A sangue frio

A sangue frio

O ano era 1959. Dois homens entram em uma casa de fazenda localizada em Holcomb, Kansas. Ambos haviam sido informados sobre uma suposta quantia que estaria escondida na propriedade, algo entorno de $10.000,00. No entanto, a dupla nunca encontraria o montante.

Inconformados com a falha no plano, os invasores passam a saquear a residência, buscando por qualquer valor disponível. Porém, o desfecho dessa história é mais trágico do que se imagina. Richard Hickok e Perry Smith assassinam os quatro membros da família Clutter com um tiro na cabeça, sendo que o pai – Herbert Clutter – também teve a garganta cortada.

No final, ao invés de ricos, a dupla saiu com menos de $50,00 no bolso e quatro vidas ceifadas. As buscas coordenadas pelas autoridades duraram entorno de seis semanas, até os criminosos serem pegos em Las Vegas, Nevada.

NASCE UM CLÁSSICO

O assassinato da família Clutter foi eternizado pelas mãos de Truman Capote. No entanto, engana-se quem pensa que, logo de cara, o jornalista se interessou pela matéria. Em novembro de 1959, o autor de “A Sangue Frio” estava em dívida com a revista The New Yorker.

De acordo com Matinas Suzuki Jr., no posfácio da edição brasileira de “A Sangue Frio”, Capote havia recebido um adiantamento para fazer uma matéria sobre a “vida na Rússia da Guerra Fria”. Porém, a reportagem nunca foi escrita.

“(Ele) leu nas páginas internas do The New York Times a notícia do assassinato de um fazendeiro e sua família, em algum lugar remoto do estado do Kansas”, conta Suzuki. Em um primeiro momento, o ocorrido não lhe chamou a atenção, mas depois de muito pensar, entendeu que aquela era a oportunidade de juntar jornalismo e literatura.

Truman Streckfus Persons, mais conhecido por Capote, nasceu em Nova Orleans no ano de 1924. Apesar de também ser conhecido pela obra Breakfast at Tiffanys’s, que mais tarde foi adaptado para o cinema em “Bonequinha de Luxo”, um filme estrelado por Audrey Hepburn, o jornalista fez seu nome após o trabalho jornalístico-literário de “A Sangue Frio”.

O escritor começou sua carreira dentro da revista The New Yorker como apontador de lápis e contínuo, ou seja, office-boy. Porém, acabou sendo demitido em 1944 quando, sem autorização, representou a revista em uma conferência de escritores e acabou desrespeitando o poeta Robert Frost ao dormir durante sua leitura.

No entanto, foi Katharine White, cinco anos após o episódio, que leu um texto do jornalista chamado “Shut a final door” e comentou com Harold Ross que a revista seria tola de “fechar os olhos para Capote, só porque ele tem um caráter questionável”. Ross faleceu alguns anos depois e não chegou a ver o sucesso estrondoso no qual se transformou Capote. A verdade é que Katherine ajudou com que a revista e o jornalista estivessem eternamente atrelados um ao outro.

ROMANCE PROIBIDO

Capote demorou seis anos para entregar à revista The New Yorker a primeira versão de “A sangue frio”. Durante esses anos, o jornalista entrevistou um número enorme de pessoas sem fazer qualquer tipo de anotação ou gravação. De acordo com ele, essas técnicas serviam apenas como forma de intimidar o entrevistado. Apesar de se gabar sobre “conseguir cerca de 95% de precisão”, o fato de não registrar suas entrevistas levou críticos a questionarem sobre veracidade de sua narrativa.

Matinas Suzuki conta que “Capote dizia ter feito investigações de mais de 8 mil páginas, incluindo os longos depoimentos compilados pela justiça”. Além disso, ele também refez a rota de fuga de Hickock e Smith, entrevistando inúmeras personagens ao longo do caminho.

Ao longo dos seis anos, Capote fez várias visitas aos assassinos da família Clutter e há quem diga que o escritor e Smith tornaram-se mais próximos que o normal. “Os policiais estavam certos de que os dois eram amantes e que Truman subornava guardas para encontrar Smith”, escreve Suzuki.

PENA DE MORTE

Independente do romance ser boato ou não, uma coisa era real. Nos anos que frequentou a penitenciária, Capote tornou-se confidente de Hickock e Smith. Ocorre que ambos os detentos haviam sido condenados à morte pelo assassinato da família Clutter.

Assim sendo, quando estavam às vésperas da execução, ambos indicaram Capote como uma das três testemunhas às quais tinham direito. Joe Fox, então editor da Random House, relata que o escritor “estava às lágrimas boa parte do tempo e não dormia”. No entanto, durante a noite, o jornalista, que inicialmente se negou assistir os últimos instantes dos assassinos, mudou de ideia e foi assistir ao suplício.

De acordo com os relatos, Capote passou mal durante a execução de Hickock e saiu da sala antes que Smith fosse enforcado. Fox conta que “no avião, de volta para Nova York, Capote segurou sua mão e chorou durante quase toda a viagem”.

A Sangue Frio tornou-se um sucesso, sendo considerado a obra inaugural do jornalismo literário ou – como Capote gostava de chamar – romance de não-ficção. O jornalista ajudou a inaugurar não só um novo estilo literário que exaltava o trabalho investigativo exercido por repórteres, mas também a inaugurar uma nova era.

Apesar de ter seu caráter e técnicas de apuração questionadas, o escritor mostrou ao mundo que é possível escrever romances a partir de histórias e acontecimentos reais. Assim, ele incentivou jornalistas a se desengessarem das estruturas tradicionais jornalísticas a partir do envolvimento e na transição com a literatura.


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