Na subida do morro de Ilhabela

Na subida do morro de Ilhabela

Imagem: Dandara Barbosa

Ilhabela (sim, se escreve junto) é uma cidade dentro de uma ilha no litoral norte de São Paulo que por si só tem cara, fama e cheiro de burguesia. O que descobri é que existe uma Ilha no imaginário coletivo das pessoas e se trata de uma cidade cara, turística e apenas isso, mas o que realmente é Ilhabela? Quem vive nela, como vive e o que consome? 

Logo de cara, ao cruzarmos de balsa, é uma cidade limpa, organizada, funcional, onde as pessoas param os carros para os pedestres em qualquer faixa.  

Além disso tem ótimos restaurantes, praias deslumbrantes e gente branca, muita gente branca por toda parte um ar de gente progressista, panos coloridos, cara de quem faz Yoga popularmente apelidados de “Cocaieros”.  

Cocaia é uma bairro de Ilhabela, localizado no meio da floresta, onde eles dizem viver os habitantes namastê que curtem uma bossa nova, meditam e são veganos. Por terem tanta positividade tóxica, ganharam o apelido de acordo com o bairro. Kkkk #impliquei 

Mas onde está a gente preta de Ilhabela? Responder essa pergunta é fácil: servindo, limpando e organizando. Como em todo o Brasil, para encontrar esse lado do município basta subir os morros: Barra Velha, Carijós, Morro dos Mineiros, Bexiga, Buraco Fundo, Camarão, Senzala, Cantagalo, Reino e por aí vai.  

A Ilhabela real se esconde atrás de uma maquete bem planejada, onde o turista visualiza apenas a orla da praia e não a "pseudoperiferia", habitada por pretos e pobres da cidade.

Chamo de “pseudoperiferia”, porque embora sejam bairros de comunidade, são completamente diferentes do que vamos encontrar no Rio ou na Grande São Paulo.

Ilhabela é pouco violenta e até mesmo nos bairros periféricos é possível visualizar essa gente vivendo com segurança, mas eles estão lá, com todos os dilemas próprios da população preta e pobre do Brasil.  

Nino, meu guia pela cidade sempre que venho, decidiu me levar para um pequeno quilombo urbano na Ilha, no alto da Barra Velha, onde está localizado o Projeto Semear (tema para um próximo texto).

O quilombo está situado o Bar da Galera e posso afirmar que é o melhor ambiente da cidade para quem quer fugir do roteiro turístico do centro histórico e perequê. 

Começando pelo nome do bar “Na subida do morro é diferente”  que faz alusão à canção “Na subida do morro” dos Originais do Samba — banda preferida do dono do bar, o DJ Kost.

Kost herdou o bar do pai. O que antes era apenas um boteco de morro, logo se transformou num centro cultural de aquilombamento dos pretos de Ilhabela. 

Mensalmente rolam saraus literários, slam’s, exposições artísticas e fotográficas, discotecagem, muito samba, cerveja barata (coisa rara em Ilhabela), drinks, comida boa e muita, mas muita gente bonita e o colorido dos corpos que transitam pelo espaço. 

Ali é um dos poucos lugares onde o público majoritariamente é preto. E como é incrível a interação dos personagens! Como estão numa ilha, cidade pequena, todo mundo se conhece pelo nome, todo mundo faz parte dos mesmos coletivos e do mesmo rolê. As divergências políticas e ideológicas coexistem em perfeita harmonia, ninguém invade o espaço de ninguém e todo mundo se comunica na mesma linguagem. 

Outro dado interessante do Bar é que eles tem moeda própria “Odu notas impressas com a cara de personalidades negras. Você chega ao bar e troca seu real por Odus e consome com esse dinheiro próprio de circulação deles, é lá que a “magia negra” acontece.

O bar fica num bairro também muito curioso. Em Ilhabela é nítida a diferença social dos moradores pelos próprios bairros como em qualquer lugar do país, porém a Ilha possui um único bairro de escritura definitiva a Barra Velha.

Por ser o único lugar onde se pode comprar um terreno ou casa com a escritura definitiva, existe um mosaico de ambientes e casas no mesmo espaço. Ao lado de uma mansão tem uma casa mais humilde e sem acabamento, é comum transitar entre casas de classe média alta e de periferia de uma esquina para outra.  

O que faz Ilhabela ser esse lugar tão misterioso? O que fazem essas pessoas tão diversas dentro de um mesmo ambiente? As pessoas pretas e periféricas estão lá, à vista, ainda que invisibilizadas pela própria cidade, mas estão lá, se aquilombando, se cultuando, formando corpo para algo que, talvez, nem eles mesmo saibam. 

E por mais que a cidade tente higienizar e barrar essa existência, elas estão lá, resistindo e existindo, criando e fazendo acontecer.  Na subida do morro é realmente diferente e pra mim é bem mais legal.


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