“Sim, a cloroquina salva vidas!”

“Sim, a cloroquina salva vidas!”

Toda vez que alguém me diz “como é que fulano pode acreditar em cloroquina?” ou “sicrano é terraplanista”, eu gosto de me perguntar: o que fez com que ele (ou ela) acreditasse nisso? E, em geral, chego a conclusões que se repetem.  

Primeiramente, a gente tem que levar em conta o “como é que pode” da primeira pergunta. Afinal, qualquer pessoa pode acreditar em cloroquina. Tem liberdade para isso.  

A cloroquina existe, e o discurso sobre a capacidade dela de curar também existe. Por isso, é necessário entender a construção de sentido no discurso. 

Então, vamos ao ponto seguinte: o argumento. Sim, qual é o argumento que essa pessoa usa para confirmar a sua crença? E, mais do que um argumento, em geral há um conjunto complexo de argumentos, que se entrecruzam e se confirmam. 

Provavelmente, você me diz agora: “Não, eles não têm argumentos, tem crenças!” E aí está um ponto fundamental. Nunca desmereça os argumentos dos outros. Se você fizer isso, ele vai continuar do outro lado. Note o que eu disse: outro lado! 

Por isso, faça uma escolha importante, se você quiser convencê-lo de algo, ou pelo menos tentar. A escolha é pegar na mão e trazer para o seu lado. E, para pegar na mão, é necessário ir até lá, do outro lado, buscá-lo. Ridicularizar os argumentos, por exemplo, é um caminho sem volta, e você não vai conseguir buscá-lo nunca. 

Então, ouça. É provável que um terraplanista ou um “cloroquinalover” tenha inúmeras histórias para contar, testemunhos, vídeos de “cientistas”, artigos. Preste atenção a todos eles, dê liberdade para que ele tenha a sensação de que está convencendo.  

Ao ouvir, tente compreender quando foi o momento em que, cansado, excluído ou frustrado do que você chama de ciência, essa pessoa preferiu ouvir quem tinha explicações estapafúrdias para dar conta da realidade. 

Em geral, você vai compreender que o que o levou a acreditar nas teorias foi a segurança sobre explicação do mundo. Se você não tem outra explicação tão boa (e em geral quem faz ou acredita na ciência não tem), o trabalho é ainda mais difícil, você vai ter a missão inglória de tirar alguém de um lugar seguro para trazer para uma insegurança total. 

Veja só: quem acredita na cura da covid pela cloroquina está em um ambiente seguro. Se você disser que ela não cura e não entregar outro remédio que faça isso, somente a insegurança do isolamento social e de vacinas que não têm 100% de eficácia, sua história é pior do que a dele. Portanto, como você vai tirá-lo de lá? 

Minha resposta é aquela que eu anunciei há pouco: dando a mão. É concordando com o princípio do que ele diz, dizendo que realmente nós precisamos de um remédio que cure a covid, que você tem os mesmos medos do que ele em relação à doença, que a cloroquina com certeza é um remédio que salvou muitas vidas, pois desde que existe evitou inúmeras mortes por malária.  

Diga também que nós todos estamos tristes, assustados, sem saída e podemos inclusive chorar juntos, mas não podemos nos associar a uma ideia que, com certeza, não tem pé nem cabeça. Mas, até chegar ao ponto do “não podemos”, são horas, conversas, confissões de fraqueza. 

Não adianta achar que um xingamento no Facebook ou no Twitter vai dar conta de tirar o devoto da cloroquina de lá. É processo longo, complicado, com dedicação e cuidado. 

Mas vale a pena sempre! Se você conquistar uma pessoa dessas, não se esqueça também de que qualquer ridicularização, nas redes sociais ou no churrasco da família, pode levá-la para o outro lado de novo. Esqueça o que houve, toque a vida, compartilhe textos bacanas, e finja que ela sempre esteve consciente. 

Afinal, a frustração, o medo e a exclusão criam esses sistemas que alimentam os malucos que se vendem como cientistas da explicação fácil, definitiva e conclusiva. E sabemos que fazer ciência nunca vai nos dar essa segurança. 

Portanto, comece todas as discussões dizendo: “Sim, a cloroquina salva vidas!” 

 


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