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Falcão e o Soldado Invernal - Herói novo, problemas velhos

Falcão e o Soldado Invernal - Herói novo, problemas velhos

Uma série que aborda assuntos complicados, e com uma entrega ainda mais complicada. Falcão e o Soldado Invernal atinge seus objetivos de ser mais um sucesso do Disney+, dando continuidade à história de personagens queridos. Mas na hora de construir algo com sua própria voz, escorrega em suas complexidades temáticas. 


Este texto contém spoilers da temporada inteira de Falcão e o Soldado Invernal

Aconteceu uma coisa meio imprevisível em 2018 e a cultura pop mudou, talvez para sempre - se formos bem otimistas.

Uma empresa estadunidense de entretenimento, a maior do mundo, criou uma obra cinematográfica onde 95% do elenco principal é negro. Onde questões históricas de racismo e colonialismo são discutidas abertamente, dando nome aos bois, sem nem o benefício das metáforas que já tinham aparecido um ano antes (em Thor Ragnarok). 

Uma obra subversiva o suficiente para que muita gente saísse do cinema achando que o vilão - um terrorista assassino - estava certo. 

Que Pantera Negra fosse o arrasa quarteirões estrondoso que acabou sendo, só alguns executivos antiquados duvidavam (“Ninguém irá assistir a um filme de herói só com gente negra”). Que a Disney seria a realizadora de um filme que - mesmo seguindo à risca o formato consagrado de “filme de super-herói” -  contém um discurso controverso tão bem implementado à trama que muita gente nem percebe, poucos imaginavam.

Discutir questões históricas e cabeludas como racismo sistêmico dentro de um veículo como “Heróis da Marvel” é uma tarefa complexa. Usar “o gênero” - no sentido de uma obra narrativa que não seja drama ou comédia - sempre foi efetivo para conversar sobre as periferias éticas e sobre as emoções da humanidade. 

Até porque no horror, na ação, no suspense e no sci-fi temos a oportunidade de experimentar emoções extremas como medo, raiva, maravilhamento, ou simplesmente ter um distanciamento da realidade que nos dê espaço para pensar.

Corra, de Jordan Peele fez isso muito bem, assim como filmes de zumbi antes dele, entre muitos outros.

Falcão e o Soldado Invernal tinha uma tarefa difícil.

WandaVision acabara de ser um baita sucesso como a primeira empreitada do MCU nas telinhas (do mundo todo). A missão era continuar forçando os fãs a consumirem mais conteúdo Disney+, enquanto a pandemia não acaba, usando personagens secundários. Não só isso, mas aproveitar a linguagem da TV - muito mais permissiva quanto a ousadias que o cinema nem sempre aceita (como WandaVision fez, com um grau inconstante de sucesso).

Leia nossa crítica de WandaVision clicando aqui!

Wilson e Barnes no meio do esporte favorito deles: encaração olímpica (Foto - Divulgação)

Sam Wilson (Anthony Mackie) e Bucky Barnes (Sebastian Stan) estão de volta, agora se acostumando a um mundo sem Capitão América. O amigo próximo dos dois se foi, mas os problemas de um mundo em caos não foram embora com ele. 

O que foi narrado em Vingadores - Guerra Infinita e em Vingadores - Ultimato geraram uma crise global insólita, mas muito fácil de reconhecer. Metade do mundo sumiu por cinco anos, de maneira que populações inteiras foram redesenhadas e reajustadas ao longo do tempo. E de repente esta metade desaparecida ressurge, e o mundo não tem espaço para todos. O que inicia algo semelhante a uma crise de refugiados ao redor do planeta. 

Uma organização terrorista chamada de “Apátridas”, liderados pela jovem Karli Morgenthau (Erin Kellyman) começou a realizar ataques, tentando criar comoção para uma causa anti-nacionalista, em prol de todas as pessoas que estão sofrendo por serem recusadas em qualquer território. Ninguém quer reaver o monte de pessoas que voltou a existir. Para piorar, os Apátridas foram injetados com o soro do supersoldado, o que os torna muito mais difíceis de combater. 

Tanto o Falcão como o Soldado Invernal vêem nisso uma situação para resolver, mas eles próprios têm problemas internos. Bucky, que passou quase o século XX inteiro como um assassino à serviço de quem mandasse em sua lavagem cerebral, agora que se vê liberto da programação tem todo tipo de dor psicológica e crise de consciência. 

Já o problema interno de Wilson é mais “externo”. Sumido por cinco anos, voltou à vida e encontrou uma nação quebrada e que não conseguiu resolver nem os embates sociais antigos, quanto mais os novos. Sua família está à beira da falência, e seu respeito por Steve Rogers (assim como uma noção de como as coisas funcionam nos EUA) o faz desistir do escudo e da posição de Capitão América. 

Não melhora muito que o governo americano vê isso como uma oportunidade para nomear um Capitão América mais “apropriado”, mais “funcional”... E mais loiro e branco. John Walker (Wyatt Russel) é um veterano do exército que recebeu alegremente o manto do Capitão América. Porém, é alguém que tem uma relação bem menos ética com “autoridade e poder” do que seu antecessor tinha. 

Adicione lutas e perseguições ao redor do mundo, participações surpresas de uma certa guarda palaciana wakandiana e temos uma série cheia de intrigas e ação. E a ação é surpreendente! Nem mesmo em WandaVision os valores de produção foram tão altos. A perseguição no primeiro episódio e a sequência do resgate aéreo no último não devem nada às cenas  de ação da tela grande.

Mas, a exemplo de também muitos projetos no cinema, Falcão e Soldado Invernal escorrega na hora de manter sua coerência narrativa, na hora de escolher no que focar, e na hora de ser claro quando diz alguma coisa.

A condução dos temas é cheia de revezes incoerentes. John Walker é, por vezes, um homem com medo do cargo enorme que precisa ocupar, por outras, um psicopata com sede de sangue. Mas a série, até os momentos finais, parece não saber onde encaixá-lo. Vilão? Anti-herói em recuperação? A participação dele no episódio final é tão desafinada que é um baita desserviço à entrega completa de Wyatt Russel no papel. 

Erin Kellyman tem uma personagem também complicada, e não no bom sentido. Embora consiga transmitir um carisma e o senso de inocência perdida com eficiência, a série também parece não saber do que chamá-la. Sam Wilson não quer chamá-la de terrorista, mas isso é exatamente o que ela é.

O remorso que Karli demonstra é completamente seletivo, e sem razão alguma de ser, horas dinamitando um prédio cheio de inocentes, hora demonstrando arrependimento, sem vermos porque ela teria mudado de ideia. 

Responsabilidade pesada pra cima de Sam Wilson (Foto - Divulgação)

E há um problema um pouco mais profundo na hora de criticar o racismo nos EUA. 

Uma das mais tocantes surpresas da série é Carl Lumbly. Ele interpreta de maneira poderosa Isaiah Bradley, um veterano negro que vive isolado do mundo em sua casinha. Bucky leva Sam até lá para revelar um segredo terrível: Bradley é mais outro supersoldado que os EUA usaram como agente secreto ao longo do século XX. Mas depois de se mostrar mais preocupado em salvar vidas do que cumprir missões, foi preso e serviu de cobaia por décadas.

Num momento em que Sam Wilson questiona a necessidade e o significado de um Capitão América negro, Bradley, alguém que teve sua posição como Capitão recusada por causa da cor de sua pele lhe diz “Nunca nomearão um Capitão América negro, e mesmo se nomeassem, nenhum negro aceitaria”. 

Mas mesmo assim, no último episódio, lá está Sam Wilson ocupando o cargo, com o uniforme listrado, com um discurso que aborda o ódio e a falta de representatividade ao redor de líderes na hora de tomar decisões importantes. Mas o roteiro parece ter esquecido porque Isaiah Bradley renegou o símbolo: foi porque o símbolo o renegou. 

Porém, a série consegue acertar no que está tentando construir, em especial nesta nova fase “mais pé no chão” que parece estar começando (e que vai continuar com Viúva Negra e Shang-Chi). E faz isso na voz inesperada do Barão Zemo.

Zemo (Daniel Bruhl), sofrendo um pouco de reformulação temática desde sua aparição em Capitão América - Guerra Civil, surge quando Bucky sugere que o vilão poderia ser um “inimigo do meu inimigo”. Enquanto antes ele tinha uma motivação vingativa, agora expõe uma  ideologia completamente anti-heróis. 

Zemo acha que a busca por uma melhora nas capacidades de um humano normal (raios cósmicos, radiação gama, soro do supersoldado) tornam os heróis indistinguíveis de um supremacista. Sua fala ecoa um outro europeu ranzinza que odeia super-heróis, mas este é uma pessoa real.

Alan Moore, grande roteirista dos quadrinhos, já deixou claro inúmeras vezes o quanto detesta o aspecto que chama de “fantasia de poder de homens brancos” nos quadrinhos de super-heróis americanos.

E quando encontra várias ampolas com o soro poderoso, Zemo mantém sua coerência e destrói todos, ao invés de se injetar e tornar-se poderoso. Zemo não vê poder como um fim em si mesmo. E essa coerência, mesmo que num personagem meio periférico (mas muito chamativo) é um tremendo ponto positivo para a série.

A resposta à Zemo é que no final, Sam Wilson se torna alguém que “faz algo para mudar o mundo” sem soro de super soldado. Sem cabelos loiros e olhos azuis também. O faz porque, a exemplo de Steve Rogers, acredita que aquilo é o certo. Sam Wilson é um herói, não um super-herói, e talvez este seja o ponto interessante ao qual a série chega no final.

Alan Moore, é você? (Foto - Divulgação Disney+)

A capacidade de fazer mais não significa a capacidade de fazer o bem. A resolução para os problemas do mundo não vai vir com uma luva mágica, com super-poderes, com um exército de gente forte e maluca.

Os perigos não irão embora afunilando o poder em cima de uma pessoa só (normalmente um homem forte, machão, violento), que concentra em cima de si imensos poderes políticos e econômicos. Os políticos com os quais Sam conversa no final, que tem o poder de salvar milhões de refugiados, não conseguirão acabar com as mazelas do mundo por causa de suas capacidades.

Mas por entenderem quem mais sofre com isso. Por convidarem gente como Karli, como Sam Wilson, como Isaiah Bradley para decidirem o futuro juntos. As pessoas jogadas à periferia da sociedade estão a um passo de responderem ódio por ódio. E Pantera Negra já alertou para o que acontece quando se alimenta crianças com nada além disso.

Falcão e o Soldado Invernal tem muito a dizer, mas é confuso e inconstante. Há mais preocupação em estabelecer conexões com a nostalgia dos quadrinhos (com Madripor ou o capuz roxo de Zemo) do que em olhar para seu próprio discurso e limar as pontas soltas.

Mas não tem como não se sentir feliz com o fato de que milhões de crianças negras vão ter mais um herói para chamarem de modelo. E a recém-anunciada série da Coração de Ferro vai fazer o mesmo para garotas negras. 

É uma ponta de esperança. Quanto mais heróis falarem em nome de um mundo mais unido e com mais empatia, menos vilões teremos no futuro, à procura de uma justiça que pinta o vermelho das bandeiras com o sangue de inocentes.

 

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