O fascismo que não parece fascismo

O fascismo que não parece fascismo

Pode estar escondido no meio de valores decentes, positivos, amáveis. Onde a gente menos espera. Mas está lá, à espreita.


 

Tem coisas que parecem fascismo. Uma foto do Mussolini marchando por Roma ou discursando na sacada do Palazzo Venezia tem tudo de fascismo. Afinal, está nos livros de história e na nossa memória coletiva, se é que isso existe.

Porém, hoje, a minha intenção é conversar com você sobre algumas coisas que não parecem fascismo, mas estão no nosso dia a dia. Mais do que isso, essas coisas estão, principalmente, nas raízes do fascismo.

O Feixe de Esopo

Primeiro, vamos ao óbvio, a uma famosa fábula de Esopo. Embora muita gente diga que ela não tem a ver exatamente com aquilo que foi chamado de fascismo na Itália, a história é interessante. Então, tenhamos um tempo para interpretá-la. Aqui vai a minha versão, que desde já peço perdão pela incapacidade de criar o cenário dramático que parece necessário.

Disse Esopo, então, na fábula "O ancião e seus três filhos", que havia um ancião que tinha três filhos. Isso é óbvio e muito claro. Ocorre que o tal ancião estava chateado. Ele tinha uma propriedade, gerava uma certa riqueza e temia morrer. Não pela morte em si, mas pelo que seus filhos fariam com a tal propriedade.

Como você deve imaginar, em uma família que tem três caras cujo pai tem uma certa grana, cada um ia para um lado, pensava de um jeito, fazia questão de discordar dos outros.

Foi aí que o ancião teve uma ideia. Chamou os três filhos para uma conversa, com três gravetos na mão. Olhou para cada um deles e disse: “Estão vendo esses três gravetos? Representam vocês!”

Juntou os três gravetos em um feixe, tentou quebrar todos juntos e teve dificuldade. Então, explicou: “Estão vendo? Se eu tento quebrar os três gravetos unidos, fica difícil.” Separou e quebrou facilmente cada um, dizendo: “Porém, quando cada um está separado, é muito fácil quebrá-los.”

E continuou: “Entenderam o que eu digo, meus filhos? Se vocês estiverem unidos quando eu não estiver mais por aqui, dificilmente terão problemas, ninguém vai conseguir quebrá-los. Porém, se vocês continuarem desunidos, em discordância, terão muitas dificuldades. Portanto, quero que vocês me prometam que vão ficar sempre unidos depois da minha morte”.

Não queremos saber se os filhos ficaram ou não unidos depois da morte do pai. Mas a história deu origem ao famoso Feixe de Esopo. Foi usado em Roma, em um bando de lugares, e ainda hoje é representado em convenções de vendas e outras palestras por aí como sinônimo da expressão “A União faz a Força”.

É, mas não parece

Parece uma ideia bacana, que valoriza o esforço conjunto. Porém, o que vem com ela é a ideia também de que quem não concorda, não trabalha junto, não se une, não reza na mesma cartilha, também não é útil. E aí é que mora o perigo, o tal do fascismo que não parece fascismo.

Afinal, sociedades que levam ao extremo essa ideia de união tendem a excluir, tornar inútil e posteriormente perseguir quem pode estar “atrapalhando” o projeto comum.

E isso está presente no nosso dia a dia mais do que a gente imagina. Faça um esforço e observe, inclusive nos seus espaços. Veja quantas vezes, nos últimos tempos, você ouviu alguma expressão ou ideia próxima a isso. No ambiente do trabalho, na discussão com os amigos, na conversa do pastor ou do padre na igreja, e mesmo na família. Ah, a família!

Já que chegamos até aqui, vamos falar dela. Você já notou que as famílias em geral têm afirmações que beiram a ideia de “nós” contra “eles”? E o pior é que parece bonito, todo o mundo junto, com sentimento de pertencimento, protegendo-se mutuamente, sem se preocupar com o que o outro quer, se ele tem razão, se tem uma ideia ou uma questão legítima. Não! Nós, dentro da família, temos que pensar primeiramente nos nossos.

Isso quer dizer que toda família é fascista? É claro que não! Quer dizer é que o fascismo é resultado dessa ideia de proteção, de união, do sentimento de pertencimento levado ao extremo. O fascismo parece atraente, bonito, ético, digno.

Portanto, o que origina e mantém o fascismo e as ideias fascistas, em sua base, não tem um sentido de fazer o mal, de matar, de excluir. Mas quando a sociedade como um todo tem medo e preocupa-se com o que há de vir, aí sim essas questões se revelam da pior forma.

E é interessante lembrar como o pensamento que elegeu o presidente Jair Bolsonaro se formou. Quando olhamos agora, com uma certa distância, estavam lá as ideias de tradição, de família, de união. Pareciam bonitas a princípio, compartilhadas nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem com músicas instrumentais e vozes graves.

“Olha como no passado se valorizava a família, os pais eram respeitados, todos trabalhavam unidos por um bem comum. Todos eram cidadãos de bem. Por que não voltar àquele tempo?” Então, a mensagem era para brigar, criticar, destruir o que não era família, tradição e união.

Os movimentos identitários, a reorganização social por mecanismos racionais (as cotas, por exemplo) e outras bandeiras liberais importantes eram vistas como a ameaça ao que havia de melhor, ao nosso passado de famílias unidas. Deu no que deu.

O problema é que não dá para chegar no Brasil de hoje e dizer para todos que elegeram Bolsonaro que os valores familiares, lembrados durante toda a campanha dele, devem ser abandonados. Porém, se deixarmos de encarar o que está escondido nisso tudo, viveremos em uma constante ameaça de que a saída conservadora (e por que não dizer, fascista) estará à nossa porta, inclusive em governos que se dizem progressistas.

Sim, minhas caras e meus caros, o fascismo que não parece fascismo e até tem uma cara bonitinha de vovozinha feliz, está sempre à nossa espreita, esperando uma pequena fresta para invadir qualquer ambiente. O que fazer, então?

Imagem da capa - Pat Whelen - via Unsplash

Topo