Esboços e conexões

Esboços e conexões

Registro de encontro do grupo curitibano de Urban Sketchers em 2019. Foto: Divulgação do grupo.

As histórias que os desenhos guardam

Há dois movimentos de sketchers que se reúnem por Curitiba durante os fins de semana. Antes de mais nada, é bom explicar o que são esses movimentos.

Sketches Urbanos são desenhos feitos na hora e no lugar, em qualquer parte da cidade. Retratam as construções e a movimentação das pessoas, bem como dão espaço para os traços de cada artista.

Por aqui, duas frentes movimentam desenhistas para essa prática e mudam a rotina da capital nos fins de semana: Urban Sketchers Curitiba (ou USk), grupo que se reúne nas tardes de sábado, e Croquis Urbanos, que realiza os encontros nas manhãs de domingo.

Urban Sketchers é na verdade um grupo de alcance mundial, presente em todos os continentes, que foi fundado em Seattle (nos Estados Unidos), em 2007, por um coletivo de desenhistas organizado pelo espanhol Gabriel Campanario. No Brasil, surgiu inicialmente em São Paulo, bem depois é que Curitiba o adotou.

Entretanto, durante muito tempo, talvez até hoje, a capital paranaense tem sido a cidade mais forte do movimento no país, e somente depois do 1º Encontro Nacional, realizado aqui em 2016, é que muitos outros pontos surgiram ou se fortificaram por todo o Brasil.

Também dessa primeira reunião, veio a proposta de fazer encontros anuais, cada vez em um lugar do Brasil, escolhido por meio de eleições. Esse sistema é baseado no simpósio mundial do Urban Sketchers, já que a cada ano o encontro acontece em um lugar do globo. 

A ideia de trazer a iniciativa para cá surgiu com o Croquis Urbanos, em 2013. Após cerca de dois anos, houve uma desavença entre os organizadores, e foi criado o segundo grupo. Entre os demais integrantes, contudo, é comum que participem dos dois encontros.

E funciona assim: seja um sábado nublado, seja um domingo de sol escaldante (e conhecendo Curitiba, é absolutamente possível juntar as duas coisas), no horário marcado os membros do grupo começam a chegar ao local – que é definido por um evento no Facebook.

Pouco a pouco, vem surgindo mais gente. Alguns ficam de pé. Alguns trazem cadeiras de praia ou banquinhos. Outros se sentam no que puderem: banco de praça, meio-fio, grama… Todos vêm muito bem munidos para realizar os seus croquis, cada qual com seu material preferido.

São aquarelas, grafite, lápis de cor, nanquim, marcadores, giz de cera, pranchetas, papéis, cadernetas e até cavaletes para apoiar os desenhos. E, por fim, um grupo de fotógrafos sempre acompanha o grupo principal.

O princípio é bastante simples: desenhar o que vê. O que surge de novo é consequência justamente do fato de que cada pessoa é capaz de encontrar uma perspectiva única. Os dois grupos realizam exposições ao final de cada encontro.

José Marconi, organizador do Croquis Urbanos, declara que o ponto alto da reunião é a fotografia oficial do grupo, mas que a exposição é o momento de maior aprendizagem. "O legal do grupo é a diversidade e a escolha dos pontos de vista", declara.

A fala de Raro de Oliveira, um dos organizadores do Urban Sketchers, segue a mesma linha de Marconi. "Isso gera uma coisa muito diferente de outros encontros de desenho, que é ver o do outro, o que o outro faz, como o outro faz, e aprender com isso".

De acordo com ele, não tem alguém que desenha melhor e alguém que desenha pior. "Todos têm coisas a ensinar e coisas a aprender, e essa relação de troca é muito importante. E outra coisa é que acaba agregando pessoas da rua nessa hora, então vira uma exposição ao ar livre, um museu ao ar livre e instantâneo. Isso que é o legal". 

Mesmo durante o tempo em que o grupo ainda está desenhando, todos os que passam olham, e muitas pessoas chegam até a parar para observar. 

De fato, enquanto os integrantes do USk desenhavam casinhas de madeira em uma rua pouco movimentada do bairro Ahú, pararam  para ver: uma moça que passeava com o cachorro, um pai com duas crianças, um casal de idosos que mora ali pertinho, e até mesmo um rapaz que interpretou o encontro de outra forma.

“Escolheram aqui por algum motivo?”. Apesar da resposta negativa de Simon Taylor (mais um dos organizadores do grupo, além de presidente do USk no Brasil), que explicou que na verdade desenhavam pela cidade toda, o pedestre continuou, “Sabe, é legal, pois valoriza. Neste bairro a gente está tendo uma pressão enorme do mercado imobiliário para desmontar as casas de madeira”. Então tirou uma foto e continuou caminhando. 

Após o rapaz ir embora, Simon comentou que as pessoas costumam perguntar o que o grupo deseja. “É legal, porque faz muito tempo que a gente faz isso, mas sempre passa alguém e cada um interpreta de um jeito. Tem gente que acha que é protesto, que é aula, esse cara achou que é contra o mercado imobiliário.

É só desenho. Mas como toda e qualquer coisa na vida, cada um interpreta segundo suas lentes”. Disse ainda que, na realidade, os encontros do grupo se devem ao conjunto de alguns fatores: “é gostar de desenhar, ter paixão pelo desenho (mas sem necessariamente saber desenhar), e essa coisa de criar uma relação mais íntima com a cidade”. 

Além de contar que sua relação com a cidade mudou, Simon admitiu que conheceu muito mais de Curitiba nos últimos quatro ou cinco anos do que durante toda a sua vida, mesmo tendo crescido aqui.  “As coisas simples passam a ser interessantes. Você começa a ficar ávido por qualquer coisa – histórias e lugares.

Quando a gente senta pra desenhar, passa duas horas olhando aquele lugar, vendo a beleza daquilo e tudo o que está acontecendo em volta, essa que é a graça. A gente vai percebendo que o ‘comum’ acaba sendo gostoso, porque a gente descobre uma beleza que não é que não existia, a gente é que não percebia, por causa da velocidade da vida”. 

Esta questão de redescobrir a cidade se estende até a quem participa dos encontros, mas não para desenhar. Herta Rosa começou a fazer parte enquanto acompanhava o marido, Ari Lopes da Rosa, que é um daqueles fotógrafos que seguem os dois grupos. E o que ela contou é bastante singular.

“Eu na verdade não faço desenho, faço anotações. Venho porque quero conhecer. Enquanto eles estavam desenhando aqui, já descobri o nome da rua de baixo, daquela perpendicular ali, já sei onde tem farmácia e onde tem posto de gasolina. Eu vim para Curitiba em 2013 e quero conhecer a cidade”. 

Washington César Takeuchi é mais um dos fotógrafos. Ele conta que começou a acompanhar há cerca de seis anos. “Eles que me conheceram, na verdade, porque eu tenho um blog chamado Circulando por Curitiba. Faz 10 anos que eu posto uma foto por dia. Eles começaram a seguir os lugares que eu posto e viramos amigos.

Não sou de Curitiba, mas me apaixonei pela cidade e retribuo tirando fotos”. Ele relatou que se aposentou como engenheiro, começou a estudar gastronomia, mas que a Fotografia sempre fez parte de sua vida. “Aqui não tem julgamentos nem técnica certa. Cada um desenha o que quer e como quer. Tem designers, arquitetos, artistas plásticos, tem a minha esposa, que é fisioterapeuta. Temos até um cineasta no grupo”, comentou, rindo.

Rubens Gennaro nasceu em São Paulo e veio para Curitiba na década de 70. Foi diretor e produtor de filmes como Oriundi, Cafundó, Anita e Garibaldi, além de diversos documentários. Ele tem experiência com arquitetura, mas leva seus croquis como um ato terapêutico. “Meu papel é desenhar para mim, não para competir.

É como se eu fosse aquele menino que ganhou o primeiro lápis de cor. A gente rejuvenesce e é um prazer rever os amigos. Gosto de desenhar com esse pessoal, jogar umas coisas no papel. É uma família, uma comunidade legal, para trocar experiência, tinta e papel. Nas horas em que você fica focado nesse trabalho, você esquece o cotidiano”. 

Para Simon Taylor, os encontros são para diversão, antiestresse. “É sobre gostar, não sobre entender, e o que a gente menos quer é seriedade”. Ele mencionou ainda a forma como as pessoas vão se conhecendo no grupo.

“Existe aquela lenda de que curitibano não fala com estranho, e a gente fala com estranhos todos os sábados. Sempre tem um estranho que aparece, algum sketcher novo e tal. E as pessoas interagem, mesmo sem se conhecer, e aos poucos vão criando essa intimidade”.

Herta Rosa foi outra que comentou sobre o vínculo que os participantes fazem uns com os outros, “A maioria participa dos dois grupos, porque o objetivo é o mesmo, a comunidade é a mesma. E a gente foi fazendo amizade. Ela me chama de Rosa, ela me chama de Japa”. As mulheres fundaram um grupo menor, só delas. Toda segunda-feira, encontram-se para desenhar o interior de algum café. É o Uskoffe.

Os encontros dos fins de semana costumam acontecer nos ambientes externos mesmo, mas há grande liberdade para a escolha de perspectiva. Cada um pintando ou fotografando uma parte ou detalhe diferente – uma casa, uma árvore, uma bicicleta, até mesmo os outros desenhando... E cada um com o seu ritmo de trabalhar. Alguns chegam a fazer mais de um esboço.

Enquanto os desenhistas se espalham pelo local, sentando-se ou se posicionando em pé, os fotógrafos circulam e as crianças correm para ver os sketches dos outros. O ambiente é bastante descontraído, e todos conversam.

Ao longo dos encontros, continua chegando mais gente. Além dos que estão acostumados a frequentar, sempre vem alguém novo. De acordo com Marconi, do Croquis Urbanos, isto ocorre devido ao fato de o grupo se organizar pelo Facebook. 

Os desenhistas criam vínculos com a cidade. Mas a cidade também cria vínculos com os desenhos. Os sketchers contaram que as pessoas se emocionam com o trabalho, porque esses esboços eternizam as construções e as lembranças que elas envolvem.

Fabiano Vianna, mais um dos organizadores do USk Curitiba, afirmou com convicção que “Você mostra o interesse e a cidade te devolve histórias”. Naquela tarde de sábado em que desenhavam as casinhas de madeira do Ahú, um rapaz explicava que o seu nono fora o carpinteiro daquelas obras antigas. “Ele era analfabeto funcional, não achei registro de tudo o que fez. Mas ele que construiu isso aí, ele ensinou um monte”.

Fabiano acrescentou que o trabalho do sketcher é muito parecido com o de um cronista, “porque tem a ver com o registro da cidade, com esse registro das pessoas que usam a cidade. Com observar cenas e descrever. A gente usa o desenho e os cronistas as palavras”.

A casinha que foi pintada era de um colega de João Paulo de Carvalho, que, além de aquarelista e professor de desenho, integra o Usk. “Estou desde o começo. Acho muito bacana o quanto estimula na cidade esse lance despretensioso de hobby. T

em gente que acha que desenho é dom, ou que é faculdade, e o grupo desconstrói essa barreira”, comenta. João Paulo acrescenta ainda outro aspecto que surge como consequência dos encontros. “Esse grupo gerou muitos elos, de amizade, de profissão e de viagens, coisas que ninguém esperava”.

Cassiano Tabalipa também trabalha com desenho, mas declara ter encontrado uma nova identidade com os croquis. “Quando surgiu a oportunidade de desenhar com o grupo, vim confiante do que fazia dentro de casa, mas tive que reaprender. A rapidez do desenho acaba fazendo você se estilizar. Foi assim que eu fui tentando, mudando material e me redescobri. Agora sei meu estilo”. 

Luciane Mezzaroba participa do Croquis Urbanos, é arquiteta, e também diz que os sketches são uma nova forma de desenhar. “Eu não fazia desenho livre há muitos anos. Chamo os colegas e eles pensam que já trabalham com desenho, mas isso aqui é treinar”.

Ari Lopes da Rosa – o fotógrafo, marido de Herta – acompanha os grupos desde o início. “Antigamente quase não tinha fotógrafo, e eles nem gostavam muito. Mas a gente foi chegando e foi ficando, e eles foram vendo que os fotógrafos também são importantes para isso aqui.

Minha função é encher o saco. Hoje, venho mais pelas pessoas, porque acabei fazendo amizade, é pelo prazer de vir”. Ele relatou que fazia parte de um grupo de passeios fotográficos, e num desses passeios fotografou o primeiro encontro do Croquis Urbanos. “E eu gostei da coisa”.

Ari Lopes é aposentado do Banco do Brasil e considera que a Fotografia funciona da mesma forma que os sketches. “A Fotografia é minha cachaça. Não me considero fotógrafo, mas as pessoas falavam que eu era, então assumi essa posição. É legal porque aqui acontece uma mistura de dons e o que tem em comum é o amor pela Arte. As pessoas se tornam diferentes quando vão cada uma para seu mundo, mas aqui somos todos iguais. O Felipe, por exemplo, é psicanalista, um gênio e filósofo. Mas no sábado ele se despe disso tudo e veste a câmera. E vira artista.”


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