Meu pai: o outro lado da história

Meu pai: o outro lado da história

Engana-se quem acha que “Meu Pai” é apenas mais um filme sobre os efeitos da velhice. Se você, leitor, pensa assim, por favor, permita-me mostrar outro ponto de vista. Só preciso de alguns minutos da sua atenção. Fique à vontade, sente-se e saiba que é possível que as próximas linhas contenham spoilers.

Meu Pai” é um filme sensível e ao mesmo tempo intenso. Ele conta a história de Anthony, um senhor de idade avançada – interpretado por Anthony Hopkins – que foi acometido pelo Mal de Alzheimer. Sua filha Anne, como um malabarista na corda bamba, passa a ter que dividir seu tempo entre trabalho, vida pessoal e o pai.

Contando assim, temos a sensação de ser mais um enredo Hollywoodiano. No entanto, a história, que normalmente seria narrada a partir do ponto de vista de Anne, dessa vez, é contada pela perspectiva de quem sofre da doença. O filme foi dirigido por Florian Zeller, baseado na peça de teatro de mesmo nome, também escrita por ele.

Zeller optou por filmar o longa de forma alternativa, passando ao público as angústias e confusões que uma pessoa com Alzheimer vivencia. O primeiro sentimento transmitido ao público é o da confusão mental. No início do filme, o diretor apresenta a atriz Olivia Colman no papel de Anne. A filha vai à casa do papai e demonstra preocupação com seu estado de saúde.

A cena seguinte mostra Anthony entrando na cozinha e desembalando as compras do supermercado quando nota a presença de um homem em sua casa. Confuso, ele questiona a presença do rapaz e, surpreso, descobre que se trata do marido de sua filha e que aquele não é seu apartamento, mas sim o de Anne, que há alguns meses o levou para morar com ela. Atordoado, pede para ver a filha e quando esta chega, não é Olivia Colman que aparece, mas sim outra atriz.

Ao decorrer do filme, o diretor faz com que o telespectador se questione e viva a confusão mental de Anthony. Zeller realiza essa alternância de atores e papeis o tempo todo, além de mudar o ambiente em que as cenas acontecem.

Outro detalhe usado para evidenciar a confusão temporal da personagem é o relógio. Anthony, que carrega com sigo um velho relógio de pulso, o perde constantemente ao longo da história. A metáfora utilizada, mostra uma incerteza quanto a linha temporal, fazendo com que o telespectador nunca saiba quando se fala do presente ou do passado. Tempo e espaço são as duas variáveis incertas e inconstantes que marcam o enredo de “Meu Pai”.

No entanto, um detalhe pode ter passado despercebido aos menos atentos. Anthony questiona o paradeiro de sua filha mais nova e nunca tem uma resposta concreta dos outros personagens. Ao longo do filme, descobrimos que ela faleceu em um acidente e que Anthony não registrou mentalmente sua perda. Este marco temporal, a morte de sua filha, que ao longo da história sabemos que é sua “preferida”, é também o ponto de partida da deterioração de sua saúde mental.

Maria Tereza Barboza mora com seu filho, Guilherme Bastos, e sua mãe, Maria Aparecida, no bairro de Vila Formosa na Zonal Leste da Cidade de São Paulo. Aos 57 anos, Maria é professora da rede estadual em duas escolas, uma em São Matheus e outra no Jardim Iva, ambas longe de sua residência. Sua mãe tem 80 anos e no final de 2020 foi diagnosticada com Alzheimer.

Apesar de não ser filha única, Maria cuida sozinha de sua mãe, contando apenas com a ajuda do filho e assim como Anne em “O Pai”, também teve que adaptar sua vida para conseguir equilibrar o trabalho e os cuidados à mãe. No entanto, não é só esta a semelhança entre as histórias.

Guilherme conta que após o falecimento de seu avô, Aparecida começou a piorar de saúde. “Após a morte do meu avô, minha avó ficou em depressão e isso acelerou muito esse processo de esquecimento”, conta. Assim como Aparecida, a morte de um ente querido do protagonista de “O Pai” é mostrada como um marco temporal importante para a deterioração de sua saúde mental.

Com o advento da pandemia, tanto Guilherme quanto sua mãe passaram a ficar mais tempo dentro de casa. Com isso, detalhes que passavam desapercebidos no dia a dia começaram a ser notados. O sinal de alerta soou quando a um parente veio a falecer de Covid-19 e após sua morte, Aparecida questionou repetidas vezes o ocorrido.

“Pra mim é muito duro pois minha avó sempre foi um símbolo de força e eu estou acompanhando o desenvolver da doença”, conta Guilherme. Aparecida também acaba se perdendo no tempo e com isso a Guilherme passou a ter o cuidado de sempre falar o dia da semana, a data, o mês e o ano em que estamos. A perda da noção do tempo, também é vivenciada por Anthony ao longo do filme. É a arte, infelizmente, imitando a vida.

Outro momento bastante marcante no filme é quando Anne resolve contratar uma cuidadora para seu pai. No entanto, este acha que não precisa de uma, e faz de tudo para deixar isso bem evidente para a jovem que lhe é apresentada. De muito bom humor, Anthony aparece dançante, como um excelente anfitrião, até muito sedutor, eu diria. Posteriormente ele fala: “minha filha acha que estou ficando maluco”.

Imagem: divulgação/Califórnia Filmes

Guilherme também vivenciou esse momento com sua avó. Em meados de agosto, quando a pandemia começou a apresentar sinais de melhoras, tanto ele quanto sua mãe precisaram voltar ao trabalho presencial, diminuindo o ritmo do Home Office. No entanto, deixar a avó sozinha estava fora de cogitação. Contrataram uma primeira cuidadora, que não se ajustou muito bem, e agora estão em uma segunda experiência.

Ele relembra quando a profissional de saúde chegou em casa pela primeira vez e teve que explicar com muito tato o que ela estava fazendo ali. “Ela não gosta da palavra cuidadora, fala que não precisa de cuidado nenhum e que pode fazer tudo sozinha”, conta Guilherme. O neto de dona Aparecida narra o momento em que a nova cuidadora chegou, e a necessidade que a avó sentiu em mostrar e provar que era capaz de fazer as coisas.

Em vários aspectos, é assim que a história de Anthony e Aparecida se cruzam. As vezes com certa dificuldade de distinguir entre o que é real e o que não é. Ver o outro lado da história pode ser chocante em um primeiro momento, mas necessário não só para gerar uma compreensão a respeito da doença, mas empatia com as pessoas que sofrem dela.

Além disso, em um segundo plano, o filme também evidencia o cuidado e o carinho que Anne tem ao cuidar de seu pai e a luta pessoal que trava para equilibrar todas as áreas de sua vida. Na vida real, Maria e Guilherme são o retrato perfeito e carinhoso da devoção por quem mais amamos.


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