A dor intensa de um tombo não anunciado

A dor intensa de um tombo não anunciado
Imagem: Autoria desconhecida

Dói a constatação. 

Quando a gente sente a chegada do começo do fim. 

 

Dói a decepção. 

Quando a gente entende que tudo não passou de produção e, às vezes, enrolação. 

 

Dói a entrega não correspondida. 

Quando a gente percebe que, na conta vigente, só a gente depositou. 

 

Dói a indignação. 

Quando o conflito aparece e cresce e a gente nem sabe quem o convidou a entrar e tomar um café. 

 

Dói a falta de explicação. 

Quando muitas questões ficam pairando no ar, como belas e vazias bolhas de sabão. 

 

Dói a desconsideração. 

Quando a gente enxerga que pra outra pessoa a gente é só um alguém, sem valor e sem estima. 

 

Dói a saudade. 

Quando a gente sente falta do que foi, como foi, quando foi e até do que seria, se tudo não acabasse. 

 

Dói a queda. 

Quando a gente acha que é só reta e se depara com a ladeira, sem ter freio que nos sustente. 

 

Dói a ausência. 

Quando a gente não pode mais contar pra outra pessoa o sonho da noite passada, onde era dele ou dela o protagonismo da cena. 

 

Dói a recuperação. 

Quando a gente sabe que o caminho à frente está a nossa espera.

Caminho este, sem ele, sem ela. 

 

Dói a lembrança. 

Quando a gente precisa se esforçar para lembrar do cheiro, do gosto, do som da gargalhada, do calor do corpo, da consistência da mão que repousava, que estimulava, que afagava, que arranhava. 

 

Dói o recomeço. 

Quando a gente quer abrir a porta, quando a gente olha pela janela, quando o mundo lá fora, ah, o mundo lá fora. 

 

Dói o reconhecimento. 

Quando a gente entende que, pra chegar do outro lado, onde não mais dor tenha, é preciso enfrentar, sem poupança e parcimônia, a dor que a gente sente. 

 

Dói a necessidade.

Quando o corpo pede colo, o braço, um abraço, o sorriso, um motivo.

 

Dói a realidade.  

Quando o nosso coração volta a pulsar no ritmo de antes, não frenético, mas compassado, não alucinado, mas sóbrio, não amuado, mas animado. 

 

Dói o agora. 

Quando a vida se descortina, quando a fumaça abranda e uma brisa leve sopra o nosso rosto, anunciando o término da dor, a importância de seguir, de sorrir e de colher flores pelo caminho.  

 

Dói o sucesso. 

Quando a gente consegue falar e não chorar. 

Quando a gente consegue tocar, firme e adiante. 

Quando a gente consegue voltar a acreditar. 

Quando o passado deixa de ser um local de permanência para se tornar um ponto de referência. 

Quando a gente consegue viver, mesmo tendo uma dúvida nunca respondida. 

Aquela: “Ei, me conte. Por que é que você não quis mais ficar?”




Quer escrever na Prensa?

Seja parte da nossa comunidade de Creators e contribua para uma internet melhor com artigos inteligentes, relevantes e humanos - que só você pode escrever.

Clique aqui para começar!


Topo