Televisão: lorotas, mentiras e videotape

Televisão: lorotas, mentiras e videotape

Que vergonha! | Imagem: Kraken Images/Unsplash

Na primeira metade dos anos 1980, a TV Manchete exibia nas noites de terça-feira a curiosa série Acredite se Quiser (Ripley 's Believe it or Not!).

Semanalmente, o ator Jack Palance nos confrontava com “o estranho, o bizarro, o inesperado”. O programa foi um dos maiores sucessos da história da emissora, chegando a ter um bloco nacional apresentado pelo veterano ator Walter Forster. 

Aproveitando a popularidade do programa, a Prefeitura de São Paulo chegou a produzir um comercial com o próprio Jack Palance, divulgando os feitos da administração da época.

Mas nosso assunto de hoje não é o Acredite se Quiser, mas sim histórias reais que aconteceram nas telas da tevê brasileira, merecendo a classificação “estranho, bizarro, inesperado”. Pequenos e grandes engodos dos quais a TV foi vítima, e ao mesmo tempo, algoz.

Acompanhe-nos nesta jornada através das profundezas da tela, dos corredores mal iluminados e das lanchonetes com salgadinhos de procedência duvidosa. Na tevê, nem tudo é o que parece ser. Acredite… se quiser!

A mãe da década

A grávida de Taubaté / Imagem: Folha de São Paulo

Nosso primeiro caso completou dez anos. Tanto os telespectadores quanto os produtores, diretores e repórteres foram vítimas.

Tudo começou quando Maria Verônica Santos, habitante da cidade de Taubaté, no Vale do Paraíba, SP, procurou ajuda do programa Hoje em Dia, da Record TV.

Grávida de gêmeas, precisava de toda a ajuda financeira possível. Não eram apenas gêmeas: eram quadrigêmeas. Quatro de uma vez! Já no período final da gravidez, sua aparência impressionava: era como se, sob o vestido, ela carregasse uma bola de pilates.

Chris Flores, na época uma das apresentadoras do programa, foi quem mais se sensibilizou. Hoje no comando do Fofocalizando, do SBT, relembra que conseguiu mobilizar muita gente a fim de obter doações de todo tipo para a jovem multi-grávida.

Com o caso, o Hoje em Dia atingiu uma visibilidade (e uma audiência) ainda maior. A Record TV mobilizou uma equipe para acompanhar o dia-a-dia da moça. O parto seria um espetáculo como poucos.

Então, como diriam naqueles programas do tipo Vídeos Mais Incríveis do Mundo, o pior aconteceu. A própria Chris Flores, desconfiada que alguma coisa errada não estava certa, pediu que um repórter fosse atrás de mais informações. Confrontando família, médicos e exames, a verdade veio à tona.

Maria Verônica nunca esteve grávida. Mesmo alguns exames que apresentou na tevê, eram forjados. Tudo não passou de um imenso embuste, e os bebês eram de fato uma bola de pilates sob o vestido!

Atualmente o caso pode até soar engraçado. Mas há dez anos, foi um tremendo baque para a credibilidade do jornalismo da Record. Coisa que poderia ser evitada com uma apuração mais atenta dos fatos.

Busquem conhecimento

Lá no fundo, bem escondido no meio do mato / Imagem: TV Bandeirantes

O pesquisador Urandir Fernandes de Oliveira (cujas iniciais não por acaso formam o acrônimo “UFO”) procurou a imprensa em 2009, alegando por “fontes seguras” que um contato extraterrestre seria feito com hora e local marcado, em Corguinho, localidade no Mato Grosso do Sul.

Nem todo mundo deu bola, mas alguns programas de bastante repercussão, como o Domingo Espetacular, da Record TV, o Conexão Repórter, do SBT e o CQC da Band (que queria mesmo era ver o circo pegar fogo) resolveram apostar na pauta inusitada.

Na comunidade ufológica, entre os que estudam o fenômeno em bases científicas, Urandir é um velho conhecido. Caso as emissoras houvessem feito a lição de casa, teriam evitado um tremendo gasto desnecessário e muito constrangimento.

Local e data marcados, lá estava a tal criatura. Cerca de 1,40cm de altura, sempre escondido no meio de um matagal, no escuro. Foi questionado a respeito de seu nome. Muita gente esperava algo como Ashtar Sheran ou pelo menos Zaphod Beeblebrox. A resposta foi um sucinto Bilu.

Pelo CQC, o repórter escalado foi Danilo Gentili. Já bastante desconfiado, o máximo que conseguiu foi meia dúzia de declarações confusas e desconexas da tal criatura.

Não por nada, já era bastante suspeito o fato de Urandir desaparecer misteriosamente nos momentos em que Bilu era convocado. Tipo Clark Kent e Super-Homem, deu pra entender?

Gentili continuou numa linha sarcástica. Cabrini não deu muita trela. Mas o Domingo Espetacular deitou e rolou.

Bilu teve tratamento de estrela, ou pelo menos de celebridades de segundo escalão. Vinte e um minutos de uma reportagem bastante sensacionalista, onde proferiu diversas mensagens bastante esotéricas, pregando compreensão e harmonia, entre elas a expressão se tornaria sinônimo de sua visita: busquem conhecimento.

Se os produtores das emissoras levassem o conselho a sério, descobriram que Urandir usou todo esse espetáculo para promover um empreendimento imobiliário-esotérico no local. Foi processado por isso.

Não significa que tenha se emendado. Recentemente, tenta emplacar uma comunidade alternativa “à prova de apocalipse” em um tipo de vila construída no local, um tal Projeto Zigurats. Lá não se acredita na Terra esférica, tampouco na Terra plana. O negócio é a Terra convexa. É planejada a construção de uma suntuosa pirâmide no local. Tá bom. Ah, e na vila há uma casa reservada para seu habitante mais ilustre: o ET Bilu.

Esperamos sinceramente que as pessoas tentadas por esta ideia sigam o seu conselho e busquem conhecimento, antes que seja tarde.

Da vida, nada se leva

A terra não há de comer / Imagem: Abril

Um Bentley é um carro que custa cerca de 230 mil dólares.

Você enterraria um automóvel destes no jardim de casa? Duvido muito. Mas foi o que o playboy profissional Chiquinho Scarpa resolveu fazer, em grande estilo.

Em 16 de setembro de 2013, ele publicou sua decisão no Facebook, convocando toda a imprensa para acompanhar a cerimônia.

A justificativa? Ele havia assistido um documentário sobre o antigo Egito, onde os faraós levavam para a tumba seus bens mais preciosos, a fim de ter “uma vida confortável do outro lado”.

Chiquinho Scarpa sempre foi um sujeito excêntrico. Mas desta vez iria se superar. Um prato cheio para imprensa, que compareceu em peso, na hora marcada.

20 de setembro de 2013. Repórteres e cinegrafistas se acotovelavam no quintal de sua mansão no bairro nobre dos Jardins, na capital paulista. Todos acompanhavam, atônitos, o Bentley descer à sua morada final. Scarpa enxugava lágrimas com um lencinho.

Foi então que o inesperado aconteceu! Música dramática, por favor!

Só faltou o Sérgio Mallandro surgir de dentro da cova, gritando “Ié, ié! Pegadinha do Mallandro”!

O conde (sim, Chiquinho tem um título de nobreza), interrompeu a cerimônia: “eu não sou louco. Não vou enterrar a minha Bentley. Fiz tudo isso para conscientizar as pessoas de um problema grave, que é a doação de órgãos no Brasil”.

Scarpa havia engendrado todo o esquema, buscando a Associação Brasileira de Doadores de Órgãos, que mesmo considerando a ideia insólita, topou na hora.

“Com tanta gente esperando por um transplante, você ser enterrado com seus órgãos saudáveis que poderiam salvar a vida de várias pessoas é o maior desperdício do mundo. Nada é mais valioso que uma vida”, completou Chiquinho Scarpa.

Foi uma pegadinha “do bem”. Mas muitos profissionais que lá estiveram, principalmente pelo deboche, saíram um tanto envergonhados.

Aliás, para ser doador de órgãos no Brasil basta manifestar sua vontade à família.

O impostor

O homem das muitas faces / Imagem: TV Bandeirantes

Há outros casos pitorescos, como a malfadada entrevista de Gugu Liberato com líderes do PCC, ou o médium Roberto Lemgruber. Mas vamos encerrar com um dos casos mais loucos da história da tevê, que até virou filme de sucesso. Com vocês, Henrique Constantino, herdeiro da companhia aérea Gol. Ou era quem ele dizia ser.

O ano era 2001. No tradicional carnaval fora de época da capital pernambucana, o Recifolia, o colunista de celebridades Amaury Jr. se pôs a entrevistar o rapaz, que estava num camarote vip, ladeado por artistas, empresários e políticos. A conversa engrenou, e ganhou mídia muito além de seu programa.

Não seria nada demais, não fosse o fato que este Henrique Constantino na verdade jamais existiu. Era Marcelo Nascimento da Rocha, o mais notório golpista que agiu no país nos anos 1990 e 2000.

Teve dezenas de identidades falsas, tendo se passado desde guitarrista da banda Engenheiros do Hawaii, até líder do Comando Vermelho!

Preso doze vezes (até o fechamento desta edição), a história de Marcelo foi contada em livros e no filme VIPs, onde foi interpretado por Wagner Moura.

Desde 2014, está em prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica, 24 horas por dia.

Ao menos é o que ele quer que você pense.

 


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