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NFT - Quando Arte e Blockchain colidem

NFT - Quando Arte e Blockchain colidem

A internet foi ao delírio no começo de março de 2021.

Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, é um artista gráfico que compõe peças de arte usando ilustração e 3D. Ele publica uma arte por dia em seu Instagram há quase 14 anos. Beeple decidiu juntar 5.000 de suas artes em um grande JPG, aplicar uma autenticação via blockchain no mesmo e vendê-lo através da lendária casa de leilões Christie’s

Ao bater do martelo virtual, a peça de arte virtual arrematou 69,3 milhões de dólares nem um pouco virtuais.

A nova febre de centenas de artistas e marcas online é o chamado NFT, ou non fungible token. Uma maneira de autenticar praticamente qualquer arquivo digital via um padrão de blockchain (sendo o padrão ERC-721 o mais utilizado na blockchain do Ethereum, um blockchain que permite aplicações descentralizadas e programações específicas), que acabou chamando atenção da mídia por começar a mover quantias gigantescas de dinheiro no mundo da arte.

Conversamos com Liliane Tie, community leader da Women In Blockchain Brasil, via texto, para explicar melhor tudo o que envolve o NFT.


Prensa: O que exatamente é o NFT?

Liliane Tie: Ainda é difícil para muitas pessoas entender o Bitcoin ou a tecnologia Blockchain, mas os NFTs provavelmente vão fazer mais sentido porque todo mundo entende aquelas figurinhas de colecionar ou as obras de arte únicas que valem milhões. Exclusividade é a palavra-chave para entender NFTs, em inglês: Tokens Não-Fungíveis. O nome não é muito didático...

P: O que é algo “não-fungível”?

 LT: O Código Civil Brasileiro define como "fungível" um bem que pode ser substituído por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. Um exemplo prático seria: fiquei sem açúcar e peço emprestado para a minha vizinha. Depois que eu comprar devolvo outro (ou seria o mesmo?) açúcar para ela. 

Poderia ser dinheiro também. Empresto 100 reais dela para pagar algo que preciso urgente hoje e devolvo a mesma quantia de 100 reais para ela alguns dias depois. A(s) nota(s) não serão as mesmas, mas o dinheiro tem o mesmo valor (tomara que a hiperinflação não volte!). Isso é ser fungível. Gastar ou consumir conforme se utiliza. 

Logo, "não-fungível" ou infungível é algo que não pode ser substituído por outro, mesmo que seja da mesma espécie. Um carro, uma casa, uma relíquia ou uma obra de arte são bens infungíveis porque são únicos, uma característica em blockchains possível graças à uma função criptográfica. 

Nem todo mundo pode colecionar carros, casas ou obras de arte no mundo físico, mas no ambiente virtual itens colecionáveis proliferam em comunidades de jogos e de arte digital. O limite é a criatividade. E o futuro (não muito distante) aponta para a tokenização de... tudo!?

P: Tokenização? Token?

LT: A primeira coisa que pode vir à mente é aquele token do aplicativo do banco, mas na verdade, o termo aqui se refere a uma representação digital de alguma coisa (pode ser material ou totalmente digital) que tenha algum valor, e que te dá direito sobre o que esse token representa. 

É como a ficha que a gente pegava no caixa da lanchonete da escola para trocar pelo lanche, mas imagine que o seu lanche virou uma arte digital, em forma de imagem, de um vídeo (um vídeo de 10 segundos já foi vendido por US$ 6.6 milhões), de um gif ou de um meme... quem sabe até um tweet (tem gente querendo pagar mais de US$ 2 milhões pelo primeiro tweet “tokenizado” via NFT).

"Os primeiros 5000 dias", Beeple. Esse JPG acima não vale um tostão furado. (Divulgação/Christie's Auction House/AFP/Getty Images)

P: Então as pessoas estão aplicando um código a um arquivo digital, para certificarem-se que aquele arquivo digital é ÚNICO e vendê-lo por milhões de dólares. Mas se o arquivo é digital não podemos fazer cópias? Não posso ir lá e tirar um print do primeiro tweet, e eu mesmo aplicar uma segunda NFT? Qual o princípio por trás disso?

LT: O princípio tecnológico por trás disso é a criptografia. Esse código único garante a autenticidade do NFT original porque foi assinado digitalmente pelo seu criador. É como ter a assinatura de Leonardo da Vinci se fosse um NFT da Monalisa. 

Mas assim como hoje existem cópias dela por toda parte, e sem o mesmo valor do quadro que está lá no Museu do Louvre, cópias do NFT do Beeple podem até se multiplicar por aí, só que não terão o certificado de autenticidade e nem o mesmo valor do primeiro quadro digital que foi arrematado no leilão na Christie’s. O original é único e não pode ser duplicado. 

E o Beeple foi tão criativo que fez um mosaico digital com suas 5.000 imagens diárias produzidas ao longo de 14 anos, o que torna a obra ainda mais única aos olhos de quem deu seus lances, destacando uma nova forma de apreciar arte digital num futuro cada vez mais imaterial. 

Seguindo esse raciocínio, o NFT de um tweet do Jack Dorsey (criador do Twitter) pode valer muito porque comprova que o original tem a assinatura dele e é único. Agora fica a reflexão. Se hoje as pessoas podem retweetar ou tirar um print do tweet dele e compartilhar de graça, por que alguém pagaria por um tweet fake dele? Mas vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos porque o mundo está muito doido de uns anos pra cá...

O que nem todo mundo se deu conta ainda é que há muito mais por trás desse momento dos NFTs. Esse buzz pode ajudar a popularizar uma nova forma de interagir e transacionar digitalmente. Um novo marco em direção à Internet do Valor

A era da Internet como a conhecíamos, no seu início, cumpriu bem o seu papel de democratizar a informação. Mas tecnicamente tudo o que trocamos nas redes como e-mails, fotos, vídeos, etc. foram pensadas como cópias de arquivos. Temos a convicção de que estamos enviando algo, mas realmente o que vai é uma cópia dele. 

E para enviar dinheiro, esse princípio não funciona. Em resumo, como nenhum arquivo é único, as redes foram inundadas por cópias de todo tipo dificultando impor o valor intrínseco de conteúdos e até dos nossos comportamentos que acabaram cooptados por um modelo de “capitalismo de vigilância”. 

P: Então o valor do que as pessoas estão buscando não está necessariamente no arquivo digital que está sendo comprado, mas no código que o autentifica? 

LT: O valor que as pessoas buscam gira em torno daquilo que o token representa. Pode ser até uma obra de arte que seria logo depois desmaterializada, como quis mostrar a empresa que comprou de uma galeria um quadro de Banksy para queimar e imortalizar a obra apenas digitalmente em NFT

Pode ainda ser um meme amplamente utilizado (como o oclinhos preto) ou uma coleção de “melhores momentos” de jogadores (como fez a NBA), uma coleção de artes inspirada em tacos e burritos (como fez a Taco Bell) para doações à sua Fundação ou ainda um simples par de meias (como a SOCKS).

P: Exatamente como você disse, uma assinatura do artista, confirmando a peça como "real" ou "oficial". Isso é, basicamente, um valor completamente virtual. Ou seja, é exatamente como um mercado de arte. A autenticidade de uma peça única de obra está totalmente atrelado à sua autenticidade. 

LT: Com a diferença de que uma arte pode não estar mais num museu, mas disponível na Internet para quem quiser ver.    

P: Você enxerga algum tipo de perigo nessa prática, quer seja um perigo financeiro, em termos de especulação descontrolada, ou alguma outra coisa que o pessoal da internet, animado como é com novidades, pode estar ignorando?

LT: NFTs, em tese, são parte da solução para uma Internet do Valor. E nestes tempos de crise sem precedentes, explodiu como opção para artistas e designers monetizarem e terem mais reconhecimento sobre seus trabalhos. 

Por outro lado, artes digitais também estão sendo “roubadas” por terceiros que as tokenizam sem o consentimento de seus criadores. Além de muita especulação em torno desses novos “objetos de desejo”. É bom lembrar que golpes e fraudes são mais difíceis de perceber em plataformas onde pessoas ainda estão aprendendo como tudo funciona. 

É assim até hoje por email, agora por whatsapp, então não é exclusividade do ambiente cripto. Por unir transações à representação digital de praticamente qualquer coisa que tenha valor, é um terreno fértil para a criatividade (tanto para o bem quanto para o mal). 

Vale lembrar do hype das ICOs (ofertas iniciais de criptomoedas) entre 2017/18.  Enquanto a tecnologia e o mercado amadurecem, veremos euforia de uns e decepção de outros, mas provavelmente é um legado dessa época que vai ficar.

Mike Winkelmann, o Beeple. Ele ficou rico com (anos de arte e) um JPG. (Divulgação/Scott Winkelmann/AFP/Getty Images)

P: Pode se tornar um perigo até para a imagem de pessoas normais. Imagino que a própria foto delas pode ser tokenizada... Ou não? Será que há algum respaldo legal para impedir isso? Há notícias do uso da tokenização para perpetuar revenge porn.

Impedir atividades indevidas é difícil em qualquer plataforma. Isso não é novo. O que talvez tem contribuído para o alarme em torno do NFT no caso do revenge porn é a questão de uma imagem ficar gravada para sempre no blockchain devido a sua característica de imutabilidade, o que é terrível. 

Mas é importante separar o joio do trigo. Essa característica da tecnologia Blockchain já provou seus benefícios em casos de uso em diversos setores mundo afora, inclusive para combater violências desse tipo. Então, precisamos dar mais visibilidade às soluções existentes também. 

Impedir é difícil, mas é esta mesma característica da tecnologia que permite hoje que provas sejam apresentadas à justiça mesmo depois de terem sido apagadas, algo muito mais comum hoje em dia.

P: Há muitos comentários também sobre o impacto ambiental que todo esse frisson pode causar. Isso tem relação com o que exatamente?

A meu ver, isso tem mais relação com politização. Como existem visões diferentes entre perfis e entre recortes geracionais, tem bastante espaço para debate em torno do impacto ambiental e em torno do que o Bitcoin em si representa. 

Independente do posicionamento pessoal de cada um, observar mais os dados comparativos do setor energético e explorar novas possibilidades de compensação talvez faça mais sentido para o momento que estamos atravessando. Mas aí, podem dizer que eu também já estou politizando.


“A internet nunca mais vai ser a mesma” é uma frase que perde o sentido para qualquer pessoa que realmente entende a internet. Ela é a amálgama da humanidade encontrando novas maneiras de fazer, de criar e de comunicar. A Internet “não é a mesma” pelo menos a cada 3 meses.

Os protocolos de Blockchain e seus inúmeros usos são só mais uma parte desse mundo que apareceu recentemente, e que ainda vai causar muito barulho, controvérsias e discussões. 

Se prepare. O futuro é daqui a pouco. E ele provavelmente não vai caber num museu. 

Agradecimentos mais que especiais à Liliane Tie por todo o apoio.

 

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