Passarinhos furiosos!

Passarinhos furiosos!

Uma ideia tosca transformou-se numa das franquias mais bem sucedidas da história do entretenimento.


 

Porcos roubam ovos. Passarinhos sem asas usam estilingues para atacar os porcos, usando o próprio corpo como munição. Uma ideia tosca, não? Mas é a sinopse de um jogo para dispositivos móveis criado na Finlândia no final da primeira década deste século. E quem não tenha ouvido falar, visto ou jogado alguma de suas versões, que atire o primeiro passarinho. Ou melhor, pedra. Senhoras e senhores, Angry Birds.

Uma ideia que veio do frio

Fruto da mente (e de muito trabalho insano) do desenvolvedor de games Jaako Iisalo, os passarinhos saíram da gaiola pela primeira vez em 11 de dezembro de 2009, direcionados originalmente para celulares Apple e Nokia.

O número de downloads nos primeiros meses na Finlândia não era exatamente animador. A Rovio (empresa de nosso amigo de nome difícil) investiu então em divulgação em outros mercados, como Dinamarca, Suécia, Grécia e República Tcheca. E então, como uma caixa de TNT atingida por um pássaro, Angry Birds explodiu e caiu no gosto do público, apesar de sua premissa aparentemente tola. Ou talvez por causa disso mesmo.

Milhões de downloads começaram a ser feitos em porco, digo, pouco tempo. A empresa lançou então versões para Android, Windows Phone (lembra dele?) e outros dispositivos móveis. Daí para tomar de assalto consoles de videogames e PCs, foi um pulo.

Faz sentido?

Mas qual o segredo por trás de Angry Birds? Por que arremessar aves contra estruturas complexas para aniquilar suínos verdes é tão divertido e profundamente viciante?

Considerando o habitat natural para onde foram desenvolvidos, Angry Birds são um escapismo mental fácil, com uma estrutura que desobriga o jogador a pensar muito. Um relaxamento mental para horas de estresse – seja no trabalho, estudo, ou na vida em geral – e é claro, um adorável meio de procrastinação. Sério. Desde o início deste texto já paramos três vezes.

Outra coisa a considerar é que Angry Birds fala diretamente a qualquer público, desde a criança em idade pré-escolar a idosos. É divertido mirar e jogar uma das aves, ou várias, nos desaforados porquinhos. Pode não pegar muito bem se você for um fiscal do Ibama, mas é isso mesmo.

Não que o jogo não peça uma certa dose de estratégia e cálculo. Digamos que é muito interessante praticar (sem perceber) noções básicas de planejamento, física, geometria, matemática e porque não dizer, balística. Um belo jeito de exercitar os miolos.

Um artigo recente na Get Social talvez tenha desvendado o maior segredo do jogo. Acima de tudo, Angry Birds é fácil de entender. A tal jogabilidade é pra lá de básica. Não há como errar: a lógica de jogo é sempre a mesma, passarinho - estilingue - porco. E isso é tudo.

Da tela do celular até a tela grande

Os limites do game logo se mostraram pequenos para os passarinhos enfezados: em 2013, chegavam à tevê em uma série de animação, mesclando diversos estilos gráficos e dividida em Angry Birds Toons e Bad Piggies Tales, além de Stella, um spin-off da primeira. As animações, exibidas no Brasil por canais pagos e também por streaming, são faladas exclusivamente no idioma dos porcos e dos pássaros, sem nenhuma palavra em qualquer idioma. Isso ajudou a derrubar muitas fronteiras mundo afora e conquistar um público ainda maior para a franquia.

Mas este não era o principal plano que estava por vir. Na mesma época, a Rovio apostava alto nos personagens, mirando a tela grande. Uma aposta arriscada, e muitos (como eu) torceram o nariz e acreditavam que dali não sairia um roteiro minimamente interessante. Mas qual uma ave bem atirada, o filme lançado em parceria com a Sony Pictures Animation acertou em cheio.

Angry Birds - O Filme é uma das ideias mais bem sacadas do cinema de animação dos últimos tempos. O roteiro se vale dos constantes problemas de Red (personagem principal do jogo) em lidar com – adivinhem – constantes acessos de raiva. Condenado a passar por uma terapia de reabilitação, ele acaba conhecendo outros pássaros problemáticos: o agitado Chuck e o instável Bomba.

Com a chegada dos porcos à ilha, capitaneados pelo Rei Leonardo, o estressado Red tem uma chance inusitada de provar seu valor. Pode parecer um tanto estranho, mas a história é bem costurada e tem momentos hilários. Como o jogo, diverte adultos e crianças.

O elenco original, encabeçado por Jason Sudeikis, Josh Gad e Danny McBride dá um show. Dois destaques da escalação: Sean Penn no papel menos que monossilábico de Terêncio, e Peter Dinklage (o eterno Tyrion Lannister, de Game of Thrones) dando uma interpretação grandiosa ao herói covarde Mega Águia.

A versão brasileira também foi acertada em escalar Marcelo Adnet como Red (você vai demorar para reconhecer), Fábio Porchat como Chuck (mais uma vez dublando o ator Josh Gad, como na franquia Frozen), Guilherme Briggs como Rei Leonardo, e de quebra Dani Calabresa como Matilda, numa interpretação que não deve nada à original de Maya Rudolph.

O filme traz explicações criativas para os famigerados estilingues e caixas de dinamite, entre outras. Se você é daqueles atento aos detalhes, fique de olho nos outdoors e demais anúncios que aparecem na Ilha dos Porcos. Há piadas ótimas escondidas ali.

Mais pássaros, mais longe

Em 2018 entrou em cartaz Angry Birds 2 - O Filme, com o mesmo elenco e apresentando alguns personagens novos. Desta vez, pássaros e porcos precisam se unir para enfrentar um inimigo comum – e inesperado.

O filme não foi tão bem em bilheteria, mas foi sucesso de crítica. Brinca muito com vários clichês cinematográficos e faz divertidas homenagens à franquias como James Bond e Missão: Impossível. Não, não há a famigerada cena com um personagem pendurado em cordinhas, antes que pergunte. Isto, Shrek 2 já fez com maestria.

Crescendo, porco a porco

Não é necessário dizer que no quesito games, os passarinhos raivosos não ficaram na primeira versão. Várias derivações do jogo original foram e continuam a ser lançados, assim como crossovers com outras franquias, como Rio (da extinta Blue Sky), Star Wars e mesmo Transformers.

Recentemente foram lançados jogos com exploração de ambientes por realidade aumentada, e a Rovio continua trabalhando em novos projetos.

Páginas e pássaros

Há alguns anos, nossos amigos emplumados e suas contrapartes suínas também ganharam histórias em quadrinhos de ótima qualidade. O traço tem um estilo nitidamente europeu (também pudera, são finlandeses!) que lembram o detalhamento gráfico de clássicos como Asterix e Tintim.

Angry Birds Quadrinhos teve nove edições no Brasil, publicadas entre 2014 e 2016 pela Editora Abril. Haviam algumas discrepâncias de tradução em relação aos filmes. Mega Águia (Mighty Eagle no original) surge nas páginas como Águia Enorme. Considerando que os quadrinhos foram lançados antes das produções cinematográficas, não se pode condenar.

Pisando em ovos, voando em seguida

Nem tudo são flores (ou porquinhos derrubados), entretanto. Não se sabe ao certo o número de downloads dos jogos atualmente. Em 2019, sem aviso prévio, a Rovio suspendeu o jogo e suas derivações de todas as lojas de aplicativos. A alegação é que a tecnologia dos celulares evolui muito rapidamente desde o lançamento, e cada atualização necessitava de uma adaptação dispendiosa. E isso trouxe muitas críticas negativas à empresa.

Em 2020, os jogos foram relançados, com seus códigos refeitos do zero, para facilitar atualizações. Retornaram rapidamente ao status de mais baixados em diversos sistemas operacionais. Mas uma coisa é sabida: em 2014, antes do boom de popularidade promovido pelos filmes, Angry Birds contava com mais de dois bilhões de downloads. Imagine agora.

Nada mal para quem começou com uma ideia aparentemente tosca. Afinal, que sentido tem em arremessar passarinhos contra porcos?

Foto: Melissa Burovic / Unsplash

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