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Bo Burnham Inside na Netflix - O filme da era

Bo Burnham Inside na Netflix - O filme da era

Bo Burnham Inside é uma viagem louca pela intimidade de uma pessoa que não está bem. É uma viagem hilária e incrível, e talvez os quase 90 minutos que melhor expressam a prisão onde todos nós estamos presos nesses anos de pandemia. 


 

Todo mundo que entendeu de verdade o contexto e o perigo da pandemia tem, no extremo mínimo, uma coisa em comum. Todos têm registrado na memória cada rachadura, cada falha de tinta, cada mancha e cada imperfeição das paredes de suas casas.

Ficar em casa sem poder sair não é a única coisa que marcará a lembrança desse (muito longo) episódio da nossa existência. Também tem o medo, o pavor existencial de enxergar o tempo passar. Tem a dor de quem perdeu alguém ou de quem foi traumatizado por uma experiência em UTI.

E tem a internet.

Quem inventou a Conexão de Rede entre Computadores não fazia ideia de que estava abrindo uma caixa de Pandora pós-moderna. Porque agora, cada pessoa tem espaço para falar, se expressar, e ser quem ela sempre sonhou, seja isso algo valoroso e digno ou um poço de cinismo, toxicidade, racismo e perversidade. 

Se foi tédio, raiva, angústia, ou um cheque gordo da Netflix o que fez o comediante Bo Burnham juntar tudo acima num especial de comédia para a gigante do Streaming, chamado Bo Burnham Inside, talvez nunca saberemos. Mas as limitações impostas à sua criação (provavelmente por ele mesmo, além da pandemia), de não filmar nada fora de um pequeno estúdio, lotado de equipamentos de som, música e filmagem, certamente fizeram parte do contrato. E do que ele está tentando dizer. 

Um homem. Um quarto. Um monte de fios. (Divulgação/Netflix)

Burnham é jovem, e alcançou sucesso por seus shows de comédia onde ele demonstrava entender que tudo à sua volta podia ser usado para alimentar suas piadas. Suas performances brincam com luz, som, formas e imagens de uma maneira muito distante do que já conhecemos de outros nomes da modalidade, como Seinfeld, Chapelle (e porque não, Chico Anysio!).

Sua linha de piadas, porém, não acompanha exatamente o lado mais “brilhante” e “iluminado” de seus shows, sendo que, a exemplo de um de seus heróis, George Carlin, ele prefere um humor que cutuca a ferida com ferro quente, apontando especialmente para elementos da cultura pop moderna. Além de, ocasionalmente, usar como elemento cômico a descoberta de que, talvez, o problema central do nosso mundo moderno é que todos precisam de terapia.

Outro ponto onde Burnham difere da maioria de seus pares é a música. Ele é um compositor competente, criando melodias chiclete para embalar rimas irônicas e inesperadas. Munido de um piano eletrônico, ele cria músicas que não são para dançar, mas para se perguntar “O que foi que ele disse?”.

Além de poder atuar em filmes recentes, como em Bela Vingança, seu sucesso lhe rendeu a oportunidade de escrever e dirigir um filme. E quem já viu uma de suas apresentações pode achar estranho que o resultado foi o excepcional Oitava Série, lançado em 2018. Um drama cômico, no qual uma garota tem conflitos de ansiedade bem no final de seu ensino fundamental, não é exatamente o que se espera de Burnham. Até você olhar mais de perto.

Burnham sofreu diversos ataques de pânico por conta do estresse causado por seus shows. Quis fazer um filme sobre essas ansiedades e pressões sociais, mas quis distanciar a história de suas próprias memórias. E quis incluir também uma discussão importante sobre o papel das redes sociais na formação de nossos jovens. Mas o faz de maneira humana, honesta e completamente sem julgamentos.

Não dá para dizer que Inside está completamente sem julgamentos. Parte da graça é ver Burnham sendo totalmente sincero sobre nosso estado, de como pessoas precisam da internet não só para se comunicar, mas para encontrar significado na própria humanidade. Ou seja, metade do que ele tem a dizer são críticas sérias, mas hilárias (e musicais) sobre os horrores aos quais nos expomos (e impomos a outros) diariamente toda vez que abrimos um aplicativo social.

O especial todo são esquetes musicais que Burnham realizou praticamente sozinho, através de muita experimentação com luz, projeção, música, som e truques de edição. Quase sempre focando num aspecto único da vida online, desde streamers de videogames até “o instagram da mulher branca moderna”.

“Se eu terminar este especial, significa que eu não preciso mais trabalhar nele, e isso quer dizer que eu tenho somente que viver minha vida, e eu não vou fazer isso, eu não vou terminar este especial. Eu vou trabalhar nele pra sempre, então eu não estou falando com ninguém agora, eu estou falando comigo mesmo.”

E mesmo que em sua cadência e sua entrega, na maior parte das vezes, se mostre enérgica, inventiva, quase um sem fim de piadas, uma atrás da outra, quase transformando Burnham numa animação dos anos 1940, ele deixa claro, diversas vezes, que não está bem. Que nós não estamos bem.

No especial inteiro há talvez somente uma referência indireta ao porque estamos presos dentro de casa. Um verso sobre como o republicano médio anti-vacina acha que o Obama quer vacinar suas crianças e mais nada. Zero palavras acerca da pandemia, o monstro gigante que ocupa pelo menos 40% da mente de todo mundo, enquanto os outros 60% são ocupados por preocupações com a política, o emprego e o que faremos quando pudermos sair de casa. 

E sem mencionar o coronavírus, este filme ser tão expressivo e representativo dessa época amarga se torna um triunfo. Burnham conseguiu observar o que realmente está no centro do trauma. Que o isolamento está nos transformando em vampiros da internet, e que um dia, isso virá cobrar a conta. 

Bo Burnham Inside é tão certeiro que tem grandes chances de envelhecer muito mal. É tão “feito para o momento” que, embora suas piadas possam ainda ter força por conta de seu timing perfeito, sua inventividade de luz e sombras e do fato de que daqui a 2, 5, 10 anos, ainda precisaremos de terapia, o impacto preciso delas vai (felizmente) perder a força.

Este especial de comédia, que não tem nenhuma narrativa central (que seja muito clara), mas que é um espelho de nós mesmos é, talvez, o maior filme da era Covid exatamente pelo que mostra: achávamos que a quarentena significava ficarmos presos e solitários. Mas não.

Estamos todos presos juntos, em celas interconectadas, cujo funcionamento não gera o benefício de um abraço, mas o temor de olhar para o vazio de uma humanidade entediada e afogada no próprio ego.

Bo Burnham Inside é um show de comédia sobre “Olhar para o abismo”, e ter o abismo responder com um like.

(Imagem da capa - Divulgação / Netflix)

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