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A Disney te ensinou errado sobre relacionamentos

A Disney te ensinou errado sobre relacionamentos

Você conhece uma mulher vítima de relacionamento abusivo. Ela está bem ao seu lado, mas você não sabe. Não viu, não ouviu. De acordo com uma notícia publicada na revista Marie Claire, 3 a cada 5 mulheres já sofreram algum tipo de abuso dentro do relacionamento, sendo que 41% dos casos ocorrem em casa.

No entanto, o que muitos não sabem é que o contexto de um relacionamento abusivo não se restringe à violência física, englobando também as chamadas “violências silenciosas”, conhecidas como psicológica, moral e até mesmo patrimonial.

A matéria da revista Marie Claire conta sobre uma campanha de conscientização promovida pela ONG Artemis, que visava mostrar as várias formas de violência que existem dentro de um relacionamento abusivo.

Imagem: Camila Cornelsen/Marie Claire

A psicoterapeuta Anahy D’Amico, autora do livro “O amor não dói”, concedeu uma entrevista à revista Veja onde conta que analisou a forma na qual as mulheres são criadas.  Percebeu que em sua grande maioria, estas são ensinadas ou se baseiam em um modelo onde dependem de um homem e desejam ser salvas por eles. “Muitas não têm bons modelos, ou seja, um repertório saudável sobre relacionamento”, comenta.

A Disney te ensinou errado

Pensar em modelos de relacionamento onde as mulheres dedicam suas vidas a um grande amor ou precisam ser salvas remete de forma quase automática aos filmes da Disney. Qualquer criança amante de desenhos animados já desejou ou até fingiu ser uma personagem dos filmes que protagonizaram a infância da grande maioria nascida, pelo menos, na década de 90.

Houve uma época, não faz muito tempo, na qual para assistir qualquer filme em casa era preciso ter uma fita VHS e um trambolho de 5 kg usado para projetar a imagem em sua TV. Como não existiam milhões de opções, muitas vezes acabávamos vendo as mesmas histórias várias e várias vezes seguidas.

A pequena Sereia, Aladim, A Bela e a Fera e até mesmo A Bela Adormecida e Cinderela, são apenas alguns desses filmes que exibem parâmetros de relacionamentos que, de acordo com Anahy D’Amico, espelham um modelo onde a mulher anseia por ser salva e de preferência por um príncipe encantado.

Imagem: Guada Scribbles/The Female Lead

Por mais encantadores que sejam os filmes estrelados pelas famosas princesas, seu público-alvo não possuí discernimento e muito menos capacidade crítica para analisar o conteúdo e compreender que aquele relacionamento amoroso exibido nas telas das televisões, não correspondem à realidade.

Colocando de forma bem direta, há algo bastante problemático em apresentar a uma criança um filme cuja trama envolve a mocinha ser feita de refém pelo seu sequestrador e ao longo dos dias acabar se apaixonando por ele. Eu poderia estar me referindo ao longa 365 DNI, mas é de ‘Bela e a Fera’ ao qual me refiro. Quase 30 anos separam esses dois filmes e apesar de serem completamente diferentes, e um se tratar de um desenho animado com público infantil e o outro um filme adulto, a problemática central de ambos é a mesma.

Exibido pela plataforma de streaming Netflix, a película traz obstáculos mais acentuados. Mássimo, antes de sequestrar Laura, a persegue e a observa durante anos, alimentando uma obsessão doentia pela protagonista. No filme da Disney, Bela descobre que seu pai está sendo feito refém em um castelo e para salvá-lo, pega seu lugar como prisioneiro da Fera. Fadada a eternidade naquele lugar, Bela chega a presenciar rompantes violentos de raiva que fazem com que esta sinta-se intimidada e amedrontada.

No entanto, com o passar do tempo, tanto Bela quanto Laura deixam de ser cativas e acabam se apaixonando por seus sequestradores. O que ambos os filmes fazem é distorcer o conceito de consentimento e romantizar dois possíveis casos de Síndrome de Estocolmo – uma condição psicológica onde a vítima se apaixona ou desenvolve uma forma de simpatia pelo seu agressor.

Romantizando o inaceitável

Essa romantização de relacionamentos abusivos – lembrando que não necessariamente estamos nos referindo a abusos físicos, mas psicológicos e morais também – é bastante comum na indústria cinematográfica. O filme ‘A Barraca do Beijo’, comédia romântica de sucesso, conta a história de Elle e Noah. Os personagens se conhecem desde a infância, pois as mães de ambos eram muito amigas, sendo que a protagonista desenvolve uma forte amizade por Lee, irmão de Noah.

Na medida que crescem, Elle se apaixona por Noah, mas mantém o sentimento em segredo pelo bem se sua amizade com Lee. No entanto, Noah, que de início trata Elle com uma posição de superioridade e um ar de quase desprezo, ameaça todo e qualquer garoto que demonstre um interesse mínimo por ela sem que a menina nem ao menos suspeite. Elle cresce acreditando não ser capaz de despertar o interesse de ninguém, gerando um sentimento de inferioridade e insegurança não só em relação a sua aparência, mas também com seu corpo.

A saga After, escrita por Anna Todd e posteriormente adaptada ao cinema, também entra nessa lista e é mais uma dentre tantas que romantizam um relacionamento abusivo. No entanto, diferente de 365 DNI e Barraca do Beijo, After mostra de forma mais intensa o abuso psicológico vivido por Tessa em seu relacionamento com Hardin. Ao contrário de outros filmes do gênero, o longa aborda comportamentos vividos diariamente por inúmeras mulheres ao redor do mundo.

Inicialmente, podemos notar como Hardin demonstra um ciúme doentio por Tessa e reclama de forma bastante grosseira de quase tudo o que a protagonista faz, produzindo um sentimento de ineficiência: “nada nunca está suficientemente bom”, “tudo o que eu faço é errado” ou até “nunca faço nada certo”. O rapaz afirma ter sido quebrado pela sociedade e Tessa, agarrada à velha teoria de “no final tudo vai dar certo”, pega para si a missão de consertá-lo.

Esse papel, instituído pela sociedade às mulheres, de salvadoras e cuidadoras de seus parceiros, compactua com um pensamento machista e ultrapassado que coloca a mulher como responsável direto pelos comportamentos de seus companheiros: “se você não me irritar, eu paro de gritar com você”, “ele te traiu, foi buscar na rua o que não tinha em casa”.

No entanto, as séries americanas de televisão também são palco para esta forma de romantização. Gossip Girl, sucesso televisivo inspirado nos livros de mesmo nome, conta a história de um grupo de adolescentes residentes da cidade de Nova York, EUA. Dentre todos os casos amorosos exibidos, o mais chocante é o de Chuck Bass e Blair Waldorf. Assim como Hardin, Chuck precisa manter o “status” de bad boy e se diz quebrado pela sociedade.

Para quem acompanhou a série, deve ter percebido que Chuck estava longe de ser um modelo exemplar de cidadão ou até mesmo de ser humano, visto que era misógino e chegou a assediar diversas mulheres ao longo das temporadas. Não bastando, o ‘playboy’ chegou a oferecer ao tio uma noite de amor com Blair caso o mesmo deixasse de reivindicar posse sobre seu hotel. Porém, neste casal, tanto ele quanto ela eram abusivos.

Maria Luísa Amorim, estudante de 19 anos do curso de Relações Internacionais no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da U-Lisboa, conta que muitos dos filmes e séries que assistiu durante sua adolescência ajudaram a moldar sua visão sobre os relacionamentos. No entanto, ao contrário da grande maioria, Malu – como é carinhosamente conhecida pelos amigos – afirma que a contribuição tem uma perspectiva positiva.

“Por mais que Gossip Girl e a relação de Blair e Chuck – para mim uma das mais abusivas – tivesse aquele glamour todo, sempre morri de medo de acabar assim”, conta. A estudante sabe que sua visão não representa a maioria e relata que muitas amigas se espelham nessas relações e sentem que se não houver “jogo de ciúmes”, a relação não é forte o suficiente.

Malu fala que na época, não sabia que a relação era abusiva, até porque o brilho da série acaba mascarando o quão tóxica e problemática a relação dos dois personagens era. No entanto, conseguia identificar que o sofrimento vivido por ambos, quando comparado às partes boas, era completamente desproporcional. “Essa desproporcionalidade, por mais que eu não necessariamente identificasse como abusiva, me assustava”, explica.

Na maior parte das vezes, ela ficava mais triste do que feliz com ele” – Maria Luísa Amorim sobre Blair e Chuck

A problemática que gira ao redor desse tipo de romantização é muito mais profunda e gera uma discussão muito maior do que somente os tópicos abordados até aqui. O início do relacionamento de Tessa e Hardin é tão turbulento e mesmo assim, ela se agarra a ideia de que no final tudo dará certo e que todo o sofrimento irá valer a pena. Blair e Chuck, assim como outros personagens ao longo da história do cinema, trazem essa mesma problemática e Modus Operandi: começo difícil e um final feliz.

Apesar de ter muito sentimento envolvido e todos, sem exceção, se gostarem de forma ardente, as consequências psicológicas que esse tipo de relacionamento traz para a vida dos envolvidos, não está estampado em nenhum cartaz hollywoodiano.

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