A morte é mesmo um sopro?

A morte é mesmo um sopro?

Com todo o carinho e consideração para aqueles que perderam alguém nesta pandemia.


 

Talvez não seja o seu tempo, e não é o meu, mas acredite, leitor: a morte já foi “vivida” de modo diferente destes momentos áridos que estamos atravessando. 

Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra e médica precursora em cuidados paliativos, em seu inestimável livro “Sobre a morte e o morrer” (editora Martins Fontes) nos deixou relatos e reflexões sobre as mudanças no modo de encarar esta etapa da vida e seu luto. 

Segundo a autora, já houve um tempo em que nossos parentes convalescentes eram acamados em suas próprias casas, em camas confortáveis, recebendo visitas de parentes para se despedir, perdoar e ser perdoado, rir e chorar. Era enfim estar cercado de humanidade no momento mais solitário (e solidário) da vida. Não eram momentos felizes, pelo contrário. Mas ao menos a morte era “real”: tinha cheiro, tinha toque, tinha cor. Era (re)conhecível. E só podemos lidar com aquilo que conhecemos de algum modo. 

 Com as mudanças sociais e econômicas, a morte foi se distanciando de nós. Seu lugar passou a ser o hospital. Em vez da cama em seu quarto, um colchão magro na fila para a internação. Em vez do repouso dos últimos dias, a urgência da ambulância, a velocidade de uma maca abrindo portas aos sopetões. Em vez da família ao lado, monitores que bipam e mostram linhas verdes indecifráveis, canudos plásticos e agulhas. Em vez de despedidas de perto, notícias incompreensíveis do exausto médico do plantão.  

Kübler-Ross morreu em 2004, aos 78 anos, sem poder presenciar, talvez uma “terceira onda” na maneira de encarar a morte. Um amigo ou parente, sentindo febre, tosse e falta de ar - algo que em outros contextos não pareceria grave - pode de repente ser levado ao hospital e dele só voltarem as roupas embaladas em saco plástico.

Em vez dos frios aparelhos, a “intubação” por aparelhos que sequer sabemos descrever. Em vez da família esperando nos corredores, temos a família proibida (pelo bem dela) de estar no hospital. Em vez da pressa, a agonizante esperança por uma melhora do próprio organismo. Em vez das magras notícias do médico, informes poucos e noticiosos uma vez ao dia, ditados em voz alta do lado de fora do hospital para representantes de centenas de famílias na mesma situação. 

A morte parece ainda mais distante, abstrata e incompreensível. Triste, com certeza, mas de um modo impessoal: caixão fechado e enterro para poucos familiares. O que fazer? Será que as fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) permanecem iguais? Será que estão acontecendo mais rápido, ou estamos pulando etapas? Muitos negam, mas deprimidos, raivosos e barganhadores, todos estamos. Vamos direto para a aceitação, talvez? São milhares de mortes por dia e o nosso querido foi “apenas” mais um.  

Será que a situação é tão vertiginosa para todos que ficamos um pouco perdidos, sem saber como trazer algum sentido a essa experiência tão catastrófica, nos sobrando nada além de entender a morte como a destruição da existência?   

Quanto aos sentidos possíveis da morte, primeiro podemos falar de C. G. Jung ao definir arquétipo: categorias da fantasia e de percepção humanas que compartilhamos por meio da história e do aparelho psíquico comum à espécie. Isso posto, além do fim último e da destruição, segundo Von Franz em seu “Os sonhos e a morte” (Cultrix), percebemos e significamos a morte como renascimento, transformação, longa viagem, confronto com o grande outro (nós mesmos), integração de opostos, além, é claro, da transcendência, de vitória e descanso heroico, de celebração da vida e seu legado para a humanidade. 

Hoje, o que temos? Quase nada disso me vem à mente ao escrever. Olhar para os sentidos arquetípicos da morte parece tarefa distante: estamos diante de um massacre provocado por um inimigo invisível, que ceifa milhares de vidas por dia sem muita distinção. As autoridades políticas agem de forma a nos abstrair das causas das mortes sem resolvê-las de fato, além de distanciar de nós o aspecto simbólico da morte em suas facetas psíquicas, tornando-a coletivamente apática, diluída e (o que é terrível) sem sentido, normalizando seu sofrimento e deixando famílias perdidas em sua dor.  

É difícil, talvez impossível, “dar sentido” diante de uma catástrofe estrutural e psicossocial que nos (i)mobiliza e ameaça constantemente, nos doendo além da capacidade de sentir. Mas como seguir vivendo? Que novas atitudes farão a história do espírito continuar “valendo a pena”, como pede o mito egípcio de Anubis? Como podemos fazer da morte, mais uma vez, não apenas “um dia”, mas uma etapa honrosa da vida? 

Não há respostas para nenhuma das questões propostas. Nem é minha intenção. Afinal, a dúvida já nos basta: ela nos permite sair de uma posição unilateral e alienante de que “as coisas são assim” e permitem abrir caminhos para novas maneiras de viver. É diante do abismo que buscamos pontes. Se não buscarmos, se assumirmos que a morte perde seu sentido a partir de hoje, provavelmente a vida, enquanto sua contraparte, também perderá.  

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