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The Matrix Resurrections - Inevitável

The Matrix Resurrections - Inevitável

“Pode vir redpiller que eu te acerto um na fuça” - WACHOWSKI, Lana (Divulgação/IMDB)

Vamos fazer como o filme em questão. Voltemos no tempo. 

O ano era 1999. O planeta só não prendia a respiração porque o ataque ao World Trade Center era imprevisível. Zelda e Final Fantasy ganharam suas primeiras versões em 3D. O conceito de vida virtual tinha dado seus primeiros passos na mídia em massa com o excelente O Show de Truman, além de outras histórias inspiradas, como Cidade das Sombras.

Lana Wachowski, antes de sua transição, lançou, junto com a irmã, um filme de ação despretensioso chamado Matrix. E mudou a história do cinema. Ousou fazer isso no mesmo ano de Star Wars Episódio I - A Ameaça Fantasma.

Para muita gente dessa geração, foi a primeira vez em que o Cinema como um todo – fotografia, trilha sonora, edição, narrativa – se unia para invadir os sentidos e a consciência. Até a nossa definição de realidade foi reconfigurada.

As irmãs Wachowski nunca alcançariam o mesmo nível de sucesso. Suas paixões só acertaram o zeitgeist com tanto vigor daquela vez. Seu amor por animes, games, transhumanismo e sci-fi não seriam compartilhados novamente, nem mesmo por seus seguidores mais fiéis.

Speed Racer, Cloud Atlas, Sense 8, O Destino de Júpiter, todos projetos que miraram muito alto. O sucesso inconstante de cada um deles atribui-se muito mais à aversão por experimentação com o qual o público recebe o Sci-Fi esteticamente contestador do que por falta de qualidade. Vide a obra de Christopher Nolan, que prefere exercícios cerebrais terrivelmente engravatados.

Living out their lives. Oblivious.

Matrix – considerando ou não suas continuações – fez tanto sucesso que foi incorporado à cultura pop como um ícone. Como cenário. Como meta de vida. 

Infelizmente, muitas vezes, pelo que tem de pior por aí.

A ideia de “lutar contra o sistema” é tão apaixonante ao adolescente incauto que a estética moderna, a mitologia cerebral e “saber kung-fu” tornaram-se o foco aspiracional adotado… Pelos adoradores das máquinas. 

“Tome a pílula vermelha (e se liberte das mentiras)” se tornou parte do linguajar da galera mais conservadora-nociva, que se auto-batizaram de Redpillers. Gente que, na crença de estar destruindo paradigmas, propaga ódio, preconceito e o capitalismo selvagem. Isso sem falar de quem vê no filme uma glamourização das armas – ignorando com louvor o final do filme, diga-se de passagem.  

Matrix, como toda grande obra, recusa-se a ser limitada por interpretações únicas. Porém, é – e sempre foi – uma metáfora para a necessidade por transição que suas diretoras sentiram a vida toda. Nascer numa prisão e precisar se libertar é algo que todo mundo  pode reconhecer, uns mais do que outros.


Keanu Reeves também não acredita que ele envelheceu tão pouco em 20 anos. (Divulgação/IMDB)

Lana Wachowski passou vinte anos observando o mundo vomitar preconceito em pessoas como ela, muitas vezes usando o vocabulário que ela própria ensinou ao público.

E isso explica muito de Matrix Resurrections. Um filme assado no fogo da fúria.

Mr. Anderson. Welcome Back. We missed you.

Thomas Anderson (Keanu Reeves) é um designer de games veterano. Há vinte anos, ele transformou o mercado inteiro, quiçá a cultura Pop toda, ao lançar um jogo de gênero cuidadosamente indefinido chamado Matrix.

Na história do jogo, máquinas guerreiam contra a humanidade, que se vê aprisionada na fortaleza digital que dá nome ao jogo. Um mundo de fantasia virtual que ilude a todos, impedindo-os de viver com seus próprios sentidos.

Mr. Anderson, ainda em recuperação da tentativa de um suicídio, vê-se acorrentado a antidepressivos. Um de seus poucos escapes é ir até a cafeteria do lado do escritório e alimentar o crush distante de uma mulher desconhecida (Carry Ann-Moss).

É quando uma trupe de guerreiros cyberpunks, que parecem ter saído se seus próprios games, vem lhe revelar que – naturalmente – é tudo verdade. Sessenta anos antes, ele, na verdade um líder militar-espiritual chamado Neo, batalhou contra as máquinas e venceu, sacrificando-se para salvar a humanidade. E de alguma forma, o inimigo lhe reviveu e reinseriu sua mente no País das Maravilhas.

Quase nem dá para chamar Matrix Resurrections de uma continuação, tamanha é a força do reboot. Mas pouco a pouco percebe-se que Neo não está de volta à estaca zero. Evitando a armadilha onde Star Wars - O Despertar da Força tropeçou (mas que Os Últimos Jedi soube aproveitar de forma brilhante), as coisas estão bem diferentes. O mundo evoluiu.


Uma IA do bem. Logo, o pessoal pós-Zion também vai ter acesso a APIs. (Divulgação/IMDB)

Quando desperta, Neo não encontra o mesmo ambiente de guerra opressora que estava lá quando Morpheus lhe acordou. Os humanos agora vivem um período de paz com as máquinas. O pessoal que estranhou a ausência de conflito enlouqueceu e pereceu. Há até máquinas que ajudam as pessoas de carne e osso a sobreviver, a tentar recuperar o planeta.

Por outro lado, as IAs mantém seus “prisioneiros” com um mundo muito mais “apropriado”. Encontraram na constante eterna de Neo uma nova forma de permanecerem exatamente onde estão, e assim planejam ficar para sempre. A não ser, é claro, que ele acorde mais uma vez, e leve junto sua amada Trinity.

Do you think that’s air you’re breathing?

Lana Wachowski confunde e ilude tanto quanto seus próprios agentes. O filme é uma continuação direta da história concluída em Matrix Revolutions, mas isso é um mero detalhe. A intenção aqui é muito menos contar uma história, dar um passo adiante na saga de Neo e companhia, e muito mais em fazer o público entender uma posição, uma opinião.

Nas últimas semanas de 2021, a Netflix lançou um filme com intenções similares. Não Olhe Para Cima, do agora satirista Adam McKay, conta uma história que, por si mesma, é completamente vazia de personagens, trama e qualquer razão narrativa além de passar uma mensagem. Porém, estando mais enamorado com a ideia de estar certo do que de criar dúvida na cabeça do público, absolutamente todo mundo que assiste Não Olhe Para Cima vai se achar legitimado. Até quem o filme critica.

Matrix Resurrections não. Este filme não veio aqui para fazer amigos.


Dejavú é um “tema” recorrente. Queira você ou não. (Divulgação/IMDB)

As metáforas aqui beiram o cômico de tão claras, e isso é completamente intencional. A irmã Wachowski toma decisões bem conscientes de não se levar a sério, e nem pedir isso ao público. Sua missão aqui é desconstruir, no sentido mais literal possível. Até mesmo o que era sagrado.

Repete temas, cenários e personagens (mesmo que repaginados) e desmonta tanto a importância mitológica quanto a importância narrativa de muitos deles. Assim, expõe sem sutileza alguma que a liberdade verdadeira não é nada do que o mundo entendeu de seu sucesso em 1999.

O Matrix original criou legados cinematográficos, filosóficos, e financeiros tão imensos na cultura Pop que estes legados se tornaram muito maiores que a obra. E o que Matrix Resurrections quer transmitir é que isso é ruim para todo mundo. 

Ao ser obrigado a revisitar seu mundo imaginário, Thomas Anderson, distante, atordoado, é obrigado (e nós com ele) a observar um bando de GenZs fazer uma autópsia dos significados da trilogia original. São retratados como bobos úteis, que mesmo quando interpretam Matrix com as chaves certas, vêem tudo como uma commodity intelectual. Uma “maneira de ser inteligente, prafrentex, cool” ao invés de, simplesmente, um filme. A versão PG-13 dos Redpillers.

It is inevitable.

Há um esforço não tão efetivo em adequar este aspecto, do que Lana Wachowski realmente quer dizer sobre seu próprio legado cultural, ao fato de que Matrix Resurrections ainda precisa ser um sci-fi de ação. Ainda existem conceitos de ficção científica fascinantes. É outra chave útil de entendimento perceber o quanto a história se distancia do cinismo grunge do Cyberpunk em direção ao otimismo cauteloso do Solarpunk.

Mas a maior parte do que Resurrections almeja é chutar a canela da indústria do cinema. Ou seja, o já cunhado aspecto “anti-blockbuster” é muito mais forte do que o de entretenimento. Como David Ehrlich aponta em sua crítica, a grande ironia é que o filme saiu na mesma época do retumbante Homem-Aranha - Sem Volta para Casa

Em especial porque Wachowski precisa deixar claro seu desprezo (muito necessário a nós) pela gana do “simplesmente mais e maior”. Os três primeiros Matrix aniquilaram o “uso de fórmulas conhecidas” em sua época, e agora, 20 anos depois, tornaram-se o insumo principal de uma nova leva de fórmulas-prontas de entretenimento. As “máquinas do sistema” conseguiram reutilizar o cadáver dos filmes originais para “manter a ilusão indefinidamente”.

Não é à toa que Neo se sente mal.


Você acha que é uma pílula vermelha, mas é tão azul que dá a volta e fica roxa. (Divulgação/IMDB)

Há uma poesia bizarra no fato de um dos sucessos moderados das irmãs Wachowski (como produtoras) ser V de Vingança. Outra obra seminal cuja linguagem visual foi cooptada por um monte de gente que nem sequer leu a HQ original. O escritor do quadrinho, Alan Moore, está sempre expressando seu ódio pelo próprio legado.

Considera ser sua “responsabilidade” o mundo dos quadrinhos ter se tornado um antro de “violência e escuridão”, gerando um sem fim de obras que se acham adultas só porque “são pesadas”. Afinal, ele criou Watchmen, A Piada Mortal, entre outros.

Ou seja, o Alan Moore é o avô do Zack Snyder. Como culpá-lo de ter raiva do próprio legado?

I’m going to show them a world without you.

Há muita gente frustrada com Matrix Resurrections. Os trailers não ajudaram em nada, vendendo mais um episódio de uma aventura techno com tiroteios e piruetas. E no final, o protagonista não encosta numa arma em momento algum.


COMO UMA DEUSAAAA. (Divulgação/IMDB)

Pior ainda (para a ala da misoginia). Em Resurrections, o messias é uma mulher, que se liberta de um padrão de vida escolhido para ela pelo sistema. E ela chuta a cara desse sistema, literalmente.

A ação em Matrix Resurrections é ruim. Filmada de maneira displicente, coreografada sem inspiração ou intenção narrativa. Um contraste horripilante contra os filmes originais. Não importa o teor do filme, isso depõe contra qualquer boa intenção de Wachowski. Se formos muito mais cínicos do que precisamos ser, isso pode até demonstrar uma imaturidade acerca do entendimento do que realmente é Cinema e da importância da ação. Na prática, é só mais munição para os detratores do filme.

Porém, a soma de suas partes torna Matrix Resurrections um filme importante pelo que ele tem a dizer sobre cinema, em especial sua indústria. Sobre criatividade e sobre uma forma bem menos maniqueísta de liberdade.


“Eita, esse tiroteio não vai a lugar nenhum!” (Divulgação/IMDB)

É muito difícil enxergar as barras da prisão quando nós aprendemos a amá-la. Mas ainda temos aquele sentimento inquietante no fundo, de que a vida, a arte, o amor e até mesmo nosso trabalho diário pode significar muito mais. Às vezes é uma questão de perspectiva. Outras vezes é uma questão de enfiar o pé na cara do Neil Patrick Harris.

Lana Wachowski termina os dois filmes mais impactantes de sua carreira com versões diferentes da mesma música, originalmente do Rage Against the Machine, Wake Up. Acorde. 

Ela e sua irmã usaram sua arte, ao longo das vidas, para fazer duas coisas: a primeira é erguer um dedo do meio elaboradíssimo em direção a sistemas de opressão. Se recusar a fazer parte destes processos.

A segunda é mandar um aviso: “minha missão é te destruir”. Quebrar a realidade e as amarras que aprisionaram suas próprias fisicalidades e existências.

Matrix Resurrections é uma recusa a fazer parte de um sistema que, no final, merece ser destruído.

How long? Not long. Cause what you reap is what you sow.


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