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Lupin - A vingança do homem invisível

Lupin - A vingança do homem invisível

Reprodução / Netflix

Platão propôs, em sua República, o problema de que se alguém se tornasse realmente invisível, seria impossível que essa pessoa permanecesse do lado correto da lei. Se tornaria alguém mau, tendo liberdade para cometer crimes e escapar com impunidade. 

É o pensamento por trás de quase todas as versões dessa fantasia, cujo ápice foi o livro O Homem Invisível, que H.G. Wells publicou em 1897. A história, assim como todas as adaptações, falam da tentação que o imenso poder do anonimato e a impunidade trazem. Mas ainda é uma condição seletiva, poucas vezes sendo a invisibilidade uma condição imposta.

O primeiro grande sucesso no mundo das telas de 2020 fala da invisibilidade sob outro ponto de vista. Uma invisibilidade inevitável e indesejada, que entorta a vida do protagonista de tal forma que sua única resposta é usar essa maldição para não só, de certo modo, se vingar de quem criou essa situação. Mas para redesenhar sua imagem como bem entender. Se alguém não tem substância, aos olhos dos outros, também não tem personalidade, e o que o protagonista de Lupin faz é decidir exatamente quem quer ser, como quer ser. E enquanto isso, fazer justiça usando as próprias mãos, o cérebro e o charme.

Lupin 2021

A série estreou no começo de 2021 e foi um sucesso no mundo todo, precisando só de três dias para atingir o Top 3 da audiência do Netflix estadunidense. Conta a história de Assane Diop, o filho de um imigrante senegalês que cresceu à sombra da prisão injusta de seu pai, que acabou se matando na prisão. Diop é um ladrão profissional, e tem a missão de descobrir o que realmente aconteceu com o seu pai, e se possível limpar o nome dele. 

Para sua linha de profissão, Diop se inspira no célebre personagem da literatura francesa, Arséne Lupin, o ladrão de casaca, criado no começo do século XX por Maurice Leblanc. A exemplo de Lupin, Diop usa a enganação, os disfarces, o planejamento impecável e muito jogo de cintura para realizar roubos, na tentativa não só de tirar dos ricos para dar a si mesmo, mas também de desmontar um esquema de corrupção que foi responsável por torná-lo um órfão.

O seriado começa e termina na escalação de Omar Sy para o papel principal. O ator francês, famoso por seu papel em Intocáveis, de 2011, torna praticamente impossível que alguém tenha alguma percepção negativa da série. Sy transborda carisma e empatia, de maneira que mesmo antes de aprendermos sobre as injustiças que o transformaram numa espécie elegante de justiceiro, nós já estamos do lado dele.

Todo heist movie precisa ter protagonistas que convençam o público que, apesar de serem ladrões, estão roubando ou por uma boa causa, ou por serem tão charmosos que não importa muito. É só entretenimento. O Diop de Omar Sy certamente cumpre a segunda missão, mas quando falamos sobre a primeira é que Lupin se torna mais do que um thriller muito bem feito.

Reprodução / Netflix

Invisibilidade

Arséne Lupin é, nos livros de Leblanc, um mestre dos disfarces. E apesar de Diop não deixar de lado todo o aspecto de máscaras, maquiagem e subterfúgio, sua maestria principal está no quanto, simplesmente, ninguém presta atenção nele. É até meio contraintuitivo que alguém com o porte físico de Omar Sy esteja interpretando um especialista em “sumir na multidão”, mas isso acaba fortalecendo este aspecto da série.

A França, como qualquer país europeu que se preze, tem um passado complicado quando o assunto é colonialismo e escravidão. A imigração africana para países europeus, em especial países francófonos, foi uma constante comum na maior parte do século passado. A sociedade contemporânea francesa que resulta disso é a mesma que vemos de perto deste lado do atlântico: desejos segregacionais despertando aqui e ali, opressão, racismo. Em 2016, um estudo mostrou que pelo menos 8% dos franceses acreditam que algumas etnias humanas são superiores à outras. 

Tanto Omar Sy quanto seu personagem são filhos de imigrantes senegaleses. Não demora nada para que a série mostre, tanto na vida de Diop quanto nos flashbacks que narram a vida de seu pai, exatamente que tipo de cidadão a classe média-alta francesa acha que eles são. Seu pai era o motorista de um rico e poderoso empresário, e é este empresário que o incrimina e o manda para a prisão.

Se o povo imigrante, negro e africano vai ser visto como uma ferramenta, vai ser sempre, automaticamente, colocado numa caixinha de “subcidadão”, o Lupin do século 21 vai usar isso a seu favor. Assane Diop escapa da maioria das enrascadas em que se mete exatamente porque confia que ninguém vai prestar atenção em alguém como ele. Disfarces, mecânicas complexas dignas de um 11 Homens e um Segredo, isso tudo ajuda. Mas Diop escapa sempre porque sempre vai ter alguém que já o apagou de sua memória, de sua existência. 

O autor americano Ralph Ellison escreveu, em 1952, um romance sobre a saga de um jovem negro enfrentando (entre outras coisas) o apagamento de si próprio perante uma sociedade que se recusa a enxergá-lo. O nome do livro é Homem Invisível, e é mais uma das inúmeras narrativas que ponderam sobre o mal que uma sociedade pode criar quando desumanizam um ser humano a ponto de torná-lo transparente.

Lupin é uma série cujo único pecado real é ser tão divertida e pausar seus episódios diante daquele cliffhanger. E entre suas várias vantagens, como as tiradas engraçadas, a direção enxuta e a atuação quase musical de Omar Sy, temos uma visão quase cômica sobre o racismo. A série fala sobre o racismo francês, mas dá para encaixar em tudo quanto é lugar.

É quase cômico porque ver Diop enganar um personagem que chega ao ponto de expressar uma leve saudade “dos tempos das colônias africanas” dá um certo prazer cármico, de ver alguém ruim se dar mal. Mas por mais que seja com Diop que a narrativa nos enamore, não podemos nos enganar. Não somos nós, maior parte do público alvo da série, os invisíveis. A maioria de nós, sustentando preconceitos antigos mesmo sem perceber, investe fundo em apagar faixas inteiras da vida humana.

Lupin nos lembra que todos nós quebramos. Mas só uma parte da nossa sociedade é obrigada a viver como se fosse de vidro.

 

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