Os 8 Desafios das Fintechs no Brasil em 2023

Os 8 Desafios das Fintechs no Brasil em 2023

Primeiramente, quem sou eu:

Prazer, meu nome é Victor Duek.

Sou pai da Maria Luísa, tenho (até o momento desta publicação) 34 anos, moro no interior de SP (desde a pandemia da Covid), me formei em Administração de Empresas pela Fecap e inicío em 2023 meu MBA em Inovação e Empreendedorismo pela USP.

Estou há 9 anos no mercado financeiro, me especializando no mercado de pagamentos digitais, subadquirentes, cartões e por consequência o BaaS. Tenho passagem por empresas como Rede, PayU, Adiq, Livelo, Zoop e Banco Topázio. Atualmente faço parte do time de Banking as a Service no Banco Itaú BBA.

Victor Duek, especialista no mercado de Banking as a Service.
Victor Duek, especialista do mercado de pagamentos e Banking as a Service

O ano é 2023

Estivemos em um turbilhão de emoções no ano de 2022, com evoluções no mercado financeiro devido à atuação do Banco Central (Pix, Open Finance, Regulatório, Cripto, Câmbio, Real Digital), fusões e aquisições de companhias, muitas novas tendências e comportamentos de consumo em tão pouco tempo sendo definidos, Dólar batendo valor do Euro e, na outra ponta de atenção, demissões em massa (empresas Techs e não Techs), o cenário político polarizado, incertezas econômicas, guerra entre Ucrânia e Rússia e suas consequências, mercado cripto em queda livre...

Segundo levantamentos, o valor de mercado das fintechs caiu acima dos US$42bi durante o ano (fonte: Valor Econômico; dez/22), reflexo de um contexto diferente daquele de captação, onde havia um grande interesse de disruptar o mercado bancário e financeiro para empresas mais techs. Com proposta de valor nichada, com alta excessiva expectativa de receita, e pelo contexto geral de mercado e frustrada a tensão, as ações das empresas listadas perderam atratividade - tal como o PagSeguro, com queda acima de 60%, e o Nubank com queda superior a 55%, apenas 1 ano após seu IPO. 

Mesmo assim, não há sinal de desespero propriamente dito, mas sim uma mudança de mindset dos investidores. A mesma Nubank vem expandindo os negócios para outros países, portanto, assim como a queda das ações podem ser vista pelo pessimista como o copo meio vazio, para o otimista (e até o cauteloso), pode ser uma oportunidade de comprar (ou aguardar um nova queda, não sabemos). 


Os desafios:

1 - Captable e Valuation das Fintechs

Aqui vai um conjunto de fatores:

A recessão nos EUA - novas quedas dos preços das ações listadas não estão descartadas para as Fintechs nesse ano de 2023. Com menos investimento, as fintechs precisarão colocar à prova seus modelos de negócio, expansão e receita, principalmente. É necessário ser inovador e, ao mesmo tempo, ser mais realista. Cortes de pessoas não são descartados, por mais que tenhamos visto algumas empresas com demissões em massa já em 2022.

Estratégia e Receitas abaixo do esperado - Provou-se que uma grande maioria projetava receitas em seus Business Plan muito acima do que estaria ao seu alcance. Com o mercado borbulhando por investidores, fintechs dos mais variados segmentos e estratégias conseguiram aportes milionários e que, em rodadas de captação posteriores, não conseguiram repetir o sucesso. 

Governo - Com mudanças no campo econômico, desvalorização da moeda, aumento da dívida, juros mais altos e o investidor mais cauteloso e cético, aconteceu o afastamento de aportes e/ou diminuição de ritmo, dando preferência para alocar o dinheiro em outros investimentos até que a nuvem de incertezas passe.

Possível bolha? - Alguns atuantes no mercado entendem que estamos em uma bolha prestes a estourar. O investidor pode entender que uma nova Fintech seria apenas mais uma..

Portanto, aqui, o desafio é garantir que seu modelo de negócios seja, ao mesmo passo que rentável e escalável, sustentável e alinhado com as pautas da ODS, e que estejam de olho ou estejam aderentes ao ESG. 

2 - Incertezas Políticas 

É um efeito dominó. Não dá para se negar que uma incerteza no campo da política gera desconfiança no consumidor e afasta investidores. Não importa o lado da política que esteja aderente, em uma mudança de governo sempre surgem dúvidas a serem discutidas e que necessitam, também, de adaptação das mais diversas áreas como contábil, financeira, RH, comercial, compliance, riscos, entre outras. 

No campo das Fintechs não é diferente e toma-se uma proporção e importância ainda maior, ainda mais por tantas transformações que as empresas tiveram que enfrentar. Acompanhar o ritmo político e estar aderente a essas mudanças requer atenção, tempo e resiliência para possíveis mudanças de rotas e planejamento estratégico.

3 - Novas receitas

As Fintechs possuem estratégias fiéis aos seus propósitos e modelos de negócios e, ao passo que evoluem e ganham novos adeptos, seus clientes requerem mais produtos e serviços para manterem seus serviços ativos, sejam eles na contratação de crédito, pagamentos, abertura de contas, conciliações, etc. 

Porém, a partir do momento que a tendência é criar grandes laços com seus clientes, a missão de trazer novas receitas para dentro de caixa é essencial para manter a operação em pé, até mesmo arriscando o modelo original de negócios, nem sempre do jeito mais óbvio e com produtos/serviços que a maior parte dos seus concorrentes já implementaram. Escutar o cliente é essencial e ter ferramentas para mensurar o que melhor teria sentido para sua base poderá resultar em um diferencial competitivo e novas receitas, seja via parcerias ou por soluções proprietárias. 

4 - Crédito

O Credit-as-a-Service foi a bola da vez em 2022 nas estratégias das Fintechs para o incremento de receitas. A procura por serviços personalizados de créditos para os clientes já era pauta há alguns anos,  porém a indústria se modernizou, permitindo que demais Fintechs pudessem adicionar o crédito nas suas jornadas e oferecer aos seus clientes.

A grande questão é que o acesso a funding ficará cada vez mais difícil, dado o cenário econômico de juros altos, baixo retorno financeiro, índices de inadimplência alarmantes com mais de 69 milhões de brasileiros nesta linha e mais de 6,3 milhões de empresas com dívidas atrasadas, ou mais de 30% do total (fonte: dados do Serasa).

5 - Regulatório

O Banco Central foi e é um grande aliado, na minha visão, das Fintechs.

Com tamanhas mudanças em tão pouco tempo e adaptações que estas precisarão adequar, é um desafio para o mercado acompanhar de perto as resoluções e normativas. A título de curiosidade, apenas no PIX, foram mais de 20 normativas diferentes ao longo de 2022, com 4 ou mais resoluções (para buscar normas direto da fonte do BC: https://abrir.link/WLSi0). 

Portanto, algo que falo sempre às Instituições de Pagamentos, ITP's e demais, é que tenham sempre uma assessoria jurídica especializada nesse mercado, pois são grandes aliados inclusive no modelo de negócio atuante.

Ser um desafio, aqui, também é uma grande oportunidade. A cada nova normativa e resolução, nascem novos produtos e serviços. Vale estar atento para atender às dores de mercado.

6 - Tecnologia

Acompanho diariamente o mercado de fintechs tendo dificuldades em tecnologia, principalmente relacionado a provedores de soluções em Banking as a Service.

Esse mercado está pulverizado em provedores de Infraestrutura, provedores de soluções financeiras e enablers (facilitadores, regulados pelo BC ou não, e com custos mais reduzidos e tempo menor de integração, porém com limitações no modelo de negócios e menor possibilidade de customização/adaptação de serviços).

Justamente pela expansão do modelo BaaS, a maior parte dos players atuantes e provedores de soluções tenta acompanhar esse ritmo, seja pelas novas regras e/ou até mesmo ferramentas de onboarding e KYC, forçando que tenham adaptações que as áreas de tecnologia e produtos precisam estar aderentes e de mãos dadas com as áreas de compliance, riscos e segurança na implantação de soluções, o que pode acarretar em instabilidades.

Portanto, aqui, a mensagem é clara: o desafio em tecnologia é não se basear apenas no que fez no passado e, muito menos, economizar em Cloud Services (naquelas fintechs baseadas em Cloud, claro - o que deve ser 99,99% dos casos). As fintechs, principalmente, têm uma missão de integrar soluções aderentes ao mercado, como as ferramentas de Open Finance e, no seu backoffice, a segurança tecnológica necessária para que o seu cliente tenha a melhor e mais segura experiência, criando o ambiente para que prevaleça a escolha dele pela plataforma.

7 - Compliance, Risco e Segurança Cibernética

Os sistemas vitais de uma Fintech.

Se, antes, eram enxergadas apenas como requerimento que o BC impunha às instituições de pagamentos (e derivadas) e SCD's, essas ferramentas se tornaram aliadas e grandes diferenciais do modelo de negócios, principalmente nas questões transacionais (PIX, pagamentos de contas, câmbio) e onboarding de clientes (políticas de KYC/KYP). 

A equação é simples: quanto maior a segurança, menor o prejuízo.

A título de curiosidade:

- Só no primeiro semestre de 2022 foram registrados 3,62 tentativas de fraudes digitais por minuto (em sua ampla maioria em serviços financeiros), evitando prejuízos de cerca de R$761MM em mais de 132MM de transações monitoradas (fonte: Pesquisa via Plataforma AllowMe).

- No PIX, desde o começo da operação em outubro de 2022, foram mais de 700 mil chaves expostas. Em 2022, por exemplo, a plataforma de pagamentos e BaaS, Logbank, e o aplicativo Abastece.aí foram grandes alvos.

A questão aqui é que Compliance/Riscos/Segurança são serviços extremamente estratégicos e que as Fintechs precisam investir em pessoas e ferramentas para colocar nas pautas internas do jurídico ao comercial.

8 - Retenção de talentos e demissões

Por último, mas não menos importante, a questão de Pessoas; o coração, mente e alma de uma Fintech.

No ano de 2022, acompanhamos diversas companhias de tecnologia (e de não tecnologia) em ondas de layoffs (demissões) no mundo todo, com mais de 150 mil cortes durante o ano. Só no setor financeiro de tecnologia, o aumento foi de 46% de demissões entre 2020 e 2022 (fonte: Valor Econômico; jan/23) e cerca de 79% dos funcionários se realocaram em até 3 meses (Fonte: ZipRecruiter).

Infelizmente, é um passo pelo qual todas as empresas passam, ou vão passar, algum dia, e o grande desafio aqui não é apenas melhor tratar a demissão mas, também, a retenção dos melhores e mais raros talentos. Ao passo das demissões das empresas de tecnologia, os profissionais que se destacam acabam sendo procurados por outras companhias, seja por questões salariais, melhor ambiente de trabalho, flexibilidade de horários/local e até mudança de país.

 

Estas foram algumas das percepções de desafios que teremos ao longo deste ano de 2023, sempre escutando muito o cliente, o mercado e atento aos cenários relacionados, que impactam e influenciam.

Aos passos de desafios, existem oportunidades, sempre. Ao menos é esta a minha mente otimista.

 

Caso tenham elogios, críticas e/ou demais pontos de vista, compartilhem comigo. Vamos aumentar esse alcance e as boas práticas!

Agradeço por ter me acompanhado até aqui.

Demais conteúdos podem ser acessados no meu Linkedin, clique aqui.


Quer escrever na Prensa?

Seja parte da nossa comunidade de Creators e contribua para uma internet melhor com artigos inteligentes, relevantes e humanos - que só você pode escrever.

Clique aqui para começar!


Topo