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OSCAR 2021 - Professor Polvo - Se redescobrir no labirinto do mar

OSCAR 2021 - Professor Polvo - Se redescobrir no labirinto do mar

A mente humana às vezes pode ser imprevisível. Como uma força da natureza. 

Qualquer pessoa que já tenha passado por algum ataque de pânico ou ansiedade, que já tenha tido experiências com depressão, sabe que não existe uma maneira fácil ou rápida de controlar o que nós mesmos temos na cabeça. De maneira que nós - e em especial quem não toma cuidados com a saúde mental - estamos à mercê de eventos químicos do nosso cérebro, assim como de eventos externos. 

O documentarista sul-africano Craig Foster passou por algo muito parecido. Um evento depressivo tirou dele toda a vontade de filmar, toda a energia para criar as histórias naturalistas que tanto ama. Foi algo súbito e profundo. Depois de anos atrás das câmeras, não conseguia se imaginar filmando nada. 

Decidiu que ia tentar uma abordagem um tanto drástica para seu processo de cura. Nadar todo dia no pedaço de mar que fica perto de sua casa. Perto da Cidade do Cabo, na África do Sul, há uma enorme floresta de algas marinhas, o que ajuda a conter a força do mar. E ali há uma diversidade de vida incrível e fascinante.

Seria só Foster, a água gelada do mar, e um universo de animais e plantas marinhas misteriosas. E aí ele encontrou um polvo.

Foster já havia começado a filmar suas incursões submarinas - meio sem saber ainda como usaria o material - dado que as coisas que encontrava diariamente eram maravilhosas. Mas aquele polvo fêmea chamou mais atenção do que seus arredores.

E não só porque os polvos são criaturas que assombram e interessam a qualquer um automaticamente. São maleáveis, inteligentes, parecem com muito poucas outras coisas, mudam de cor e textura para se esconderem. Presenciar um polvo selvagem é como ter contato com uma espécie de outro planeta com habilidades nunca antes vistas.

Mas aquele polvo começou a criar um relacionamento com Craig. Não fugia, e parecia tão interessado em Craig quanto ele estava no animal.  

Foster então chamou os cineastas James Reed e Pippa Ehrlich para ajudarem a filmar ainda mais material. E começou a estudar aquele polvo bem mais de perto. 

Professor Polvo é o resultado de anos e anos de mergulhos diários, edição e estruturação de narrativa. Onde Craig relata sua experiência com stress e depressão, ao mesmo tempo que enxerga sentido e comunhão com um polvo. 

Reed foi trazido ao time especificamente para conduzir uma entrevista com Foster, criando uma linha narrativa para a experiência toda. Nessa entrevista Foster fala de como chegou ali, no fundo do poço, e como observar o curso de vida de uma coisa tão delicada e ao mesmo tempo tão resiliente como um polvo mudou sua vida.

Aquele polvo vive cercado por predadores - tubarões-de-pijama africanos - e há várias sequências eletrizantes onde Craig precisa filmar sua amiga escapando dos peixes famintos. 

Mesmo sendo um animal sem esqueleto e aparente fragilidade, ele usa sua inteligência, criatividade e habilidades inesperadas para sobreviver. Num momento em que um dos tubarões arranca um dos tentáculos, o polvo passa um tempo acuado, em sua caverna, enquanto um tentáculo novo nasce no lugar. 

O trabalho de captura de imagens é assombroso, muitas vezes criando um labirinto de algas, peixes e anêmonas, onde é muito fácil se perder no meio de cores e formas. O filme trabalha para isolar Craig e desconectá-lo de qualquer normalidade humana. Ele é um explorador espacial investigando um planeta longínquo, enquanto lida com a própria fragilidade e senso de solidão.

Craig e o polvo viraram mais que amigos, brothers. (Divulgação - Netflix)

E a narrativa funciona plenamente quando estamos vendo Foster e o polvo. É muito fácil criar afeição pelo animal, temer pelo seu futuro, e se emocionar com as tragédias inevitáveis de ser uma pequena criatura no meio de um universo impiedoso de ondas, tempestades e dentes.

Numa sequência onde Foster se perde do polvo, ele chama para si o protagonismo total do filme e demonstra também ter habilidades incríveis. Enquanto filmava seus outros documentários, sobre os caçadores do povo centro-africano San, aprendeu técnicas de rastreio que simulam uma espécie de Sherlock Holmes naturalista. 

É uma linha de progressão narrativa que funciona melhor do que a própria escalada pessoal de Foster, onde não há o mesmo engajamento. As entrevistas com ele são como pontuações no meio de um filme mais interessante. Não que o drama pessoal dele falhe em sua sinceridade, e até atinja uma conclusão importante, já que tanto sua história com o polvo quanto sua trajetória interna atingem finais análogos. 

Mas a cadência da entrevista, o quão vaga sua história e as escolhas de cenografia entram em conflito com a dinâmica e a suntuosidade dos cenários submarinos e da tensão, ao invés de servirem como respiro. 

O filme é uma das investidas mais fortes do Netflix na competição do Oscar de 2021. E embora escorregue na hora de contar seu drama completamente humano, sua metade naturalista é um espetáculo. A produção do filme por si é uma história fascinante, resumida pela própria esposa de Foster, a documentarista Swati Thiyagarajan neste artigo.

Existe uma gama extensa de documentários naturalistas que buscam dramatizar a vida natural, muitas vezes imprimindo humanidades aos personagens animais que retratam. Professor Polvo é um caso à parte. A humanidade impressa ao animal não é parte somente de uma caracterização criada pelo narrador. Craig Foster realmente fez amizade com um povo, e a relação entre os dois é comovente e inspiradora.

Um misterioso ser conseguiu destrancar um pedaço da alma deste homem, e o fez perceber novamente porque ama fazer o que faz, porque ama ser pai. Professor Polvo é um conto sobre o tanto que temos a aprender com os pequenos espetáculos à nossa volta. E o quanto precisamos nos agarrar - às vezes com mais do que dois braços - ao milagre da vida. 

Imagem da capa: Divulgação Netflix

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