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Hackers - Piratas de Computador - Um banho de anos 90

Hackers - Piratas de Computador - Um banho de anos 90

Você lembra dos anos 90? Esqueceu? Quem culparia você. Numa era onde muitos filmes não eram lá tão sérios, mesmo quando falavam de coisas complexas, foi lançado um clássico cult de uma juventude rebelde que sabia programar e se divertir com patins, intrigas e pouca responsabilidade.


 

Ameaças digitais estão em tudo quanto é lugar. 

Nas semanas recentes, ataques a companhias gigantes, sequestro de informação  e prisões se uniram ao tradicional caos da internet em mais um capítulo na saga do mundo real sobre hackers.

Enquanto empresas de segurança discutem medidas cada vez mais ousadas para proteger o lado virtual de pessoas e negócios, o mundo continua à espera do próximo vazamento de dados ou perigo que a internet pode trazer à porta de quem, às vezes, só quer pagar suas contas e assistir uma série. 

É interessante observar o choque de realidade que notícias como essas nos causam. Hackers se tornaram estereótipos da nossa cultura, a ponto de você poder descrever, mais ou menos, o visual de um pirata da internet como alguém jovem, extremamente inteligente, que ama contracultura, usa um capuz, traversa a cultura nerd como ninguém e está constantemente numa luta contra “o Sistema” - mesmo que não consiga definir exatamente o que é “o Sistema”. 

Mas este é o clichê. Muitas vezes a cultura pop traduz isso com mais proximidade à realidade, muitas vezes não. Filmes, séries e games dialogam com a temática do “Robin Hood cibernético", colocando uma aura de heroísmo em volta das habilidades surpreendentes de alguém que, muitas vezes, é apenas muito bom em enganar os outros pelo telefone para conseguir uma senha.

No ano de 1995 foi lançado um destes artefatos culturais, um que não fez muito barulho na época. Inacreditavelmente datado, é um filme sobre - exatamente - um grupo de jovens descolados, hiperinteligentes, que tem poder (e tempo livre) demais nas mãos. 

Você lembra de Hackers - Piratas de Computador?

RADICAL, cara! (Imagem - Divulgação/Metro-Goldyn-Mayer Studios via IMDB)

Um Jonny Lee Miller no início de carreira interpreta Dade, um jovem que acabou de terminar sua sentença de “ficar longe de computadores até ser maior de idade”. Aos 11 anos ele hackeou um monte de sistemas, causando bilhões em prejuízo, e agora quer tirar o atraso. Ao chegar numa nova cidade, num novo colégio, encontra um time de hackers, todos nerds desajustados com muitos hormônios e teclados descontrolados.

Ajudado por uma sensual colega de classe (um dos primeiros papéis de destaque de Angelina Jolie, na época ainda conhecida só como “a filha do Jon Voight”) e seus amigos amalucados (interpretados por Laurence Mason, Matthew Lillard e outros), Dade acaba envolvido num esquema de traição e mentiras virtuais que é mais complicado que o filme exigia.

O gerente de segurança online de uma mega corporação, que nas horas vagas é o hacker de codinome The Plague (o vencedor do Oscar Fisher Stevens), tem um esqueminha de roubo e lavagem de dinheiro. E ele cria um vírus capaz de afundar navios petroleiros, para incriminar nosso grupo de hackers heróis, só para desviar a atenção do FBI e… De um grupo policial que, bizarramente, chama a si mesmo de “Serviço Secreto”. 

(Ironicamente, FIsher Stevens não recebeu um Oscar por atuação,mas sim por co-dirigir um documentário sobre proteção a golfinhos!)

Os protagonistas têm que então desvendar o mistério, desfazer a mutreta, salvar o mundo de um terrível acidente ecológico e limpar seus próprios nomes.

É um filme cheio de boas intenções (para os anos 90). Mas a narrativa do filme é confusa e inconstante. Não só elementos de tramas que se misturam sem muito objetivo, mas momentos onde você não sabe se algo proposto por um personagem é uma mentira, um blefe ou realidade. 

Os atores, quase todos em começo de carreira e longe do que seriam anos depois, parecem estar se divertindo com as situações. Este é um filme daqueles tão anos 90 que a ideia de usar roller blades era considerada legal demais, cara! Angelina Jolie, inclusive, acusa este filme por ter virado um ícone de “bad girl sensual, que anda armada, mas sem sutiã”, mesmo que, indiretamente, este caminho fosse levar ela ao sucesso (e quem sabe ao seu único Oscar, 4 anos depois com Garota Interrompida).

O mais curioso é observar como o filme pinta a figura do hacker e da contracultura. O próprio Lee Miller, no ano seguinte, estaria num dos maiores marcos do cinema subversivo, com o clássico Trainspotting, de Danny Boyle, que é outro retrato de uma juventude noventista que se achava preparada para uma década de marasmo para uma faixa etária resignada e entediada. Evolução que resultaria, anos depois, em Clube da Luta (e naturalmente deixaria de existir na cultura pop depois do 11 de setembro).

Mas a contracultura em Hackers não é exatamente sombria e degradada. Ela ainda é periférica, mas é colorida e alegremente inclusiva, recusando o “Sistema” de um jeito mais “videogamer”, ao mesmo tempo que abraça (com um ou outro tranco e barranco) até mesmo elementos queer.

O que sempre vimos em outros filmes, séries e games permanece o mesmo aqui. Hackers seriam super-heróis, capazes de feitos incríveis, mas neste filme eles só querem se divertir, pregar peças e roubar informação sensível, mas só de gente má. 

O filme atingiu um status cult, quer seja por ser uma das aparições centrais da carreira de uma das maiores atrizes de Hollywood, seja pela tosqueira cômica ou a nostalgia vibrante. E talvez por lembrar uma época onde a ideia do hacker era muito mais divertida e inocente.

Queremos acreditar que um jovem inteligente é capaz de mudar o mundo para o bem. Não é à toa que filmes de super-heróis continuam dando dinheiro (embora o marketing ajude bastante também). Mas acordamos e mudamos de visão quando conseguimos enxergar que hackers não são personagens da ficção, são terrivelmente humanos, podendo ser bastante perigosos.

O idealismo de “uns poucos contra o Sistema” inspira, mas quando temos criminosos virtuais à procura de nada mais que dinheiro, ou dados sensíveis, ou até mesmo poder político para empregadores ainda mais obscuros, o colorido de um filme desses dá lugar ao mundo cinza das ameaças virtuais. 

Não que precisemos esquecê-lo. A canastrice de Fisher Stevens e a cena em que ele “rouba um disquete” de Dade é suficiente para manter este filme num lugar na nossa memória, sempre que quisermos lembrar de um mundo muito mais simples e cômico, onde a pirataria cibernética causava mais risadas do que qualquer outra coisa.

Imagem da Capa - Divulgação/Metro-Goldyn-Mayer Studios via IMDB

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