Então… mulher escreve?

Então… mulher escreve?

Imagem: Adriana Rodrigues

Acho que toda mulher que é, ou pelo menos anseia, ser escritora, já se deparou com situações nas quais as pessoas ficavam surpresas por você ter material pronto, ou, no caso das mulheres que possuem algo publicado, por terem sido publicadas. De fato, as pessoas não acreditam no potencial que as mulheres têm de escreverem grandes histórias, de produzirem algum tipo de conteúdo.

Além disso, dificilmente as pessoas leem um livro escrito por uma mulher se puderem escolher um que foi feito por um homem.

Você se lembra do nome de todas as escritoras que você já leu? Quantas você leu neste ano? Quantas histórias escritas por mulheres você leu porque quis, e não por demanda da faculdade/escola? Quando você vai a uma livraria, você sempre compra livros feitos por mulheres, ou por homens?

Se você tem duas opções, um livro escrito por uma mulher, e um por um homem, qual você escolhe? As respostas para essas perguntas acabam sendo fáceis. A maioria, com certeza, perceberá que acaba preterindo livros escritos por mulheres em detrimento de qualquer livro escrito por homem. Mas, o que leva a isso?

Mulheres nunca foram encorajadas a produzirem qualquer tipo de arte. Durante muitos e muitos anos, nem a ler a mulher era ensinada - e, ainda hoje, em algumas partes do mundo, isso ainda acontece. 

Antigamente, mulheres nobres é que iam para a escola e tinham algum tipo de instrução, que mesmo assim era limitadora. A pouca literatura que mulheres às vezes conseguiam produzir, era a famosa “água com açúcar”, romances rasos, e que não lucravam nada e nem eram amplamente divulgados como os dos homens.

Esse também era o tipo de literatura que era permitido que mulheres tivessem acesso, pois não acreditavam que as mulheres tivessem capacidade de entender algo mais elaborado, e também diziam que a mulher não poderia ler tais coisas, ou “viraria” um homem. Além do mais, os livros que as mulheres eram permitidas a ler eram aqueles rejeitados pelos eruditos da época, tidos como de segunda mão, inferiores e de baixa qualidade. Ou seja, do ponto de vista deles, perfeitos para as mulheres.

Então, algumas mulheres arriscaram escrever e publicar livros que chocaram a sociedade na época em que foram publicados. As irmãs Brontë (Anne, Charlotte e Emily Brontë), por exemplo, escreveram romances fantásticos, como “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, mas os publicaram com pseudônimos masculinos, pois, caso contrário, não seriam publicadas. Também era dado ao irmão delas, Patrick Branwell Brontë, a autoria de seus livros, principalmente de “O Morro dos Ventos Uivantes”.

Como sempre, mulheres são desacreditadas de todas as maneiras.

Clarice Lispector, fantástica escritora brasileira, de origem ucraniana, escrevia de maneira neutra, com um eu-lírico neutro, pendendo para o masculino, para que as pessoas lessem o que ela escrevia.

São muitas as histórias de escritoras mulheres que foram desacreditadas, colocadas em segundo plano em detrimento de algum escritor homem mais famoso, e nenhum homem escritor jamais passou por o que uma mulher escritora já passou ou passa. Nenhum homem teve que escrever com um eu-lírico feminino para ser lido e publicado, nenhum homem teve que publicar com pseudônimo feminino para ser lido e publicado. Nenhum homem jamais teve sua capacidade de entendimento desacreditada somente por ser homem.

E por que não lemos mulheres?

Porque a literatura produzida por homens é a mais divulgada e acreditada. Todo e qualquer conteúdo produzido por homens é mais bem visto do que um que foi escrito por uma mulher.

Existem diversos livros escritos por homens que são extremamente problemáticos, e nem tão bons como dizem, mas que se tornaram clássicos simplesmente por terem sido escritos por um homem. 

Fahrenheit 451, escrito por Ray Bradbury, é um romance distópico de ficção científica que fala de um futuro distópico onde o trabalho dos bombeiros é basicamente queimar livros. Nele, o personagem principal, Guy Montag, se interessa por uma garota de 17 anos que some misteriosamente, bate em sua esposa, Mildred, e a ofende diversas vezes. Além disso, a história deixa várias lacunas gigantescas, como a explicação para o desaparecimento misterioso da vizinha de Montag, e o sumiço de Mildred no fim da história, no qual a única explicação é que ela pegou o carro e foi embora.

Também podemos falar de “Lolita”, romance de Vladimir Nabokov, que narra a paixão de um pedófilo por uma menina de 12 anos, contendo narração de estupro, de abuso psicológico, e que, mesmo assim, é aclamado pela crítica, é aplaudido, é romantizado, como se pedofilia devesse ser romantizada, como se fosse algo positivo todo o absurdo daquela história.

Temos aqui 2 bons exemplos de livros aclamados, mas que contêm problemáticas totalmente inaceitáveis. Um homem, mesmo que cometa todos esses erros, vai ter muito mais prestígio do que uma mulher. Mas se uma mulher comete qualquer erro em sua história, já é um motivo para que o seu livro seja engavetado ou deixado de lado pelos leitores e pela imprensa.

Mas, afinal, o que faz de um clássico… um clássico?

Há quem diga “mas existem clássicos escritos por mulheres!”. Sim, existem, mas compare com o número de “clássicos” escritos por homens. Compare as histórias. Sempre há um romance nesses livros, precisamente. Com raríssimas exceções. Já naqueles que foram escritos por homens, isso não é uma regra. Nos livros deles, não precisa ter um romance para que seja um clássico - romance heterossexual diga-se de passagem - nem para que seja publicado.

O que faz de um clássico um clássico? Ele tem que ser inovador, ter revolucionado uma época, ter algo único, ser marcante, comentado, e também precisa ser escrito por um homem. Se for escrito por uma mulher, então precisa ser preciso em cada detalhe, ou já não é mais tão bom para ser considerado um clássico.

Sabe qual foi o primeiro clássico da literatura? “The Tale of Genji” [“O Conto de Genji”, e em japonês “ Genji Monogatari”], escrito pela escritora e dama de companhia na corte imperial japonesa Murasaki Shikibu, publicado por volta de 1008 d.C., século XI. Nessa época, até mesmo as mulheres mais nobres, que tinham acesso à educação, estavam sujeitas a regras e limites.

Elas viviam isoladas do mundo externo e não conheciam a linguagem erudita, que por sua vez era de uso exclusivo masculino. Mesmo assim, nessa época, um grupo de japonesas produziu a melhor literatura da época, sendo Murasaki a mais conhecida devido ao fato de ter publicado o primeiro clássico da história da literatura. Murasaki destacou-se desde criança por demonstrar aptidão nos clássicos chineses, e conseguiu adquirir fluência na língua culta, que, conforme dito anteriormente, estava restrita aos homens.

Também temos exemplos de mulheres que tiveram suas obras destruídas por serem consideradas imorais, como Safo, escritora grega lésbica, originária da ilha de Lesbos, escreveu belíssimos poemas contando seus romances lésbicos, por volta de 600–500 a.C., que foram queimados em praça pública pela igreja de Roma no século XVIII como forma de represália ao pensamento da mulher e à sensualidade feminina, tida como imoral para os católicos.

Poucos poemas nos restaram, a maioria são fragmentos. Toda sua obra foi destruída porque o pensamento da mulher, sua existência e essência sempre foram tidos como imorais, errados e, principalmente, pecaminosos.

Cassandra Rios, pseudônimo de Odete Rios, primeira escritora brasileira a vender um milhão de exemplares no país, foi perseguida e censurada durante a ditadura militar por tratar de temas como lesbianidade e o desejo sexual da mulher em seus livros. Escrevia literatura de cunho erótico, e foi classificada como pornográfica durante a ditadura militar. Seus livros deixaram de ser censurados quando ela passou a usar dois pseudônimos masculinos, Clarence Rivier e Oliver Rivers, e passou a colocar casais heterossexuais em suas histórias.

Esses são só alguns exemplos que provam que, sim, mulheres escrevem e sempre escreveram. Mas, então, por que pouco conhecemos os seus trabalhos? 

Os motivos são muitos, como a falta de divulgação, de apoio, de interesse em serem lidas devido à cultura de que livros escritos por mulheres não possuem qualidade, devido ao fato de que muitas mulheres não possuem tempo para se dedicarem à escrita por terem jornadas às vezes triplas de trabalho, o que acaba por causar uma escassez de escritoras mulheres, e, quando aparecem, estão sempre em um mesmo gênero: romance. Raramente partem para outros gêneros literários.

Além disso, há outros fatores que contribuem para que a literatura escrita por mulheres seja menos valorizada e conhecida. Um livro escrito por uma mulher lésbica não será ignorado apenas por ter sido escrito por uma mulher, e sim por ter sido escrito por uma mulher lésbica, e será pior caso esta tenha retratado relações lésbicas em seu livro, como foram os casos de Safo e Cassandra Rios. A possibilidade, então, de não chegar nem a ser publicada é muito grande.

Um livro escrito por uma mulher negra não será ignorado apenas por ter sido escrito por uma mulher, e sim por ter sido escrito por uma mulher negra, e será pior caso ela retrate a realidade de pessoas negras. Um exemplo disso é a escritora Chimamanda Ngozi Adichie.

Seus livros se passam na Nigéria, como em Meio Sol Amarelo e Hibisco Roxo, ou intercalam entre a Nigéria e os Estados Unidos, como é o caso de Americanah. Mesmo tendo vendido milhares de cópias e ter sido traduzida para 27 línguas, seus livros não são valorizados e nem divulgados. Aqui no Brasil, seus livros foram pouco divulgados, mesmo com todo o prestígio que a autora tem internacionalmente.

Por outro lado, por muitas vezes nem ouvimos falar de suas existências.

Philis Wheatley foi a primeira poeta negra estadunidense a ser publicada. Seu primeiro poema a ser publicado foi em 1770, e se tratava de um tributo poético ao evangelista George Whitefield. Os principais temas de seus poemas eram religião, escravidão, e muitos eram dedicados a figuras famosas. Porém, hoje em dia quase não se fala dela, e não há nenhuma tradução (pelo menos oficial) de seus poemas para o português.

Formiga, poeta negra de São Paulo que retrata a realidade de pessoas negras, principalmente a da mulher negra lésbica, em seus poemas. Possui alguns zines e seus poemas podem ser encontrados em alguns blogs, como o “Papo Reto do Brejo”.

Portanto, conclui-se, mais uma vez, que, sim, mulheres escrevem, mulheres sempre escreveram e continuarão a escrever! O que precisamos é valorizar mais os livros feitos por mulheres, acabarmos de uma vez por todas com o preconceito com a literatura feita por mulheres, com a ideia de que o que mulher escreve é inferior àquilo feito por um homem, e para isso, precisamos acabar com a ideia enraizada de que nós, mulheres, somos naturalmente cidadãs de segunda classe e incapazes. 

Precisamos divulgar os livros que lemos e que foram escritos por mulheres e dar preferência às obras feitas por mulheres, pois já há um grande mercado literário para os homens. Precisamos conquistar o nosso espaço no mercado, e precisamos permitir que outras mulheres conquistem espaço no mercado literário.

Se mulheres escrevem, escrevamos.


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