O Futebol e o Tempo

O Futebol e o Tempo

Como a vida e a sociedade, o futebol também muda. A aceitação de mudança pode ser tão difícil no microcosmo do jogo de bola quanto na vida real. Aceitar implica entender que, no caso, embora o futebol tenha um significado muito próprio a cada um e sua geração, ele, de fato, não nos pertence. E a evolução do tempo é inevitável.

Acredito que essa constatação seja a causa das discussões homéricas que eu tenho com o Paulo toda vez que vou à sua casa ver uma peleja. Dois aposentados ranzinzas e teimosos vendo uma partida do Campeonato Brasileiro, o que poderia dar errado?

Paulo não perde a oportunidade toda vez que a bola gira de um lado a outro da defesa e acaba recuada ao goleiro:

- Olha lá, já estão na covardia, recuando a bola pro goleiro. Que medo de jogar! Futebol é pra frente! O desabafo vem sempre acompanhado do mesmo gesto, braços rijos em riste, palmas da mão viradas para dentro. Tento contra-argumentar:

- O futebol mudou, velho teimoso! Hoje em dia é muito físico. Os times atuam mais compactos, velozes e em bloco, o que diminui os espaços. A opção por trocar passes na defesa é tentativa de abrir o time adversário e conseguir uma transição rápida ao ataque aproveitando as brechas.

É o que eles chamam de ‘box to box’, de uma área à outra! Lembro-lhe, à guisa de exemplo, que a infância de seu filho Nelo - sem citar a nossa, que já seria covardia - foi caçando garrafas de cerveja vazias pela rua para quebrar e jogar os cacos no trilho do bonde. Este passando, triturava o vidro e dele faziam cerol.

O menino vivia pelas ruas do Grajaú correndo atrás de bola e pipa. Seu bisneto, que o Julinho tá devendo - esses meninos acham que a gente vive pra sempre -, vai crescer com o mundo na mão todo enrolado ao ir à esquina. A discussão é sempre infrutífera. Paulo afirma, taciturno, que recuar a bola ao goleiro é medo de jogar e nunca vai entrar na cabeça dele abdicar de atacar.

- Ninguém me convence que essa política de recuos; ó lá, mais um agora; dá certo em algum lugar. O que está faltando ao Brasil é um Didi e Garrincha. Tá faltando gente corajosa e inteligente que vai pra frente e improvisa sem recuar! - diz um enervado Paulo.

- Didi e Garrincha estão mortos, velho amigo, junto com Waldir Calmon. E não há nada que possamos fazer. Mas até esse camisa 10 recuando bola pro goleiro já é esculhambação, tão gozando da gente! Pra frente, meu filho!

- Viu como irrita? Impossível não reclamar!

- Eu só venho aqui por causa disso. O dia que você parar de reclamar eu paro de vir.


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