Mestres do Universo do Netflix - He-Man sem He-Man: é golpe?

Mestres do Universo do Netflix - He-Man sem He-Man: é golpe?

O lançamento do canal de streaming não tem um protagonista que é um homem musculoso, com uma espadinha, lutando contra um cara de rosto muito magro. Não tem mesmo.


 

[Spoilers Pesados de Mestres do Universo - Salvando Eternia]

No final do primeiro episódio da série animada Mestres do Universo - Salvando Eternia, He-Man morre. E junto com ele vai um dos maiores ícones da vilania infanto-juvenil, Esqueleto.

[Eu avisei que tem spoilers]

A série não perde tempo algum para dizer exatamente a que veio: Uma história nova, sobre uma época nova, trazendo um pouco mais de esperteza a um mundo de fantasia sem pé nem cabeça, e até dando aquela piscada para o público na hora de reconhecer o fato. 

Escrita pelo adulto orgulhosamente menos adulto de Hollywood, Kevin Smith, Mestres do Universo - Salvando Eternia quer fazer uma série de coisas que estão repletas do alerta isso vai irritar “fãs”. Mas funciona porque, acima de tudo, quer também abraçar estes fãs e divertir a todos com a mesma despretensão das manhãs infantis dos anos 90.

“I need a Hero!”

O reino de Eternia está celebrando a promoção de Teela, quando Esqueleto finalmente consegue o que passou os anos 80 e alguns spin-offs tentando: invadir o Castelo de Greyskull, revelando assim todos os seus segredos. Com uma artimanha digna da Sessão da Tarde, a Feiticeira é enganada, e uma batalha se inicia. Tudo termina com a destruição da ordem mágica do universo e a ida de He-Man para o Paraíso, e Esqueleto para o Inferno.

Os outros episódios disponibilizados pela Netflix seguem Teela, anos depois, agora vivendo como mercenária numa Eternia que sofre um tipo de "desbalance climático” por conta da magia ter-se esvaído. Sentindo-se traída com a revelação que seu melhor amigo, Príncipe Adam era, na verdade, o guerreiro hipertrofiado, ela decidiu deixar aquela vida para trás.

A série tem muito pouco disso. (Imagem - Netflix - via IMDB).

Mas herói é herói, e o destino vem pegar no pé dela. Há uma maneira de recuperar a mágica do universo, e isso é necessário para evitar uma tragédia maior. Relutante, ela parte em busca das metades da Espada de Greyskull com uma série de antigos amigos (e inimigos).

Maligna, Homem-Fera, Gorpo, Mentor, Roboto e a novata Andra partem em busca de salvar o mundo (e o Universo), numa aventura repleta de referências, ação e cosmologia eterniana. Ainda sobra espaço para uma conversa sincera sobre memória, sentimentos, o valor próprio e porque confiar em homens narcisistas sempre acaba com a vida das mulheres. 

Eternia avançou. O Planeta Terra, nem tanto.

Um cidadão do calibre de Kevin Smith, diretor de clássicos cult como O Balconista, Dogma e Procura-se Amy, não é o tipo de pessoa que jogaria fora uma oportunidade como esta. Ao mesmo tempo em que revitaliza uma paixão da infância de milhões de nerds marmanjos, cutuca e provoca os mesmos pela ousadia de deixar uma história muito melhor.

He-Man e Os Mestres do Universo - a animação oitentista - ainda está lá, com toda sua pompa, glória e sunga peluda. Criada para uma época, um público, e uma razão específica (deixe-me checar os autos… foi para vender bonequinhos), era um desenho bizarro, onde muito pouco fazia sentido. Ninguém jamais pensaria em defender a "pujança literária” da série.

Ao invés de manter o ícone muito macho da fantasia de poder físico do infante de 40 anos, Kevin Smith conta a história de uma mulher muito fula da vida com todos à sua volta. Ela não está somente à procura de um lugar para si no mundo, mas também de um lugar para sua própria memória.

E tem menos ainda disso. (Imagem - Netflix - via IMDB).

E a trajetória daquela que era, até agora, em todas as versões, nada mais que uma coadjuvante, dá peso emocional e uma energia completamente imprevisível em uma meio desnecessária nova adaptação de He-Man.

Era de se prever que muitos dos fãs iriam ficar irritadíssimos com a decisão? Era. Temos como levá-los a sério? Jamais. 

Elenco explosivo, final bombástico

Ainda mais quando Kevin Smith juntou um elenco inacreditável para dar voz aos personagens.

  • Sarah Michelle Gellar (a Buffy!) como Teela;
  • Mark Hammil (Luke Skywalker e discutivelmente o melhor Coringa) como Esqueleto;
  • Lena Headey (a Rainha Cersei de Game of Thrones) como Malévola;
  • Kevin Conroy (indiscutivelmente, o melhor Batman) como Aquático;
  • Dennis Haysbert (o presidente Palmer de 24 Horas) como Greyskull;
  • Henry Rollins (como é que é?) como Tríclope;
  • Liam Cunningham (Sor Davos em Game of Thrones) como Mentor.

E mais um monte de gente talentosa e divertida que só faz a série melhorar. Há um prazer quase perverso em ouvir Mark Hammil se divertindo por trás do microfone falando cafonices enquanto o Esqueleto tenta outro plano mirabolante para dominar Greyskull.

A Netflix está dando passos corajosos e firmes na direção de se tornar um celeiro sólido de animação. Depois de alguns longas poderosos e quatro temporadas magníficas do Castlevania de Warren Ellis, descobriu que dar liberdade criativa e os brinquedos favoritos a grandes nomes do roteiro gera retorno. 

O final da primeira parte da animação destrói mais alguns sacramentos e promete uma parte II cheia de risadas malignas.

Mas nada como mostrar para os fãs que está tudo bem torcer por uma mulher. 

Escrevo este texto poucas horas depois que Rayssa Leal levou a medalha de prata nos jogos olímpicos de Tokyo 2020(1). E isso só traz a certeza que precisamos mesmo de mais heroínas na nossa vida.

E menos marmanjos reclamando porque tem um ícone másculo com cabelo de cuia a menos no hall de novidades da Netflix.

Imagem de capa - Netflix - via IMDB)


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