Clubhouse: de podcast à boteco virtual

Clubhouse: de podcast à boteco virtual
Avaliado em $100 milhões de dólares, o Clubhouse é a mais nova rede social do momento. O aplicativo sofreu um aumento, de dezembro à fevereiro de 2021, de aproximadamente 100% do seu número de usuários. Usando como recurso único o áudio, o aplicativo promove a conversa, possibilitando que as pessoas promovam rodas de bate-papo que variam do entretenimento até trocas profundas de conhecimento.

Entre e sinta-se em casa. Puxe uma cadeira, sente-se e me diga, sobre o que você quer conversar? Com nome de filme de comédia americana, o Clubhouse está longe de ser uma piada. Há quem diga que se trata de um podcast, outros de mais uma rede social.

Lançado em março de 2020 por Rohan Seth, ex-funcionário da empresa Google, e Paul Davidson, empresário baseado no Vale do Silício, a nova rede social teve um aumento – na primeira semana de fevereiro de 2021 no Brasil – de 4.900% nas buscas por seu nome. Em dezembro, o Clubhouse contava com 600 mil usuários e atualmente possuí mais de 6 milhões.

A ideia surgiu por volta de janeiro de 2020, mas o aplicativo só entrou em ação quando a pandemia de Coronavírus já havia se tornado capa de todos os noticiários ao redor do mundo. Ao contrário de seus concorrentes, que utilizam recursos como foto e vídeo, tendo a escrita como sua base, a rede social do momento utiliza apenas um: o áudio.  

Clubhouse e suas etapas de implementação

Nana Maia, cineasta e embaixadora do Clubhouse no Brasil, conta que a implementação do aplicativo foi feita em fases. Em um primeiro momento, a nova rede social foi disponibilizada apenas para um grupo pequeno de pessoas, aproximadamente 1.000 (mil). Após o primeiro mês de testes, esta foi aberta a um grupo maior, que incluía investidores como a empresa a16z (Andreessen Horowitz).

De acordo com a representante do Clubhouse no Brasil, quando o aplicativo abriu as portas para possíveis investidores, logo tomou os noticiários locais. No entanto, as manchetes não eram muito favoráveis. “No início foi a maior polêmica, imagina que as notícias eram sobre um aplicativo avaliado em $100 milhões de dólares, mas aberto apenas para Tech Bros”, conta Nana.

Assim sendo, as críticas giraram ao redor do fato do Clubhouse, um aplicativo que, na época, possuía apenas 1.500 usuários, ter sido avaliado em $100 milhões de dólares, no meio de uma pandemia, e receber um investimento inicial de $12 milhões pela a16z.

A pergunta que aflorou no país foi: “como um aplicativo com apenas 1.500 pessoas, recebe um investimento de $12 milhões de dólares, sendo que o mundo está passando por uma crise de saúde que, inevitavelmente, comprometeu milhares de empregos?”.

No vocabulário do Vale do Silício, a gíria ‘Tech Bros’ faz menção a homens brancos pertencentes a elite do tech. Assim sendo, críticas ao redor dos EUA surgiram e levantaram questionamentos sobre inclusão e diversidade de pessoas dentro do universo tech.

No entanto, o que a mídia e o público não sabiam, era que por trás do investimento realizado pela a16z estava Chris Lyons e Naithan Jones, que já haviam sugerido a diversificação de investidores dentro do Clubhouse. “Eu fiquei sabendo, pois o Nait (Naithan Jones) me mandou mensagem naquela mesma época, mas o que não foi dito para a imprensa é que eles já estavam tendo esse cuidado, pois eles viram que essa plataforma teria uma chance de fazer e ser diferente”, conta a cineasta.

O fato de existir ali um time de investidores que celebra a diversidade e que de fato pratica a inclusão, fez toda a diferença.” – Nana Maia

Quando o Clubhouse fez aniversário de seis meses, uma nova fase foi iniciada: abertura do aplicativo para mais usuários e a chegada de celebridades, entre elas, Elon Musk, dono da Tesla e da Space X. No Brasil, celebridades como Anitta, Tata Werneck, Preta Gil e Hugo Gloss, também aderiram a nova onda.

Empresas dentro do Clubhouse

Essencialmente falando, o Clubhouse foi feito por pessoas e para pessoas, tendo com objetivo possibilitar, facilitar e incentivar o diálogo, o respeito, a exposição e debate de opiniões, criando uma rede de usuários que acrescentam e complementam os conhecimentos e experiências uns dos outros.

Assim sendo, a nova rede social não permite que empresas ou entidades façam um perfil de usuário para se promoverem. Tendo em vista que as companhias são representadas por pessoa físicas, o aplicativo indica que só sejam feitos perfis de pessoas naturais. No entanto, esta limitação imposta não impede que a empresa participe da rede e das conexões que ocorrem dentro do aplicativo.

Tendo como recurso o áudio, o Clubhouse mostra salas de bate-papo de acordo com os temas e tópicos que atraem o usuário e de acordo com os perfis seguidos por cada um. Além disso, os usuários também podem solicitar a abertura de clubes, sendo que estes podem patrocinar chats e salas de conversa.

No entanto, ao contrário do que muitos pensam, a Clubhouse é uma startup e controlar o registro e atividade de mais de 6 milhões de usuários torna-se uma tarefa quase impalpável para uma empresa pequena e em fase de expansão. E é nessa brecha que muitas entidades, na maioria das vezes por desconhecimento das diretrizes da comunidade, acabam criando perfis de usuários para suas empresas, como é o caso na Tv Cultura.

Foto: divulgação/Assessoria de Imprensa

Recentemente, a emissora emitiu um press release informando ser a primeira empresa televisiva a criar um perfil dentro da nova rede social. No comunicado, a informação é que a emissora, que possuí mais de 60 anos de mercado, patrocina uma sala de bate-papo chamada “Jornal da Cultura”.

De acordo com Nana Maia, criar perfis de usuários para pessoas jurídicas, assim como feito pela Tv Cultura, não é permitido. Porém, como já dito anteriormente, nada impede que funcionários e membros do canal abram um clube chamado “Tv Cultura” e a partir deste realizem encontros, debates e patrocinem salas como a informada no comunicado à imprensa.  

Até o perfeito possui suas imperfeições

Dentre as críticas feitas ao aplicativo, o fato de ter sido desenvolvido, inicialmente, apenas para Android, é sem dúvida a maior reinvindicação dos usuários. Em parceria com a consultoria global Bain & Company, o Google realizou uma pesquisa sobre o impacto social e econômico do Android no Brasil. De acordo com os dados coletados, nove em cada dez smartphones possuí o sistema Android instalado.

Assim sendo, nada mais lógico que entender e rotular aplicativos desenvolvidos apenas para o sistema operacional do iPhone como elitista. No entanto, ao contrário da realidade brasileira, nos EUA – país de origem da grande maioria das redes sociais – mais de 60% da população é adepta do sistema IOS, enquanto apenas 38% fazem uso do Android.

Sobre este assunto, Nick Ellis, Editor Chefe da Vida Celular e fundador da TechTudo, conta que nos EUA o IOS não tem esse rótulo de smartphone de elite. Assim sendo, o fato de aplicativos e redes sociais serem desenvolvidos primeiro para iPhone, não é questão de elitismo, mas sim de praticidade.

“Quando as empresas fazem primeira versão para IOS, não quer dizer que elas estão querendo discriminar os outros, mas porque no mercado americano, faz todo o sentido ter o app para IOS antes”, explica Nick.

Inclusive, Paul Davison e Rohan Seth – criadores do Clubhouse – inauguraram uma sala, que vai ao ar todo domingo as 09:00, no fuso horário de San Francisco, onde tiram dúvidas e apresentam as atualizações sobre o aplicativo. Em uma de suas últimas conferências, os donos da nova rede social informaram que a versão para Android já está sendo desenvolvida.

No entanto, a impossibilidade dos usuários de Android em aderirem à rede social, não é o ponto mais fraco do aplicativo. O calcanhar de aquiles do Clubhouse está na falta de acessibilidade para Pessoas com Deficiência visuais e auditivas (PcD). Nick Ellis conta que o amigo Lucas Radaelli, engenheiro de software no Google, achou a nova atualização do aplicativo melhor, mas ainda não é acessível ao público PcD.

“Ele disse que ia testar e eu respondi que estava atento ao veredito dele. Depois ele contou que tentou criar uma sala, mas não deu muito certo”, conta o editor-chefe da Vida Celular. Segundo ele, por ser uma rede social feita de áudio, não tem nada mais fácil de deixar acessível do que isso, sendo o Clubhouse muito mais simples de ser acessado quando comparado a outras redes sociais. No entanto, o app ainda não possuí uma estrutura mínima que facilite o acesso de Pessoas com Deficiências visuais e auditivas.

 

*Tentamos contato com Lucas Radaelli, mas não tivemos resposta a tempo da divulgação da matéria

Alguém a ser ouvido

Cílios maiores, olhos mais claros, pele perfeita e bochecha rosada. Quando foi a última vez que você publicou uma foto sem filtro? Tay Borges, consultora de imagem e estilo e professora da Belas Artes, contou à revista Boa Forma que ser constante bombardeado por imagens retocadas, faz com que tenhamos como ideal um padrão de beleza inalcançável. “Existe uma demanda atual muito grande por tratamentos estéticos que tragam esse visual Instagram para o real. A própria harmonização facial reflete isso”, conta Tay.

Em meio a uma era onde a aparência é tudo o que conta, surge uma rede social onde a sua aparência física não lhe trará mais seguidores. No aplicativo Clubhouse, a sua roupa, o seu peso e o seu cabelo, não importam. Lá, as pessoas querem ouvir, debater e escutar a sua opinião. No final do dia, quem você é conta mais do que quem você aparenta ser.

Dandara Pagú e Nana Maia - Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Naomi Campbell, modelo inglesa internacionalmente conhecida, também é uma das participantes do Clubhouse. Certa vez, em uma determinada sala na qual participava, a supermodel comentou que um dos motivos que a fizeram se juntar à plataforma, é que em todas as outras redes sociais, as pessoas a olham como alguém a ser visto e não alguém a ser ouvido.

De acordo com Nana Maia, “não tem como ser falso por muito tempo aqui (Clubhouse), não é como em outras redes sociais que você tem alguém que pode te ajudar a editar uma foto e a criar uma persona ou identidade, aqui você vai cativar as pessoas e fazer com que elas de fato queiram te seguir e ir à sua sala em cima de quem você é como pessoa”.

Dandara Pagú, comunicadora digital e idealizadora do bloco Vacas Profanas, conta que possui uma defasagem na escrita e o Clubhouse fez diferença nesse quesito exatamente por ser um lugar onde a oralidade e raciocínio rápido contam. “O Instagram é uma plataforma visual e você tem que estar o tempo todo contando com a ideia dessa beleza meio estranha e isso se perpetua para você ter visibilidade, o que já está saturado. O Clubhouse é novo e só pede que você consiga falar”, conta a digital influencer.


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