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Como escrever melhor sobre cultura pop

Como escrever melhor sobre cultura pop

Um dos maiores prazeres da vida de quem — como nós — ama filmes, séries, música, games, ARTE em geral, é falar sobre isso. Ao escrevermos nossas percepções, não há nada de errado em falar que "tal série é bacana" ou "tal música soa bem". Mas temos um mundo inteiro para mergulhar quando queremos que nossa conversa seja mais profunda.


 

“Não só ele dava conselhos aos cinéfilos sobre o que ver, mas também como pensar sobre o que eles viram.”

Douglas Martin, em seu obituário para o NY Times do grande crítico de cinema Roger Ebert.
 



Sabe quando você vai ver um filme incrível e na saída tudo o que você pensa é “Meu Deus, eu preciso conversar com alguém sobre isso!”?

Esse é o sentimento que leva muita gente a escrever sobre cultura, cinema, arte, música, games, séries, etc. Tem alguma coisa ali que mexeu com sua mente a tal ponto que você  descobriu ter tem muito a dizer sobre aquela obra. Algo foi despertado, e você vai sentar, escrever e publicar. No mínimo, vai gerar uma discussão sobre aquilo que vivenciou. 

Grandes obras de arte são transformadoras, e é por isso que existem algumas indústrias de informação totalmente dedicadas a falar sobre arte. São ensaístas, críticos, colunistas, pessoas que estudam narrativa, linguagem, design, só para conseguir reconhecer e dialogar sobre os artefatos culturais que encontram por aí. 

Não o que é, mas o que faz

Mas nós sempre começamos de uma maneira muito “simples”.

Sempre queremos falar das coisas mais superficiais logo de início — e é perfeitamente lógico que façamos isso. Afinal, não só as coisas superficiais estão ali em cima, onde é fácil enxergar, como elas fazem parte da obra. Não podemos esquecer que as qualidades mais acessíveis de um filme ou de um álbum de música ainda são qualidades próprias daquilo que analisamos. 

Porém, precisamos sempre tentar ir um pouco mais a fundo. E pensando em como escrever melhor, uma das maneiras mais interessantes de conseguir aprofundar nosso pensamento é pensar em ações ao invés de qualidades.

Quando observamos uma obra, começamos a pensar no que ela é, no sentido de quais adjetivos queremos imediatamente usar. 

  • “Este ator tem uma atuação incrível!”
  • “O som desse álbum de rock é bem pesado!”
  • “A trama do livro é muito envolvente.”
  • “A pintura é esteticamente bonita!”

Isso não está errado. Mas quando você quer ir além na sua crítica, é muito proveitoso tentar (e eu digo tentar porque não é uma coisa fácil — requer prática, pesquisa e observação) descrever o que determinada obra ou característica está fazendo.

Porque uma peça de arte não só é. Ela faz. E se você se inspirou com ela, o que quer que ela faça, ela faz com você

Há uma série de perguntas que você pode fazer dentro da sua cabeça quando observar uma série, uma HQ, uma peça de teatro, que podem te ajudar nisso. 

  • Por que quem criou a obra escolheu esta mídia?
  • O que a escolha dessa mídia faz com a mensagem da obra?
  • Quais caminhos a pessoa criadora tomou para completar a obra? 
  • Quais os efeitos de todas essas escolhas no público?
  • O que isso causou em mim? Porque fez com que eu me inspirasse a criticar a obra?

Então você consegue chegar mais perto de, ao invés de determinar se um ator está atuando “bem”, descrever “porque” ele está atuando daquela forma. E o que aquela forma faz, em termos de transmitir a mensagem, atingir o objetivo da obra. 

Dizer que Another Brick on the in the Wall do Pink Floyd é uma música composta com “qualidade”, e que ela é “muito bem tocada” é, convenhamos, fazer muito pouco. Há muito mais para se dizer sobre o que a canção está fazendo.

Aquela série da Netflix sobre o filho de um imigrante senegalês tentando a sorte como um ladrão de casaca no meio de uma metrópole bastante racista é mais do que só divertida. Lupin de fato diz algo sobre racismo de uma maneira bem inteligente. 

A série (também da Netflix) Sweet Tooth é uma adaptação de quadrinhos. E como ela adapta o material original?

Quando você escreve sobre uma peça de arte, só “descrevê-la” é pouco. Você pode usá-la para fazer pessoas pensarem sobre não só ela, mas todos os assuntos que ela toca. 

Quando Roger Ebert “ensinava as pessoas como pensar sobre os filmes que viam”, Ebert não estava ensinando o que pensar.

Mas como.

No final, é o porquê de amarmos esses filmes, séries, desenhos, livros e histórias. E o porquê de querermos saber como escrever melhor.

É para irmos mais longe.

Imagem de capa - Jake Hills - via Unsplash

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