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Watergate - O jornalismo lutando pela democracia

Watergate - O jornalismo lutando pela democracia

Muito se fala sobre a importância do jornalismo para um país. A profissão é uma das arestas para manter a democracia na mão da população. Investigar, checar, entrevistar, escrever, revisar e publicar, todas essas etapas fazem parte do processo de produção de uma notícia. 

No jornalismo, um acontecimento precisa ter características específicas para ser considerado uma notícia. Esses aspectos que os jornalistas procuram nos fatos são chamados de critérios de noticiabilidade. A identificação dos critérios de noticiabilidade é parte fundamental da construção da notícia 

Mauro Wolf, sociólogo e autor do livro Teorias da Comunicação afirma que o objetivo dos veículos de comunicação é bem óbvio: fornecer relatos de fatos importantes e interessantes.  

Entretanto, com a grande quantidade de acontecimentos diários na vida cotidiana, fica difícil filtrar e selecionar o que de fato é relevante e carrega significado para a população. Por isso que os veículos de informação utilizam o critério de noticiabilidade. 

Seguindo esses critérios, é possível que a notícia publicada alcance a maior parte dos leitores ou espectadores. Um dos casos de mais relevância e exemplo até hoje para o jornalismo é o Escândalo de Watergate publicado pelo jornal The Washington Post em 1972. 

(O acontecimento foi tão relevante que se tornou filme em 1976. Clique aqui para ler mais sobre Todos os Homens do Presidente!) 

O caso Watergate foi um escândalo que envolveu o presidente norte-americano Richard Nixon, do Partido Republicano, na década de 1970. O início da história começa em junho de 1972 quando cinco homens foram presos tentando invadir o comitê do Partido Democrata no edifício Watergate. 

Durante a investigação ficou comprovado que pessoas próximas ao então presidente conduziram um esquema de escutas ilegais que foram implantadas na sede democrata, e esse foi somente o início da investigação que expôs os crimes realizados por Nixon.  

Além da comprovação do envolvimento com a escuta no edifício Watergate, foi revelado que Nixon fez um "caixa dois" de campanha para financiar operações de espionagem dos democratas, e que ele também gravava todas as reuniões realizadas no Salão Oval da Casa Branca sem avisar ninguém. 

Apesar de outros jornais americanos publicarem o ocorrido, o caso só ganhou repercussão pelo trabalho investigativo conduzido por dois jornalistas do The Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward.  

O escândalo que se iniciou em Watergate fez com que Nixon renunciasse à presidência em agosto de 1974. O caso foi solucionado pela polícia americana, mas boa parte dos créditos vão aos jornalistas e seu senso de investigação. 

O The Washington Post poderia ter feito uma simples publicação sobre a invasão, entretanto, o olhar apurado de Bernstein e Woodward foi além. A dupla descobriu que um dos invasores tinha o nome na folha de pagamento do comitê da reeleição de Nixon, e a partir daí eles “seguiram o dinheiro”. 

A investigação conduzida pela dupla perdurou por quase dois anos entre diversas entrevistas, viagens, checagem de fatos e publicações recorrentes do então possível envolvimento de Richard Nixon.  

Os jornalistas contaram com a participação de uma fonte anônima, apelidada de Garganta Profunda, que confirmava ou negava as informações apuradas por Woodward e Bernstein. Em 2005, a identidade do informante foi revelada: William Mark Felt, vice-presidente do FBI na época. 

Watergate é de extrema relevância no âmbito social. O caso é emblemático porque demonstra com clareza a importância da imprensa em regimes democráticos e na resistência aos autoritarismos. Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt entendem que Nixon nunca foi adepto as normas de uma democracia. 

Os estudiosos apontam também que o ex-presidente enxergava seus opositores políticos e a imprensa como inimigos. Seu envolvimento em Watergate foi a ponta do iceberg das ações ilegais dentro de sua administração. E hoje, Nixon é lembrado por grande parte da sociedade estadunidense como um símbolo de corrupção.  

Na mesma época em que a imprensa norte-americana tinha liberdade para trabalhar, investigar e pôde contribuir para a política do país, o Brasil vivia a abertura lenta e gradual inaugurada pelo governo de Ernesto Geisel, que começou a remover a prática da censura com o início da redemocratização, em de 1974.  

Durante o regime militar brasileiro, que perdurou entre 1964 e 1985, a censura e repressão à liberdade de expressão se tornou mais ativa a partir da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) promovida pelo então presidente Costa e Silva em dezembro de 1968. 

Hoje, no século XXI com internet, redes sociais a todo vapor e liberdade de expressão - mesmo constantemente sendo ameaçada - o jornalista conta com um maior apoio para continuar seu trabalho. A tecnologia trouxe benefícios para imprensa como formas de alcançar fontes confiáveis, checagem de informações, edição de conteúdos e, principalmente, a disseminação da notícia.  

Em contrapartida, ao passo que as informações chegam aos lugares mais remotos do mundo em poucos segundos, um único erro jornalístico ou uma informação publicada por qualquer pessoa com má intenção pode destruir a credibilidade da imprensa. As fakes news são o maior exemplo atual da desinformação. 

A imprensa Brasileira pode não ter sido a protagonista em uma situação similar ao caso Watergate, entretanto, ela esteve presente em momentos decisivos como cobertura de eleições, os impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff, embora, em cada um deles, as ações da imprensa como um todo tenham desagradado ou a gregos ou a troianos. 

O ponto aqui é que para o momento atual, Watergate é um dos exemplos de como exercer o jornalismo em prol da população. Apesar do status profissional dos jornalistas ser constantemente questionado, com idas e vindas sobre a legislação que regula a profissão, figuras públicas questionando a credibilidade do setor inteiro como arma política e um desvirtuamento das informações on-line, não podemos deixar de acreditar que a profissão é sinônimo de democracia. 

Watergate é um exemplo do jornalismo real. Veja bem, dois jornalistas expuseram um esquema de corrupção liderado pelo homem mais forte do mundo em plena Guerra Fria e Guerra do Vietnã.  

Sem sombra de dúvidas Bernstein e Woodward devem ser aclamados e serem objetos de estudo no exercício do jornalismo e sua força para a democracia. 

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