E disse Deus: vocês sofrerão por futebol

E disse Deus: vocês sofrerão por futebol

Por quê sou tão apegado assim? Não apenas isso, eu sou alfabetizado, e plenamente capaz de somar ou subtrair. Não obstante, fico angustiado com onze jogadores do Palmeiras uniformizados que ignoram a minha existência. Gente que não poderia ligar menos para a minha saúde emocional.


 


Será que meu coração vai aguentar esse tipo de coisa quando for velho? São 02:33 da madrugada de quarta-feira e ainda não consegui dormir. A pergunta que fiz aos trinta e oito minutos do segundo tempo ainda ecoa. E da dúvida surge uma convicção: preciso levar a academia mais a sério, caso contrário meu cachorro vai morrer de fome. Ninguém vai ter paciência de jogar cada grão de Birbo (sim, esse é o nome da ração) escada abaixo em uma estranha gincana que mistura vergonha alheia e boa vontade.

Por quê sou tão apegado assim? O ano é 2021, vacinas foram desenvolvidas em questão de meses, o 5G está prestes a dominar o mundo e o Elon Musk inventou um foguete que dá ré, anulando, portanto, a premissa do funk do MC Hariel. Não apenas isso, eu sou alfabetizado, e plenamente capaz de somar ou subtrair. Não obstante, fico angustiado com onze jogadores do Palmeiras uniformizados que ignoram a minha existência. Gente que não poderia ligar menos para a minha saúde emocional.

Será que o Tio Marco tinha noção do que estava fazendo? Não é a toa que as santas escrituras não fazem menção de futebol no Éden. O silêncio ensurdecedor da Bíblia apenas confirma que torcer faz parte das maldições resultantes de rebeldia humana. Rejeito, portanto, qualquer noção de que essa agonia terrena estará presente no paraíso. Afinal, "Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou" (e com ela o Brasileirão, o Paulista e a Libertadores).


Maldição que passa de geração em geraçãp. Photo by Ronny Sison on Unsplash

Existe tratamento para atenuar os sintomas? Sou uma pessoa razoável, se derrotas não me causarem mais do que um singelo incomodo, aceito, em troca, que as vitórias tragam apenas um suspiro de alívio. Não bastasse a política nacional, o preço do gás e a conta de luz, nós brasileiros padecemos também por conta do esporte bretão. Para os mais sofridos essa é uma realidade que se repete duas vezes na semana, para todos os outros, a cada quatro anos.

E se, eu simplesmente desistir? Poderia vender as camisas e dar o dinheiro para a caridade. Certamente minha mulher, a mesma que semanalmente questiona "Mas tem jogo de novo?", veria essa decisão com júbilo. Teria mais tempo livre para passear com o cachorro, ler os livros atrasados, consertar as coisas de casa antes do prazo normal de seis meses, visitar a minha avó, ir a museus, dar aulas de português para refugiados. Das cinzas do futebol surgiria um cidadão mais digno e marido ainda mais eficiente.

Inspira… respira…

Que dia é que é a final?

Imagem de capa - Sofrendo desde pequeno. A foto foi tirada por algum parente misterioso


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