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Transmetropolitan - Jornalismo Cyberpunk

Transmetropolitan - Jornalismo Cyberpunk
“Eu quero estar envolvido. Quero moldar e esculpir, encenar coisas, me intrometer e inventar. Eu quero ser um diretor de filmes. Eu era a única pessoa argumentando contra estes imbecis… E eu não aguentei mais. Agarrei um microfone e disse “Eu não sou uma mosca na parede. Eu sou a vespa que pica.” Houve um alvoroço imediato, então sem ter mais nada o que falar eu gritei “Feliz ano novo, seus perdedores.” E foi isso." - Werner Herzog, diretor, documentarista e animador de festas.

 

Jornalismo é uma profissão complicada. 

Tradicionalmente são necessárias humanidade e empatia o suficiente para transmitir o assunto, a narrativa real e verdadeira do que se está reportando. Não são apenas “fatos ordenados informativos”. O jornalismo entende o contexto onde está sendo escrito e o contexto onde está sendo lido. Ambos como esferas de uma humanidade viva.

Ao mesmo tempo, é preciso ter a objetividade de fatos, o que pode soar como “dados, mas não informação”. A reportagem de acontecimentos, livre de embelezamento, parcialidade ou interpretação.

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É uma espécie de utopia, já que qualquer recorte informativo carrega consigo uma escolha, uma pré-interpretação. A sonhada “mosca na parede” é uma fantasia. É só pegar o mesmo fato reportado por dois jornais de espectros políticos opostos. Leia com cuidado a chamada em ambas publicações e compare verbo, pessoa, sujeito e predicado. Nem sempre é sutil. 

Mas é difícil ser o tipo de jornalismo do calibre de Spider Jerusalem

Sutileza, inclusive, é algo que passa muito longe da saga de Spider, a HQ Transmetropolitan. Não é surpresa para quem conhece seu criador, o britânico Warren Ellis, que encabeça o projeto junto com o ilustrador Darick Robertson

Ellis é o roteirista de The Authority, um grupo de heróis desbocados e incrivelmente violentos que surgiu para satirizar a pureza e delicadeza das contrapartes mais famosas - como Vingadores e Liga da Justiça. E isso muito antes de aparecerem The Boys, ou da onipresença do gênero nos quadrinhos, cinema, games, TV e afins tornar quase uma necessidade a desconstrução do mesmo. 

Num futuro ligeiramente indefinido, mais um daqueles pesadelos cyberpunk que a gente conhece de obras como Blade Runner, Altered Carbon e Juiz Dredd, há uma imensa metrópole cheia de gangues, drogas, avanços tecnológicos assustadores e moralidade questionável. É nesse cenário que Spider Jerusalem trabalha.

Este cidadão vai trazer a verdade com v maiúsculo (Imagem: Divulgação/Vertigo)

No começo da história, ele não quer nada com a cidade. Está conseguindo viver em um certo tipo de paz num auto isolamento regado à narcóticos, longe do centro urbano que tanto odeia. Mas aí lembra que, como jornalista, está devendo dois manuscritos de livros a seu editor. E pior - só na cidade Spider Jerusalem é capaz de escrever. Há algo ali que o inspira, que solta o poeta anarquista dentro dele.

A maior parte de Spider abomina cada centímetro da Cidade. Mas uma pequena parte precisa dela. Spider é egocêntrico e maníaco, com atitudes homicidas e caóticas, sempre contando com a sorte e o absurdo que é capaz de gerar para sair de enrascadas. No fundo, é tão deplorável quanto o espaço que o gerou. Ele não sabe ser qualquer coisa senão um espelho do que há de mais feio na sociedade. Porém, Spider tem uma lealdade: “a Verdade”. 

O lendário jornalista Hunter S. Thompson criou o que foi designado de “Gonzo”. É o estilo jornalístico onde a objetividade é jogada pela janela, e o jornalista escreve em primeira pessoa, admitindo-se como uma presença na condução da narrativa jornalística. Muitas vezes é escrito usando uma técnica de escrita de corrente de pensamento.

Há uma cena épica no primeiro arco de Transmetropolitan que descreve exatamente o que é isso, mais do que sacramentando a inspiração do personagem na figura de Thompson. Depois de investigar um ligeiro esquema de corrupção que envolve manipulação de massa de manobra e violência policial, Spider vai reportar uma ação policial. 

No topo de um prédio, Spider transmite ao vivo, via texto, para centenas de milhares de telas na Cidade inteira, sua visão da supressão policial a um protesto. Descreve sem poupar detalhes - muito menos sua própria opinião - a sanguinolência policial que está investindo contra um bando de pessoas marginalizadas. Sem edição, sem cortes na transmissão. Mais do que a verdade nua e crua, uma verdade que não nega passar pelos visores disformes que usa na frente dos olhos. 

Ali no meio há um dedo furiosamente em riste na cara de uma sociedade que se viciou em apatia, que ignora a decência básica de seres humanos, e que quando não vira a cara para ignorar o mal que ela própria criou, observa a miséria sorrindo, porque a fetichização é mais poderosa do que a consciência. 

A narrativa - imediata, inflamatória, coerente e livre - de Spider Jerusalem faz todo o povo da cidade pressionar seus governantes a pararem o massacre.

A recompensa vem à cavalo. Um grupo de policiais para na frente de seu apartamento para espancar sistematicamente Spider Jerusalem. O que sobra dele levanta, no meio do sangue na calçada, rindo. Porque ele finalmente encontrou sua função. Está de volta, e voltou para ficar.

É provavelmente mais saudável que nem todo jornalista almeje ser que nem Spider Jerusalem. Tem espaço e função para vários estilos de jornalismo, e objetividade não é uma coisa para se jogar fora a qualquer momento.

Mas há algo na verve de quem se dedica a informar, com zelo e ética, que pode se inspirar no personagem. Não na escatologia, na psicopatia, e nem mesmo no estilo anárquico de literatura jornalística. Mas na ideia de que informação, qualquer que seja, transforma. 

Jornalistas não escrevem para “manterem o mundo do mesmo jeito”. O produto final de um público bem informado é algum tipo de transformação, na direção de tomam todos aqueles que ontem não sabiam, e hoje sabem. Se isso significa incomodar, perturbar, desregular, que seja.

Era uma festa de fim de ano quando alguém mencionou, na presença do grande Werner Herzog, se a função de um documentarista - de um jornalista cinematográfico - era ser uma mosca na parede. 

Tanto ele quanto Jerusalem concordam que mais vale a pena ser a aranha que pica.

Imagem Capa: Divulgação/Vertigo

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