelo contrário, pastoreia aos oitenta anos . Mas precisou romper, lá na década de 1970, com a religiosidade oficial para chamar a atenção da Igreja que sua atitude discriminatória, agressiva e homofóbica estava, e está, distante do que seja a vontade de Deus para a humanidade.

No Brasil dos anos 2010-2020 assistimos o puro suco da homofobia sendo destilada por igrejas que possuem como agenda, única e exclusiva, estar associada ao poder político da nação. Para tal, relativizam qualquer erro de seu mitômano salvador e ignoram suas ações contra a vida. Mais que isso, se vendem para uma agenda que privilegia a morte e o lucro. Os profetas do Templo, e do palácio, não se cansam de gritar, esbravejar e semear mentiras, defendendo seu presidente messias que não sabe nem rezar o Pai Nosso, precisa de ajuda para fazê-lo.

O meu convite para você e virar a cabeça e tirar os olhos da Igreja oficial, da Igreja do Templo e do Palácio, e olhar para a Igreja ao seu redor, a Igreja da periferia, da margem, daqueles que são perseguidos, "entregues aos tribunais, açoitados nas sinagogas" (Evangelho de Marcos 14.9). Quando a religiosidade dominante se incomoda, se remexe e sente seu poder ameaçado, pode acreditar que o Cristianismo está reagindo. A fé que o homem de Nazaré pregou, há dois mil anos, é a do acolhimento e entendimento, da vida e da comunhão. Se a fé excluí, ela não é fé cristã e deve ser vista como uma das muitas ferramentas de manipulação e manutenção do status quo.

Prezados e prezadas amigas LGBTIA+, saibam que na Igreja de Cristo há sim, lugar para vocês, que a agenda moralista e homofóbica de muitas igrejas não é a agenda de Cristo para nossas vidas. Queremos comunhão, amizade e sinceridade entre nós. Queremos ser quem somos, como estamos, independente de nossa situação atual, para juntos lutarmos por um mundo de justiça e amor. Precisamos repetir aquele 28 de junho de 1970, quando a Igreja caminhou ao lado dos que eram mortos e perseguidos. No país que mais mata travestis no mundo, precisamos parar de proclamar a morte e passarmos a lutar pela vida.

Imagem de capa - Arte gráfica do autor do artigo sobre foto de Rawpixel

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