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Watch Dogs - a saga dos hackers amigos da vizinhança

Watch Dogs - a saga dos hackers amigos da vizinhança

A Ubisoft, com mais uma de suas ideias de mundo aberto, nos coloca no papel de hackers que podem ajudar pessoas ou criar o mais puro caos nas cidades virtuais. Como os games retratam estes que são protagonistas de tantas histórias perigosas do mundo real?


 

A ideia central de um videogame é transportar você para um mundo diferente, te colocar num papel único e numa jornada fantástica. Num universo onde você, pela pura natureza do que são os games, é capaz de mais

Games são fantasias de poder por excelência. Contam histórias num formato onde o jogador se vê inserido na trama (com níveis muito inconstantes de sucesso no quesito). Quase sempre o chamariz de um jogo é uma capacidade, um poder, uma habilidade que humanos normais não possuem (mas encanadores bigodudos sim).

Depois de muito tempo com poderes como “voar”, “bolas de fogo” e “superforça”, os poderes de certos jogos recentes ficaram menos performáticos e mais moralmente ambíguos. O superpoder de muitos personagens da série Grand Theft Auto, afinal, é… Serem psicopatas…?

Mas… E os poderes daquele pessoal que manipula códigos, máquinas, programação e informação, tudo a partir de um teclado, uma tela e uma aura de mistério? Aqueles que usam, pelo menos na ficção, o mundo digital como se fossem Robin Hoods modernos: os hackers 

Tentando manter um pé (só um pezinho) na realidade, a Ubisoft deu vazão a outro tipo de fantasia de poder quando criou Watch Dogs. Queria colocar o jogador numa versão virtual de cidades reais, mas com habilidades de comandar a tecnologia e infraestrutura à sua volta para buscar justiça, caos e diversão.

O primeiro jogo da trilogia fez barulho com o trailer que estreou na E3 de 2012. Todos se impressionaram com o nível gráfico apresentado, e com a nova perspectiva de um “guerreiro virtual no mundo real”.

O personagem principal é capaz de manipular os faróis de trânsito, por exemplo, para criar uma distração ou impedir um inimigo de fugir. Mais do que isso, pode checar a informação pessoal de qualquer pessoa à vista, através de seus celulares.

O jogo foi lançado em 2013 e traz como protagonista Aiden Pierce, um hacker envolvido numa rede de traição, vingança e altos riscos. Ele quer vingar a morte de sua sobrinha, ao mesmo tempo que deseja derrubar uma gigante da tecnologia, responsável por implantar um sistema de vigilância e infraestrutura na cidade de Chicago. 

Watch Dogs foi bem recebido pela crítica, que aplaudiu as mecânicas inovadoras e o combate. Mas ninguém ficou exatamente apaixonado pelo perfil “ranzinza urbano” de Aiden Pierce, comparável ao sempre soturno Liam Neeson em algum de seus filmes de ação.

Aiden Pierce. Um homem zangado. (Imagem / Divulgação)

Em 2016, a UBISOFT lança Watch Dogs 2, e a coisa muda um pouco de figura. Não temos mais uma Chicago sombria, chuvosa, e uma busca implacável (ahá!) por vingança e dados. Aqui jogamos com Marcus Holloway, um hacker jovem, descontraído e muito bem humorado, que se junta a um time de nerds, uma das filiais do grupo hacker DedSec, para hackear… bem, o mundo.

Aquela gigante da tecnologia implantou o mesmo sistema, mas agora numa São Francisco brilhante, colorida e ensolarada. E é claro que o time de heróis-fora-da-lei querem “derrubar o Sistema”, com S maiúsculo. 

O clima do jogo é muito mais leve e descontraído. Lotado de diálogos engraçados sobre cultura pop e até mesmo armas coloridas (que Marcus pode imprimir em 3D), os produtores estavam com a cabeça na diversão. É até meio estranho você jogar com um cara engraçado, charmoso e bonachão e ter a possibilidade de metralhar seguranças dos locais que invade (eu só joguei com armas não letais). 

Com a segunda iteração sendo bem recebida, um terceiro jogo era inevitável. Talvez as derrocadas sociopolíticas do final da década passada sugeriram à Ubisoft uma mudança meio drástica no tom do jogo. 

Em Watch Dogs Legion, você controla na verdade uma legião (ahá!) inteira de hackers. Depois de um ataque terrorista em Londres, o braço britânico da DedSec é acusado injustamente pelas explosões. O governo estabelece um contrato com Albion, uma agência de segurança, e transforma Londres praticamente numa região sitiada, onde cidadãos não têm mais direitos. 

Você pode recrutar pessoas que estão andando por aí, e que estarão prontas para se juntar à revolução. Cada uma vai ter habilidades diferentes, vantagens e desvantagens, e assim você vai cumprindo missões que abordam temas muito mais sombrios, como perda de democracia, tráfico humano e crimes pesados.

É interessante observar como a cultura pop retrata o estereótipo do hacker. Todos os jogos da saga admitem plenamente a existência de hackers “do mau”, que fazem o que fazem para enriquecer ou causar o mal. Mas também, a exemplo de histórias como Mr. Robot e Os Homens que Não Amavam as Mulheres, aqui, os hackers, em geral, são gente fina.

Pessoas capazes de mais, que usam seus poderes em nome da liberdade e da justiça. Mesmo que no mundo real, os hackers representem riscos bem verdadeiros tanto à liberdade quanto à justiça, a ficção sempre quer encontrar “o bom ladrão”, aquele que transforma seu desajuste econômico, social ou ideológico numa fonte de heroísmo. 

Ser diferente torna o hacker da ficção em alguém sedento por uma justiça “bem cinematográfica”, ainda crendo numa “justiça feita com as próprias mãos” para desfazer os males da sociedade. Algo que não passa exatamente pela cabeça do público quando só queremos nos divertir vendo alguém cometer atos inteligentes, intrincados e surpreendentes em nome de um bem maior meio vago

Robin Hoods nerds, que usam instagram, que não são exatamente muito efetivos em derrubar o Sistema. Mas que servem perfeitamente para divertir e criar problemas de trânsito para pessoinhas digitais, que só querem chegar em casa depois de um dia de trabalho. 

(Imagem da capa - Divulgação)

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