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Mortal Kombat - Uma conversa entre fãs

Mortal Kombat - Uma conversa entre fãs

O novo filme do Mortal Kombat estreia nos cinemas essa semana. Em meio a dois anos de poucos lançamentos grandes, o reboot nos cinemas da clássica série de games de luta tenta criar um universo novo, com visual arrojado e foco na violência extrema. Mas na hora de entreter, contar uma história, ou mesmo mostrar coreografias insanas, o filme escorrega no gelo. E aí, dois amigos queriam conversar sobre o lançamento e sobre nostalgia...


 

“Ei. Ei. Você viu o novo filme do Mortal Kombat?”

“Eu vi! Tava acompanhando desde quando os trailers quando saíram.”

“Pô, lembra quando tudo isso começou? Era… Foi antes de 93 né?

 “Ah virou febre nos arcades. Eu ia no shopping jogar. Isso nem existe mais, existe?”

“Acho que não. A última vez que eu vi um fliperama foi numa daquelas áreas estilo ‘play alguma coisa’, e nem tinha coisa boa. Era só jogo de moto ou aquelas tosqueiras de pistola laser.”

 “Mortal Kombat no fliperama mudou tudo.” 

“Galera arrancando cabeça, explodindo o inimigo. Nunca tinha visto isso antes! E olha que ainda era a época que video game era coisa de criança! As crianças estavam com sangue nos olhos!”

“Você está com quantos anos?”

“Ah to com 38.”

“Então você lembra que aquele jogo, que hoje a gente olha e acha brega, virou febre. Tenho certeza que você foi no cinema ver o filme. Saiu em 95.”

“O que? Levei a família toda e nem senti vergonha. É o mais puro suco do tosco.”

“Sabe os trinta e cinco filmes do Resident Evil? Então, tudo veio desse mesmo diretor. Ele é tipo um Uwe Boll do bem. Paul W. S. Anderson. O W. S. é importante pra não confundir com o Paul Thomas Anderson que faz uns filmes de… De outro estilo, vamos dizer. ”

“Então foi com Mortal Kombat que esse cara descobriu que dá pra fazer dinheiro com pouca qualidade?”

“Ah, pouca qualidade, mas muito carisma né. Olha esse filme novo do Mortal Kombat por exemplo.”

A criação de utensílios é uma das façanhas do ninja gelado. (Imagem - Divulgação Warner Bros.)

“O que, você não gostou? O filme é mó irado!”

“Ah vá. É um filme muito mixuruca.”

“Eu não acredito que você tá analisando um filme chamado MORTAL KOMBAT, que tem um gigante de quatro braços arrancando pedaço de gente, dessa forma.”

“Que forma que eu to analisando?”

“Usando o cérebro! Poxa, o filme tem ninja, feiticeiro, robô, lagarto gigante… Desliga o cérebro! Usa alguma outra coisa! Toma umas poucas e usa o fígado pra analisar!”

“Ah cara, não consigo. Não existe isso de desligar o cérebro pra ver filme. O que existe é linguagem e empenho. Dá pra fazer um filme que entenda que é, entre aspas, “ruim”. Um filme B. Onde a tosqueira vira parte do universo. Ajuda você a entrar na história. E ainda conta uma história cuidadosa, com coração. Nem tudo precisa ser Shakespeare. Até porque, a mídia do Shakespeare eram palavras. A mídia do cinema é a imagem e o som.”

“Você tá falando de… Sei lá, Círculo de Fogo?”

“É um ótimo exemplo. Círculo de Fogo é um filme sobre robôs gigantes batendo em monstros gigantes. E mesmo com uma premissa simples, consegue captar a sua atenção com o drama dos personagens, conflitos… Mesmo que sejam os conflitos mais cartunescos possíveis. Poxa o filme seguinte do diretor do Círculo de Fogo, o Guillermo Del Toro, deu pra ele Oscar de diretor, de melhor filme.”

“Ah, é o cara do Labirinto do Fauno. Poxa, baita filme.”

“É então. O cara fez um filme com uma narrativa simples, mas muito empenho e carisma. E tudo porque ele gostava de Godzilla e Jaspion.”

“E esse novo Mortal Kombat tá faltando o que então pra ficar bom?”

Belos visuais wins. Flawless Victory. (Imagem - Divulgação Warner Bros.)

“Ah meu Deus, falta um monte de coisa. Um monte de coisa que aliás o filme de 95 tinha. Digamos assim, o Mortal Kombat de 95 sabia que era um filme trash. Sabe como você começa um filme que se leva muito a sério? Com uma cena bucólica, situada 400 anos atrás. Sabe como você começa um filme que é diversão sem limites?”

“Com uma explosão techno, gritaria, muita loucura na tela, logotipo pegando fogo.”

“Exatamente. Já começa a indicar um pouco a direção das coisas. O filme novo está tentando se levar muito, muito a sério. E não que isso seja um problema, é que é seriedade por seriedade. Sabe quando algum personagem fala uma coisa profundamente pensativa e importante e fica engraçado sem-querer? Por exemplo, tudo o que sai da boca do Raiden? Dá pra ser sério, mas a narrativa tem que funcionar. Nem precisa exatamente ser tão fiel à história do jogo.”

“E nem exatamente tinha uma história né. Videogame era um passatempo na época, ninguém chamava de arte. Não era The Last of Us.”

“Não que não mereça espaço na mídia. É só um estilo diferente de expressão. Uma com mais pixels e mais sangue e menos… Sei lá, realismo. E poxa, dá pra você não se levar a sério e ainda assim contar uma história, criar um trajeto de personagem interessante.”

“É… Eu nem lembro do nome do protagonista desse filme novo. Digo, o nome não importa muito, mas… ‘Uau, você é um ex-lutador de sucesso que agora tem uma tatuagem bacana poderes mágicos, vamo ali no quintal treinar um pouco. Sua família tá em perigo.’” 

“Exatamente. Nada necessariamente contra o ator, Lewis Tan, nem mesmo contra inventarem um protagonista pro filme que não está nos games. E nem contra a trajetória do filme ser assim desvairada.  Mas não dão material pra ele criar laço nenhum com o público. No filme original você fica com o protagonista a jornada inteira. O ator era o Robin Shou e ele transmitia uma honestidade muito apropriada no meio daquele teatro de maluquice. São coisas simples como amarrar o objetivo do personagem direitinho, demonstrar o conflito dele… O filme original não deveria acertar tanto quanto acertou.”

“Ao invés de focar no protagonista, eles trabalham muito mais pra você se fisgar no drama do Scorpion nesse filme novo.”

“Então. Eu acho que esse é um dos problemas maiores. Primeiro que me pegam um ator do calibre do Hiroyuki Sanada pra fazer o papel.”

“Eu vi ele no Último Samurai né?

“Isso. Poxa, esse cara é um ator fantástico. Ele sozinho merecia um filme muito melhor em volta dele. E a produção em si parece que sabe disso também. Dão pra ele o papel mais dramático (e surpreendentemente, com pouquíssimo tempo de tela), um homem que jura vingança pela sua família, assassinada pelo ninja-resfriado Sub-Zero. Mas… Não só a própria ideia do filme do que é “uma cena séria” parece forçada e sem ritmo, como a luta que segue entre dois dos maiores ícones dos games é… Meio bem ruim?”

“Você não gostou nem das lutas?”

“Primeiro que como eu falei antes, dá para um filme de ação ser intenso e usar não só imagem e som, como a própria ação para contar histórias. Mas além de falhar nisso, essas lutas são mal editadas. Percebe que dificilmente nós vemos um golpe não ser quebrado por um corte de câmera. Um corte que muda o nosso ponto de vista, que é dessincronizado com a cadência da própria luta, e serve mais pra confundir a gente do que pra dar clareza. Aí a luta não é UMA LUTA, é só dois sujeitos se batendo.”

“Ah mas vai me dizer que as lutas do filme de 95 eram maravilhosas!”

“Claro que não. O filme original tem um monte de defeitos. Poxa, escalaram o Highlander Christopher Lambert pra interpretar… um deus do trovão japonês… Meio feio né. Mas quer fazer um filme de artes-marciais bem feito? Tem aí meio século de cinema asiático fazendo escola. Até escalaram no filme novo o Joe Taslim, que é uma lenda, pra fazer o Sub-Zero. E o resultado são cenas de ação sem impacto. E já que a narrativa não trabalhou para elas terem significado também…”

“Tá, mas você falou que um dos maiores problemas era terem dado muito foco pro Scorpion.”

 

O filme se preocupa demais com estes dois para mostrar tão pouco. (Imagem - Divulgação Warner Bros.)

“É. Então. Nos jogos, todo mundo sabe que o Sub-Zero matou a família do Scorpion, aí rolou um monte de coisa e agora os dois são ninjas inimigos. De longe, uma das premissas mais simples de entender dentro do baú de insanidade que é a mitologia do jogo. Certo?”

“Certo.”

“Só que o Scorpion não é o protagonista do filme. A história não é dele. Ele está ali, em destaque, por conta do quão icônico o personagem é. O “ninja amarelo” (que é uma péssima indumentária para um ninja mas isso é outra história). Quando eu percebo que ele só tem esse destaque imenso só no começo e no final do filme e não tem praticamente conexão nenhuma com a história central, sem falar de que os dois rivais são a única coisa que aparece no marketing do filme…”

“Tem razão. Só tem os dois nos pôsteres.”

“... me mostra que o filme estava querendo só fazer o trabalho de tocar na nostalgia do público alvo. Digo, nós. Gente que joga esses jogos há 30 anos, cresceu com os personagens. O filme de 95 não tinha que trabalhar com nostalgia, então na hora de criar os easter eggs fazia isso com muito mais propriedade na história. Aqui eles só estão lá por estarem lá. É o tipo de coisa que a Disney faz muito melhor nos filmes da Marvel. Vou acenar pros fãs, mas vou tornar este aceno algo importante

“Ou seja… Você só queria que o Scorpion se esforçasse menos pra se conectar com o jogo, com o material original...”

“E mais para se conectar com o que tá acontecendo na tela. Eu queria que o filme contasse uma história. Pode ter lá a violência extrema, as lutas, os personagens sem pé nem cabeça. Mas poxa, deixa eu me engajar com eles. Como faço há 30 anos. Como fiz com o lançamento de 95 (e Deus do Céu não fiz com a continuação).

“Poxa, quem sabe a sequência faz melhor.”

“Sequência?”

“É, parece que esse Mortal Kombat novo é a maior estréia da HBO MAX. Vão fazer vinte filmes disso aí. Vai ser o novo Velozes e Furiosos.

“Poxa, se virar um Velozes e Furiosos eu fico até contente. Senão... Vai ser uma fatalidade cinematográfica novamente.”

(Imagem da Capa - Divulgação Warner Bros.)

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