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Crônicas de uma sociedade e seus paradigmas sociais

Crônicas de uma sociedade e seus paradigmas sociais

"Querido leitor, chegou a hora de fazermos as apostas quanto à iminente temporada social"...

 

Bridgerton, a nova série da Netflix, se passa na Inglaterra, mais especificamente em Grosvenor Square. A história é contada através dos olhos e, por que não dizer ouvidos, da infame e desconhecida socialite Lady Whistledown. Na série, a personagem é narrada pela nossa eterna Maria de “A Noviça Rebelde”, Julie Andrews.

Inspirado na série de nove livros escrita por Julia Quinn, a primeira temporada de Bridgerton se baseia no primeiro livro da autora, lançado há mais de 20 anos atrás. “O Duque e eu” conta a história de Daphne Bridgerton e Simon Basset, também conhecido como o Duque de Hastings.

Adaptações literárias são sempre polêmicas e conturbadas, com fãs analisando minunciosamente cada detalhe. No entanto, Bridgerton, aparentemente, passou calmamente pelos olhos dos críticos mais ferrenhos. Produzida por Shonda Rhimes, a série realizou mudanças certeiras que balançaram as estruturas dos paradigmas sociais.

Escritora e produtora de séries televisivas famosas, como Grey’s Anatomy, How to Get Away With Murder e Scandal, Shonda Rhimes pode ser definida em apenas uma única palavra: representatividade. Seja feminina ou negra, a autora sempre fez questão de dar voz àqueles historicamente calados pela sociedade.

[A partir deste ponto, pode conter spoilers]

Um grito feminista

Ambientado no início do século 19, Bridgerton começa com sua personagem principal, Daphne, se preparando para sua apresentação à sociedade. No entanto, não estamos falando das tradicionais festas de 15 anos, mas sim de bailes que anunciam a disponibilidade das jovens para contrair matrimônio.

O papel da mulher perante a sociedade é um tema constantemente abordado e debatido. Em certo momento, Daphne, diz ao irmão: “você não tem ideia do que é ser uma mulher. Como é sentir que sua vida toda é reduzida a um momento. Foi para isso que fui criada. Isso é tudo que sou. É meu único valor.”

O descontentamento com o papel feminino, não é exclusividade da protagonista. Eloise, sua irmã, também questiona o motivo pelo qual mulheres não podem exercer papéis sociais diferentes do de mãe e dona de casa: “Quero uma vida diferente, Benedict. Acredito piamente que sou capaz de muito mais, mesmo não tendo permissão para isso.”

De forma discreta, a série critica a romantização do papel feminino em obras de época, onde conquistar um homem e formar uma família era a maior realização da vida de uma mulher.

Daphne está apaixonada. Ela considera isso uma proeza? É um feito grandioso? Ela não fabricou aquele homem.

Em outro momento, Simon Basset dispensa o dote oferecido pela família da esposa na ocasião de seu casamento, dizendo que não aceitaria ser pago para se casar e que se tratava de “um costume ofensivo”.

Unidos pelas diferenças

A série retrata uma sociedade que, apesar de machista, não reproduz ou alimenta preconceitos relacionados à raça. O enredo mostra que essa quebra de preconceitos ocorreu quando a rainha Charlotte, interpretada por Golda Rosheuvel, subiu ao trono.

De acordo com matéria veiculada pela BBC, Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, casada com George III, possuía linhagem africana. Este fato foi apontado pelo historiador Mario de Valdes y Cocom, no programa Frontline.

Ainda assim, a Inglaterra aboliu a escravidão no ano de 1833, enquanto Bridgerton idealiza uma sociedade multirracial em 1813, vinte anos antes da abolição realmente ocorrer no país. A série retrata um passado utópico através da arte, fazendo assim uma crítica ao presente.

Adjoa Andoh como Landy Danbury e Regé-Jean Page como Simon Basset - Reprodução/Netflix

No programa da Netflix, Lady Danbury, membro da alta sociedade, em uma conversa com Simon Basset, fala: “Éramos duas sociedades separadas, divididas pela cor, até um rei se apaixonar por uma de nós”. A Inglaterra criada por Julia Quinn e aprimorada por Shonda Rhimes, abraça diversas etnias, sendo que estas circulam em diferentes níveis e escalões da sociedade inglesa.

Um pouco de Pop dentro do Clássico

Porém, se engana quem acha que as críticas param por aí. De forma sutil, Bridgerton transformou o ritmo pop “thank u, next”, de Ariana Grande, em uma trilha sonora clássica e digna de 1813. Nesta lista, também entrou “Girls Like you”, do Marron 5, e “Wildest Dreams”, da Taylor Swift.

De detalhe em detalhe, a série Bridgerton da Netflix, definitivamente não retrata de forma fiel o ambiente criado por Julia Quinn nos livros. No entanto, por se tratar de uma série escrita há mais de 20 anos atrás, as mudanças realizadas foram não só pertinentes, como atuais e necessárias.

 

Cordialmente, Lady Whistledown

 

Foi confirmada pela Netflix, no dia 21 de janeiro, a segunda temporada de Bridgerton.

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