Entenda por que Frances Haugen denunciou o Facebook

Entenda por que Frances Haugen denunciou o Facebook

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook. Imagem: Josh Edelson/AFP

Facebook está no centro de mais uma polêmica. 

Uma série de documentos vazados por Frances Haugen, ex-funcionária da empresa, ao Wall Street Journal, mostram que o Facebook priorizou o lucro em detrimento à segurança e bem-estar dos usuários de suas redes sociais. 

Entenda o caso. 

Frances Haugen, de 37 anos, é uma "especialista em gerenciamento algorítmico de produtos", de acordo com seu site pessoal. Com 15 anos de carreia, ela já passou por importantes empresas de tecnologia e redes sociais, como Pinterest e Google. 

Frances começou a trabalhar com o Facebook em 2019 como Gerente de Produto, e liderava a equipe de desinformação cívica. Ela explica que “lidava com questões relacionadas à democracia e desinformação”, além de lidar com questões de contraespionagem. 

Ela decidiu abandonar seu cargo em maio deste ano, após se sentir cada vez mais preocupada com as condutas da empresa. Mas, antes de sair, ela levou consigo documentos que pudessem provar as suas eventuais alegações contra o Facebook. 

Os documentos foram entregues ao Wall Street Journal, que liberou o conteúdo ao longo das últimas semanas. Frances revelou sua identidade no dia 03 de outubro, em uma entrevista ao programa ”60 Minutes” da rede americana CBS, onde comentou mais sobre o assunto. 

Scott Pelley entrevistou Frances para o programa '60 Minutes' da CBS. Imagem: Reuters 

Quais foram as acusações

"O Facebook percebeu que se mudar o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas vão passar menos tempo no site, vão clicar em menos anúncios, e eles vão ganhar menos dinheiro." disse Haugen. 

O Wall Street Journal apresentou em slides que 32% das adolescentes entrevistadas em uma pesquisa interna feita para o Facebook disseram que o Instagram (rede social da empresa) piorava a percepção negativa em relação aos seus corpos. 

A pesquisa mostrou que o Instagram sabia do impacto ruim que tem na saúde mental dos seus usuários, mas não compartilhou essas descobertas, nem se esforçou para tornar a rede social em um lugar menos tóxico para os jovens. 

Haugen prestou depoimento no dia 05 de outubro ao senado americano em uma audiência intitulada "Protegendo Crianças Online", abordando especificamente essas questões. 

Ela comparou os perigos da falta de regulamentação do Facebook aos danos que empresas de tabaco causaram na sociedade ao não revelar que fumar faz mal à saúde. 

"Quando percebemos que as empresas de tabaco estavam escondendo os danos que causavam, o governo tomou uma atitude. Quando descobrimos que os carros eram mais seguros com cintos de segurança, o governo tomou uma atitude. Eu imploro que vocês façam o mesmo aqui." disse aos parlamentares. 

Frances Haugen durante seu depoimento no Senado norte-americano. Imagem: Reuters

Ela continuou afirmando que há um conflito de interesses entre o que é bom para o Facebook, em termos de lucro, e o que é bom para os usuários. 

"A liderança da empresa conhece maneiras de tornar o Facebook e o Instagram mais seguros, e não fará as mudanças necessárias porque colocou seus lucros imensos antes das pessoas. É necessária uma ação do Congresso.", pontuou. 

Frances ainda mencionou a invasão do Capitólio por apoiadores do ex-presidente Donald Trump em janeiro deste ano, que resultou na morte de cinco pessoas. Segundo ela, o Facebook ajudou a fomentar a violência. 

Ela diz o Facebook ativou apenas temporariamente os sistemas de segurança para reduzir a desinformação, durante as eleições nos Estados Unidos. 

"Assim que a eleição acabou, eles desativaram ou mudaram as configurações para o que era antes, para priorizar o crescimento em vez da segurança, e isso realmente parece uma traição à democracia."  

Já no lado do Facebook, Lena Pietsch, diretora de políticas de comunicação do Facebook, negou as acusações dizendo que a empresa investiu quantias significativas em segurança das suas redes sociais. 

"Dizer que fechamos os olhos para o feedback ignora esses investimentos, incluindo as 40 mil pessoas que trabalham na área de segurança e proteção no Facebook e nosso investimento de US$ 13 bilhões desde 2016", afirmou. 

Entre outras acusações, os documentos mostraram que as políticas de moderação do Facebook não eram aplicadas de forma igualitária para todos os usuários. Celebridades, políticos e usuários de grande visibilidade recebiam um tratamento diferenciado pela rede social. 

Frances Haugen não foi a única 

Antes de Frances, outro ex-funcionário do Facebook fez revelações sobre más práticas da empresa.  

Brian Waismeyer, que também trabalhava no time de integridade da rede social, falou em uma publicação de despedida da empresa que trabalhou mais de um ano em um projeto que viabilizava denúncias de vítimas de “revenge porn”, ou pornografia de vingança, em postagens.  

Mas o projeto foi encerrado subitamente durante uma reorganização interna, o que incomodou a ele e toda equipe. Para Brian, a rede social se tornou um lugar “excepcionalmente difícil” para o trabalho de pessoas, como ele, que é focado no crescimento da empresa. 

Outro funcionário, que decidiu permanecer anônimo, disse que as equipes constantemente encontravam barreiras internas ao tentar resolver sérios problemas da rede social, como grupos fechados do Facebook com conteúdo de ódio. 

"Eles [o Facebook] estavam apenas zero por cento interessados", disse. 

Na época, Zuckerberg se defendeu em uma publicação, dizendo que "nós ganhamos dinheiro através de publicidade, e os anunciantes têm dito de forma constante que não querem seus anúncios próximos de conteúdos ruins ou raivosos"

"Enquanto o Facebook estiver operando no escuro, não prestará contas a ninguém. E continuará a fazer escolhas que vão contra o bem comum.", conclui Frances. 

O que o Facebook pretende fazer agora? 

Em meio ao cenário de tensão, o Comitê de Supervisão do Facebook convidou Frances Haugen para uma reunião. De acordo com o comunicado divulgado hoje (11/10), o grupo deve se encontrar com a ex-funcionária “em algum momento nas próximas semanas”.  

O comitê disse que “aprecia a chance de discutir as experiências da senhora Haugen e coletar informações que possam exigir maior transparência e responsabilidade ao Facebook por meio de nossas decisões e recomendações.”

Mas Haugen se manteve firme nas suas acusações e comentou pela sua conta no Twitter que o Facebook “mentiu repetidamente” e que ela está “ansiosa para compartilhar a verdade” com o comitê. 

Até então, o Facebook não se posicionou oficialmente sobre o encontro entre as duas partes, tampouco assumiu as práticas problemáticas reveladas por Haugen. Resta aguardar como a empresa vai sair dessa crise e o que fará para reverter os danos.

 


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