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WandaVision - mais bruxas, menos mágica

WandaVision - mais bruxas, menos mágica

(Spoilers de WandaVision - e de tudo o que se passou até agora no Universo Cinematográfico da Marvel)

A Disney tinha um desafio médio pela frente.

Em sua saga pela dominação mundial, a Empresa do Rato criou o seu serviço de streaming, o Disney+, e imediatamente lançou um projeto inovador, testando as águas do mundo do streaming com uma série live action do universo de Star Wars. O Mandaloriano foi um sucesso, provando que grandes sagas cinematográficas tem o seu espaço no universo do entretenimento-em-casa da nova década 


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A primeira investida na telinha da outra galinha dos ovos de ouro da Disney - o Universo Cinematográfico da Marvel (o MCU) - poderia ter começado de uma forma mais comum. Mas uma das boas sacadas foi brincar de metalinguagem, confundir o público e apostar em uma das forças inigualáveis do MCU - o casting cirúrgico - para criar uma série que pelo menos começa com muita inovação antes de sentar-se confortavelmente numa poltrona feita da década passada.

I Love Wanda

WandaVision começa com o casal formado pela poderosa feiticeira Wanda Maximoff (Elisabeth Olsen) e o sintezóide filósofo Visão (Paul Bettany) se estabelecendo numa cidadezinha localizada… Aparentemente nos anos 50.

Cada episódio da primeira metade da série procura satirizar e homenagear grandes clássicos da TV americana. Temos I Love Lucy, A Feiticeira (é claro), Dias Felizes, A Família Brady, passando por Três é Demais e chegando a brincar com a linguagem de Modern Family.

Quando vimos os personagens pela última vez, Visão tinha sido destruído por Thanos, e Wanda estava processando a perda de seu parceiro ao quase transformar o titã louco em origami. Pulamos disso para um ambiente branco-e-preto e problemas como “nossos vizinhos não podem descobrir que eu sou uma bruxa e meu marido é um robô”. 

A princípio, o visual, o senso de humor, a ênfase na inocência e na normalidade de uma sitcom daquelas onde “no final tudo acaba bem” chocam mais do que qualquer coisa. Bem aos poucos vamos aprendendo o porquê daquilo estar acontecendo daquela forma, onde só mesmo a própria Wanda parece saber o que está acontecendo.

Cenas “do lado de fora” vão completando a narrativa. A organização SWORD, contraparte ofensiva da SHIELD está tentando descobrir porque uma cidade inteira parece ter desaparecido, e começam a ligar os pontos de que tem algo a ver com aquela vingadora que pode brincar com a realidade.

É revelado que Wanda é muito mais poderosa do que imaginava. Depois de perder seu irmão (em A Era de Ultron), perdeu Visão. Se descobriu completamente sozinha, e seu luto levou-a a inventar uma realidade paralela local, onde sequestrou a população de uma cidade para servir de extras num show de TV onde tudo sempre acabava bem. E ela começou a viver nesse show de TV.

Quebrando a Ilusão

Mesmo com a produção de WandaVision insistindo em jogar pistas, fazendo conexões com o resto do MCU aqui e ali, é quando a série esquece disso tudo e foca sua atenção em Elisabeth Olsen que atinge seus picos mais altos.

Olsen transita com confiança invejável por décadas de estereótipos de donas-de-casa americanas da TV, brincando com timings cômicos diferentes, referências de atuação distintas, para no final precisar recuperar a veia dramática e emotiva já conhecida dos filmes da Marvel. Mas com um foco bem mais íntimo do que teve chance de explorar até agora.

Paul Betanny é o outro ponto forte. Tem a chance aqui de brincar mais e explorar mais facetas de um personagem que era, até agora, de pouca relevância no grande esquema da Marvel.

Visão é a voz da sobriedade e da razão, mas dentro do tropo do “andróide que quer ser um humano de verdade”, encontra exatamente uma humanidade cômica e calorosa nas piadas, nos momentos sérios, nos momentos em que precisa fazer Wanda entender que o tratamento que ela dá à sua perda é tóxico e egoísta. Mesmo que isso signifique ser destruído. 

A série tem outras participações sensacionais, como Kathryn Hahn (novamente, dêem um Prêmio Nobel a quem pensa nesses castings), que constrói uma vilã completamente caricata e por entender essa função perfeitamente, tem espaço para se divertir (e nos divertir também). E pensando em outros personagens carismáticos que estão lá para funcionar como conexões com o resto do MCU, como Monica Rambeau (Teyonah Parris), Jimmy (Randall Park) e Darcy (Kat Dennings), sem falar no sem-fim de pistas e referências, começamos a ver as marcas do que pode ser o conforto ou a necessidade, já tradicionais no MCU. 

Embora tenham os momentos mais intensos da história, os últimos episódios de WandaVision, pela natureza da narrativa, precisam abandonar aquela fagulha de criatividade do começo da série e se tornarem exatamente o que o Universo Marvel tem sido esses anos todos. Pastiches de ação e efeitos especiais com raros momentos de charme ou de significância de personagem.

Pode ser o conforto de fazer o que o MCU sabe tão bem fazer ou a necessidade de entregar aquilo que já deu tão certo no cinema. Os Vingadores: Ultimato é - e provavelmente será por um bom tempo - a maior bilheteria cinematográfica da história. Os motivos para tentarem coisas diferentes e inovadoras, para quem está no topo, não passam da necessidade de responder às críticas de serem sempre mais do mesmo. 

Os melhores momentos do MCU acontecem exatamente quando deixam de lado a necessidade por “fazer ainda mais uma referência, mais um cruzamento de significado”, transformando o espectador em um “caçador de pistas” sobre outros filmes. É quando decidem simplesmente contar uma história, ou passar uma mensagem maior que a soma das jóias do infinito. 

Pantera Negra não é o mais premiado e mais lembrado filme por que é salpicado de referências aos quadrinhos ou aos outros filmes do MCU. É porque conta uma história com personagens complexos, conversando sobre assuntos complexos, usando a mídia da cultura pop para levar assuntos importantes ao máximo de pessoas possível. 

Uma série como Legion (atualmente no catálogo da Netflix) faz o extremo oposto. Pega personagens da Marvel e constrói uma saga insana sobre realidades alternativas, palácios mentais, monstros e deuses. Mas coloca personagens profundos, mensagens complicadas e vai tão fundo na experimentação da linguagem que pode afugentar a maioria do público mais tradicional.

WandaVision tinha a chance de experimentar bem mais. De brincar com mais conforto no playground da mágica da televisão. Decidiram ir pelo caminho seguro, o que talvez seja a atitude mais esperta, mas não a mais ousada. Como esperado, atingiu um sucesso tremendo. Por outro lado, o interesse por saber mais das aventuras de Wanda e Visão pode até existir. Porém é um interesse meio morno, meio médio. 

Numa série sobre bruxas, faltou um pouco de mágica. 

Imagens: Disney+
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