A Pandemia e o Ambiente Rural

A Pandemia e o Ambiente Rural

No Agronegócio, as diferenças regionais, o tipo de produto e de produção, podem gerar prosperidade ou problemas. Os impactos da pandemia no ambiente rural são muitos e variáveis. Certas porções desse importante setor para a economia do Brasil cresceram e se beneficiaram da crescente demanda internacional, enquanto outras sentiram os efeitos do distanciamento social. Os consumidores ficaram impedidos de frequentar restaurantes e hotéis, além de mudarem seu consumo doméstico.


 

A Confederação nacional da Agricultura informou que o VBP - Valor Bruto da Produção da agropecuária deverá atingir R$ 1,1 trilhão este ano , o que é 15,8% maior se comparado a ano passado (R$ 987,12 bilhões) (19).

O quinhão agrícola do VBP em 2021 deve crescer 19,0%, atingindo R$ 759,25 bilhões, causado por uma boa expectativa da safra de grãos, que deve representar 51,4% na participação do VBP. Destaques para os aumentos reais dos preços da soja, milho, arroz e caroço de algodão, (25,5%, 23,6%, 8% e 28,7% respectivamente)(19) .

Na pecuária a carne bovina é destaque, com estimativa de crescimento de 18% do faturamento em toda a cadeia produtiva, em função tanto de aumento no preço (10,4%) quanto em incremento na produção (6,9%). Aves e pecuária de leite devem apresentar crescimento de aproximadamente 3%, suínos apresentarão crescimento um pouco menor de 1,4% (19).

Esse faturamento do setor agropecuário, que deve se consolidar como um dos maiores da história, acontece em cenário de incertezas de clima, com severa seca se apresentando, elevação de custos causada pela desvalorização do Real, e pouco dinheiro nas mãos do consumidor interno.

Além disso, existem os desconhecidos efeitos na Balança Comercial de uma ação vista internacionalmente como anti-ambiental, enquanto uma certa estagnação aparece no horizonte. Há também uma combinação pouco comum e perversa recuperação econômica de extremamente lenta e inflação se elevando (23).

Recessão e crise

Segundo um detalhado estudo publicado pela consultoria PWC (1), a crise econômica atual pode gerar uma recessão, reduzindo a renda da população. Isso cria problemas para quem trabalha com produtos como hortaliças e frutas, difíceis de estocar e que tem menor tempo de vida da colheita ao consumo.

Para as carnes, que podem ser resfriadas ou congeladas, o cenário é menos drástico, mas proteína animal é cara para uma grande parcela da população que sofre pressão pela crise com salários e empregos.

Para as commodities agrícolas, produtos que são diretamente afetados pelo câmbio (nesse caso positivamente), e demandas internacionais, o horizonte é diferente, pois podem ser armazenados e seu consumo não precisa ser imediato.

O estudo levou em conta os dados do CEPEA (2) Markestrat (3) INSPER (4) e Aqua Capital (5), e aponta que a redução de circulação de veículos afetou negativamente o mercado de Etanol, além de impactar os produtores de algodão pelo reposicionamento da Indústria Têxtil.

A indústria de frutas cítricas viu seus produtos serem valorizados, bem como a do café, trigo e soja, mas podem sofrer com um aumento da inflação no mercado interno. Enquanto os deslizes diplomáticos de Brasília não afetarem a Balança Comercial , o mercado consumidor internacional poderá sustentar bons preços.

A doença e o território

Com cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados de superfície terrestre ou 47% do território sul-americano e mais de 210 milhões de habitantes, o Brasil tem a quinta maior área territorial do planeta e o sexto maior contingente populacional do mundo. São pelo menos quatro regiões com grandes diferenças climáticas e de vegetação, e nelas as variações de densidade populacional acompanham a história da ocupação do território e da evolução da infraestrura de transportes das áreas litorâneas para o interior.

Nas capitais dos Estados, Territórios e Distrito Federal, abrigam-se mais de 50 milhões de pessoas, onde estão 326 municípios com população maior do que cem mil habitantes. Ou seja, mais de 85% da população brasileira vive em áreas urbanas, cerca de 180 milhões de pessoas (16).

Por essa razão, é compreensível que as estatísticas ligadas à pandemia da COVID-19 se concentrem em tais áreas, e também pela dificuldade das notificações apontarem para locais que não sejam centros regionais, onde se encontra a infraestrutura de saúde a que se recorre em casos de infecção.

As diferenças entre as regiões brasileiras não podem ser relevadas, já que no Norte e no Nordeste a fome alcançou 12% dos domicílios rurais, contra 8,5% na área urbana, entre os meses de setembro, outubro e novembro de 2020, conforme relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) (6).

Avanço da Fome

Rosana Salles Costa, pesquisadora da Rede e professora do Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma ser preocupante o avanço da fome em algumas das zonas rurais (7).  

Um artigo de Yuna Fontoura, Professora da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, destaca o momento de grave crise sanitária, econômica e política e aponta uma crise de fome que atinge quase 117 milhões de brasileiros, que não possuem acesso pleno e permanente a alimentos, e desses, mais de 43 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente, sendo que desses, cerca de 19 milhões (9% da população) passam fome (estado de insegurança alimentar grave) (18).

Hoje, num país líder mundial na produção de comida, 39,9 milhões de brasileiros vivendo com renda per capita de até R$ 89 por mês, segundo o Ministério da Cidadania, e estão inscritas no CadÚnico (Cadastro Único para programas sociais do governo federal) (17).

As áreas rurais são menos densamente populadas, especialmente as que se dedicam à produção das commodities agrícolas, carnes, soja, milho, trigo, café e outras, já que contam com a possibilidade de menor uso de mão de obra por hectare, além de mecanização e automação de alguns processos. A Agricultura Familiar, a produção de leite e derivados, a Horticultura e a Fruticultura, demandam maior volume de mão de obra por unidade de área, mas, ainda assim, não é muito difícil implementar processos de Distanciamento Social e de prevenção contra o vírus, para aqueles que tem acesso à informação de boa qualidade e são atingidos por campanhas de saúde pública bem estruturados.

Escoamento de produção

Os dados demográficos podem ser obtidos no site do IBGE e o estudo apontando as dificuldades para o setor é esmiuçado no paper ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO DOS EFEITOS DA PANDEMIA NA AGRICULTURA FAMILIAR, escrito por Raquel Breitenbach do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (8).

Ela aborda os gargalos para o escoamento da produção e manutenção da remuneração dos pequenos produtores, além da possibilidade de desabastecimento de bens de primeira necessidade e os impactos sócio culturais e econômicos decorrentes da pandemia. As mudanças nos hábitos de consumo afetaram também os setores de embalagens e de processamento de resíduos nas cidades, mas isso é assunto para outro artigo.

Melhorias no horizonte

Ainda houve o fator positivo gerado pelo acesso digital das comunidades agrícolas, que passaram a dispor de um meio de comunicação eficiente e rápido já que pela primeira vez, mais da metade da área rural do país tem acesso à Internet (9).

E embora ainda precisemos de maior cobertura digital no Brasil, esse incremento de acesso digital gerou um grande avanço, já que em 2017, das 5 milhões de propriedades rurais brasileiras, 72% (3,64 milhões) não tinham acesso à internet na propriedade, e falar com o consumidor final pode ser a chave para reduzir custos e garantir vendas, fidelizando consumidores.

A EMBRAPA apontou que entre os entraves para adoção de novas tecnologias no agronegócio estão o custo do investimento em ferramentas digitais, aquisição de equipamentos e aplicativos, e a qualidade de conexão na área rural. A deficiência na infraestrutura de conectividade nas áreas rurais é apontada como principal obstáculo por 61,4% dos que participaram da pesquisa (10), mas o cenário pode mudar para melhor, tanto para os produtores como para os consumidores com a chegada do 5G (11).

Mesmo assim, não é possível esquecer o que a FIOCRUZ apontava no ano passado, que caso se instalassem em áreas longínquas e naturalmente isoladas os efeitos da pandemia poderiam ser devastadores, também pela concentração de hospitais e centros de vacinação nos centros urbanos (12), fato que se revelou perversamente verdadeiro para as comunidades indígenas, por exemplo.

O SEBRAE produziu um bom material sobre o comportamento dos produtores e fornecedores de serviços nas áreas rurais hoje (13), porém, a UNICEF alerta para um problema futuro gerado pela Pandemia: a queda da qualidade e quantidade da educação infantil daqueles que serão os operadores desse novo Agronegócio digital (14).

Atualmente, a Frente Parlamentar da Agropecuária discute o Plano Nacional de Logística 2035 (15) para o planejamento integrado de transportes no Brasil. O setor do Agronegócio aguarda que, juntamente com a implementação da rede 5G, as áreas rurais passem a ter mais recursos tecnológicos para saúde, educação e informação.

O relatório de Maio do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, intitulado  MORTALIDADE POR COVID-19 E QUEDA DO EMPREGO NO BRASIL E NO MUNDO (20), busca situar a intensidade relativa de danos causados pela covid-19 no Brasil em um contexto global, comparando indicadores, apontando suas limitações e virtudes.

Saldo da Pandemia

O Brasil registrou proporcionalmente mais mortes por covid-19 em 2020 do que 89,3% dos outros 178 países que tiveram seus dados analisados pela Organização Mundial de Saúde - OMS. O resultado brasileiro piora em relação aos mesmos países quando se ajusta os dados por faixa etária e sexo, tornando o Brasil pior que 94,9% dos mesmos  países.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho - OIT, o Brasil registrou queda mais intensa do que as de 84,1% dos demais 63 países analisados entre os três últimos trimestres de 2019 e de 2020. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, os números do quarto trimestre de 2020 apontam para 1,9 milhões de desempregados, quase 6 milhões de desalentados e mais de 28% de subutilização (21). O mesmo instituto estimou o número atual de desempregados em14,4 milhões no trimestre encerrado em fevereiro na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua, divulgada em 30 de Abril (22).

A pandemia ainda não deixou toda a sua marca no Brasil, e aparentemente os efeitos serão menos danosos no meio agropecuário. É o setor que teve, nas últimas décadas, o maior crescimento tecnológico entre todos os da economia brasileira. Porém, como apontado, ainda há problemas, e embora identificar falhas e necessidades nos ajude a enxergar um caminho, as tendências e oportunidades ainda estão envoltas em uma névoa de incertezas. 

Será fundamental investir em infraestrutura, na educação e saúde das novas gerações, que tem a missão de alimentar o Brasil e o mundo nas próximas décadas, com forte foco na sustentabilidade social, econômica e ambiental. O Brasil tem todas as condições para isso.


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